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segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Jornalismo em cheque o caso da crise da Bolívia

O jornalismo (como a historiografia) deveria trabalhar com fatos e a partir deles os jornalistas podem analisar e opinar sobre a realidade, embora seja importante evitar juízos de valor. Entretanto, parece que os fatos cada vez mais estão sendo desconsiderados. Na atual crise do jornalismo a regra parece ser relativizá-los.

Para que vocês possam avaliar essa questão, destaco a seguir dois artigos. O primeiro foi escrito por um jornalista e o segundo por um cidadão sem formação no jornalismo e que ganha a vida viajando pela América Latina, vendendo peças para veículos. Leiam cuidadosamente ambos os textos e depois reflitam, quais dos autores merece a alcunha de bom jornalista?

TEXTO 1:

MANUAL DO PERFEITO IDIOTA

14/09/2008- Antonio Tozzi*

Miami (EUA) - Esta semana, os presidentes da Bolívia e da Venezuela deram mais algumas valiosas contribuições para o “Manual do Perfeito Idiota Latino- Americano”, livro escrito pelo cubano Carlos Alberto Montaner, pelo colombiano Plinio Mendoza e pelo peruano Mario Vargas Llosa, todos ex-esquerdistas decepcionados com os slogans vazios e inconseqüentes.

Pois não é que o sr. Evo Morales fez a parte dele para figurar no tal manual ao expulsar o embaixador americano da Bolívia, sob acusação de estar conspirando com os separatistas que querem dividir o país? E ainda afirmou ter sido o cidadão um dos artifices da separação de Kosovo. Ou seja, Evo ainda deu uma de analista de política internacional.

É uma pena. Estive entre aqueles que achou bem legal a eleição de um indígena aymara para governar o país andino. No entanto, o índio infelizmente não passa de um títere daqueles esquerdistas com idéias enferrujadas, que está tornando a Bolívia ainda mais empobrecida do que já era.

Depois de ter tomado o poder, partiu para estatização de empresas e inflamados discursos “anti-imperialistas”. Em vez de fazer um governo de coalizão, na linha do que vem fazendo Lula no Brasil, Evo Morales preferiu hostilizar os empresários locais e enfrentar as companhias estrangeiras que estavam fazendo investimentos no país, como foi o caso da Petrobras, por exemplo.

Ao adotar esse tipo de posicionamento, açulou os opositores que aproveitaram a oportunidade para se reagrupar após terem sido legitimamente derrotados nas urnas. E com esta postura está levando quase o país a uma guerra civil, em vez de melhorar a vida de seu povo – sobretudo a dos sofridos indígenas que há centenas de anos são massacrados.

Entretanto, os índios continuam miseráveis e sem perspectivas, e agora o país tem mais um problema para administrar. E o que faz o grande “estadista”? Expulsa o embaixador dos Estados Unidos do país. Além de ter sido uma tremenda descortesia com uma nação amiga, transferiu a responsabilidade pela crise interna para um país estrangeiro.

Evo Morales só não conseguiu ficar com o título do “Perfeito Idiota Latino- Americano”, graças ao inefável Hugo Chavez. O homem, mais uma vez, demonstrou um destempero que não condiz com um governante de um país sério.

Sem que o embaixador americano tivesse feito algo, ele decidiu “em solidariedade à Bolívia” também expulsá-lo da Venezuela. E ainda ameaçou interromper a venda de gasolina aos Estados Unidos. Obviamente, o governo americano também optou por expulsar os embaixadores da Bolívia e da Venezuela, que tiveram de deixar Washington.

Pior ainda, afirmou que enviaria tropas venezuelanas à Bolívia para intervir no conflito interno do país, “a fim de impedir que os inimigos da revolução bolivariana dessem um golpe de estado”, seja lá o que ele quis dizer com isto.

Pelo menos, o ministro da Defesa da Bolívia teve o bom senso de recusar veementemente a intervenção da Venezuela ou de qualquer outro país estrangeiro nas questões internas da Bolívia.

Finalmente, neste domingo Evo Morales e os oposicionistas começaram a discutir as possibilidades de se estabelecer um consenso. Algo que pode até mesmo resultar em autonomia para algumas províncias, como estão reivindicando os governadores locais. Ou seja, depois de a crise chegar a um ponto quase insustentável, é que começaram a negociar. Algo que deveria ter sido feito desde o início. Tomara que tudo termine bem para o povo boliviano, a verdadeira vítima deste confronto.

Só esperamos que não surja nenhum personagem que queira roubar a cena do “Perfeito Idiota Latino Americano” nesta semana e a América do Sul seja respeitada por seu crescimento e não por patranhas deste tipo.

*Sobre o autor: Foi repórter do Jornal da Tarde e do Estado de São Paulo. vive nos EUA desde 1996, onde foi editore na CBS Telenotícias Brasil e no canal de estortes PSN. Atualmente é editor da revista Latin Trade e do Jornal AcheiUSA.

TEXTO 2

Análise política internacional

Evo melhorou a Bolívia

15/09/2008- Eduardo Guimarães*


Aos poucos, vão sendo impostas a democracia e a verdade aos seus eternos inimigos nesta parte do mundo, ou seja, aos Estados Unidos, à mídia latino-americana e, sobretudo, aos fascistas bolivianos, que tanto mal estão causando ao povo da Bolívia e à democracia de toda região ao reeditarem um passado de golpismo, de racismo e de ruptura institucional.

Facilitado pela mídia golpista daqui, a maior das mentiras que está sendo contada é a de que o governo de Evo Morales Ayma, com seu “comunismo”, estaria afastando investimentos da Bolívia e fazendo ruir a economia do país.
Nesse contexto, vários leitores deste blog vieram aqui repetir bobagens que leram na imprensa golpista tupiniquim sobre a “piora” que o governo da Bolívia promoveu no país, “afastando investimentos” etc.

A “imprensa” estimula a burrice da sociedade ao dar ampla publicidade a discursos enlatados engendrados nas redações das Folhas, Globos, Vejas e, claro, nos “Comitês Cívicos” dos nazistas da “Meia Lua” boliviana.

Essa gente nada sabe sobre a Bolívia. É provável que nem saiba qual é a capital de fato do país, que, à diferença do que se pensa, não é La Paz e, sim, Sucre; La Paz é a sede do governo boliviano. Isso não impede essas vítimas do mau jornalismo de saírem por aí repetindo as imbecilidades que foram inculcadas em suas cabeças vazias.

Diante desse quadro deprimente de emburrecimento jornalístico coletivo, vale a pena expor alguns fatos sobre os êxitos expressivos que também o governo de esquerda boliviano vem obtendo nos últimos anos, à semelhança dos êxitos que todos os governos progressistas da região vêm obtendo em maior ou menor grau.

Evo Morales foi eleito em dezembro de 2005. O país que passou a governar era, então, o mais pobre da América do Sul, com 60% dos seus 9 milhões de habitantes abaixo da linha da pobreza e 38% em extrema pobreza; desemprego de 12%, com 40% de sub-empregados; renda dos indígenas 40% inferior à renda dos não-indígenas (Fonte: Vi o Mundo)

Apesar de ter a segunda maior reserva de petróleo da América do Sul, a Bolívia ainda é o país mais pobre da região. Não foi por outra razão que Evo nacionalizou o gás e o petróleo e negociou seus preços com o Brasil e a Argentina, pois tais preços eram extremamente baixos. O gás, por exemplo, era vendido por cerca de 3 dólares o metro cúbico, apesar de o preço alternativo – por exemplo, da Rússia – ser 3, 4 vezes mais alto. (Fonte: Folha de São Paulo)

Com a nacionalização do petróleo, a Bolívia passou a lucrar 85% das exportações do produto, que dobraram de 2005 para 2006, chegando a 4,9 bilhões de dólares (Fonte: Vi o Mundo).

Mas o discurso falacioso mais comum que as vítimas da lavagem cerebral midiática gostam de alardear é o de que Evo estaria “afastando investimentos estrangeiros” com seu governo “comunista”.

É mentira. A empresa siderúrgica indiana Jindall Steel & Power, por exemplo, ganhou licitação em 2006 para a explorar a jazida de Mutún, uma das reservas de ferro mais importantes do planeta, que fica no leste da Bolívia. O investimento, até agora, soma 2,5 bilhões de dólares (Fonte: Folha On Line).

É bom informar, também, que a mina de Mutún possui reservas de 40 bilhões de toneladas de ferro, 10 bilhões de magnésio (70% das reservas mundiais) e se achava sub-explorada antes de Evo assumir (Fonte: Folha On Line) .

Outro êxito expressivo do governo da Bolívia foi na questão da dívida externa do país. A queda do endividamento boliviano, que ocorreu já no primeiro ano do governo Evo Morales (2006), decorreu da obtenção de muito maior receita do petróleo, principal fonte de divisas da Bolívia e que era vendido a preço de banana ao Brasil, certamente porque os governos brasileiros anteriores devem ter usado “argumentos” altamente convincente$ para que os governos bolivianos de então aceitassem vender-nos gás por preços tão irrisórios...

Os gráficos abaixo mostram quanto caiu a dívida externa da Bolívia a partir do governo Evo Morales, eleito em 2005 e empossado em 2006 (Fonte: Cia - The World Factbook).
Quero explicar a vocês, finalmente, que, durante a recente crise na Bolívia, dediquei-me tanto ao assunto aqui porque descobri uma coisa. Nos últimos 13 anos venho viajando quase todos os meses pela América Latina. Nesses tantos países, fiz amigos, entrei nas casas das famílias, vi as mazelas e as qualidades desses povos e países e com eles estabeleci uma ligação muito íntima. Em suma, aprendi a amar a região em que está o meu país.

Senti uma dor imensa ao ver sofrer tanto, ao ver ser chacinado por bandidos aquele povo pobre, humilde, que tantas vezes me recebeu como se eu fosse uma celebridade só por ser branco, brasileiro e por me dignar a entrar em suas casas humildes.

Os bolivianos são pessoas boas, humanas, com forte senso de solidariedade, humildes ao impensável... Sinto muito por eles, sobretudo pelas vítimas dos reacionários nazistas da “Meia Lua”, uma gente desprezível que, infelizmente, conheço bem, e que explora aqueles índios e os trata como lixo.
Mas parece que as coisas melhoram graças ao apoio decidido dos governos progressistas latino-americanos – e não acreditem na imprensa golpista brasileira quando esta põe em dúvida o apoio de Lula a Evo –, que disseram em alto e bom som aos mentores do golpismo boliviano, os Estados Unidos, que não aceitariam que a potência hegemônica voltasse a promover por aqui sua “democracia” criminosa.

O mundo mudou, a América Latina muda mais do que qualquer outra parte, mas a direita latino-americana, vil, assassina, covarde, golpista e capacho dos americanos ainda não percebeu. Azar dela.

*Sobre o autor: paulistano, blogueiro do Cidadania.com, criador do Movimento dos Sem Mídia e vendedor de auto-peças.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

A revista Veja e a educação como mercadoria


Os meios de comunicação em geral têm dado uma contribuição relevante ao debate sobre o processo de melhoria da qualidade do ensino. Ao apontar falhas e mazelas no sistema de ensino e mostrar o que resultou de positivo nas mudanças que têm sido introduzidas nos últimos tempos, eles participam, de algum modo, do mutirão nacional que empolga a todos.

À onda de boas notícias parece à primeira vista ter-se juntado também a revista Veja, que dedica uma matéria de capa ao tema (edição de 20/08/2008), a pretexto de chamar atenção para os “primeiros sinais de inflexão para cima na curva da qualidade”. Na verdade, o objetivo da matéria é denunciar, com base em pesquisa realizada pela CNT/Sensus, “a mediocridade que se perpetua”, mediocridade que a revista vai identificar na orientação pedagógica atual, de que estaria imbuída a maioria dos professores, e em alguns textos de livros didáticos, de reconhecida inadequação.

A matéria de Veja não mereceria nossa atenção não fosse o fato de que ela não se inscreve na linha de melhoria da qualidade que tem orientado os analistas da educação. A revista Veja não pretende melhorar o que está aí. Muito longe disso, o que pretende é demolir em seus fundamentos o sistema de educação brasileiro, ao agredir frontalmente o conceito de educação pública, nos termos em que esta é concebida na Constituição Federal, assim como nos inúmeros documentos da UNESCO, sem falar das várias declarações sobre direitos humanos firmadas ao longo das décadas pelo conjunto das nações. Veja vai ainda mais longe: investe contra o conceito de educação que acompanha a história humana desde os primórdios civilizatórios até aos mais recentes documentos da ONU, a saber, a educação como capacitação para a vida em sociedade.

De forma oportunista, a matéria não investe diretamente contra os resultados educacionais obtidos no governo Lula, amplamente aprovados pelos pais. Ela visa, na empreitada de sua desqualificação, a fulminar o conceito de educação como tal, ou seja, educação como construção da cidadania e como escola da democracia - conceitos que se constituem em fundamento de todos os sistemas defendidos pelos grandes pensadores da Educação - de Platão a Rousseau, de John Dewey a Pestalozzi, de Rudolf Steiner a Paulo Freire.

Inspirada na proposta educacional do economista Milton Friedman - cujas idéias estão na base do pensamento neoliberal e do projeto tucano de educação para o Brasil, assim como praticado no governo FHC - a revista Veja, desta vez, parece ter conseguido superar-se a si mesma no desserviço que tem prestado aos leitores brasileiros, ao se alinhar à mais tosca, individualista e perniciosa proposta de organização da sociedade, se é que à “educação para o mercado” corresponde algo dotado dos atributos da “educação”, “organização” ou “sociedade”.

Em lugar de escola para a construção da cidadania, Veja propõe a educação como mercadoria, que exigiria como ambiente para a realização das transações apenas o mercado, a única ‘disciplina social” reconhecida. Nada além disso. Somente o mercado seria capaz de assegurar a liberdade, para o desempenho individual e profissional dos indivíduos, além de se apresentar como única medida da eficiência e garantia da eficácia.

Nenhuma referência à sociedade, instituição desprovida de sentido, no dizer de Margaret Thatcher, ex-primeira ministra da Grã-Bretanha e prócer do oportunismo neoliberal. A referência à sociedade, como princípio e diretriz do ensino, segundo sugere a matéria de Veja presta-se apenas a desviar a atenção dos alunos do essencial (que seria o acúmulo quantitativo de conhecimento e a submissão à ordem instituída), doutriná-los com ideologias retrógradas e tornar a escola dependente do Estado, instituição inimiga da liberdade individual.

Por isso, o Estado precisa ser reduzido à impotência, como condição para que possam florescer - em lugar das virtudes cívicas, inúteis e prejudiciais ao curriculum produtivista - as virtudes mercantis de compradores e vendedores. Assim, a revista Veja sonha com alunos desprovidos da mais leve nesga de consciência social, dispostos a aprender somente português e matemática, deixando-se aos cuidados dos proprietários da revista - e, por extensão, dos demais proprietários dos meios de produção em geral - a questão de dispor sobre o que fazer deles. O aluno como objeto, ou como produto, eis o ideal de Veja para a educação. Ou, como mostrava o diálogo entre pai e filho numa charge de jornal: O pai pergunta: “Filho, o que você vai ser quando crescer?” O filho responde: “O que a televisão quiser”.

A revista Veja ignora que, divorciada da referência à sociedade, a escola deixaria de existir, ao sucumbir sob os efeitos devastadores do mercado, que tem como única referência a vitória sobre o concorrente numa disputa encarniçada, desprovida de qualquer consideração moral. Nisso, a publicação peca por falta de originalidade. Joseph Townsend, um político inglês do século dezoito, ao argumentar contra a Lei dos Pobres, apontava como exemplo a ser seguido pela sociedade humana (que identificava com o mercado) o “equilíbrio natural” resultante da luta pela sobrevivência entre espécies animais. Por “equilíbrio natural”, Townsend entendia o espetáculo de carnificina universal oferecido por hienas contra zebras, cães contra ovelhas, chacais contra antílopes e cascavéis contra ratos e assim por diante.

É dizer que o ideal de educação pelo mercado preconizado por Veja faz-nos recuar para aquém do Humanismo Renascentista ou do Iluminismo, atirando-nos a todos numa nova idade das trevas, da qual se tenham abolido - em nome do individualismo autista do “homo oeconomicus”, - as regras da convivência humana, tão penosamente construídas ao longo de milênios. Lança-nos a todos num estado de primitivismo que não é próprio sequer dos animais. Como afirma o grande educador norte-americano John Dewey, “mesmo os cães e os cavalos têm o seu comportamento modificado em contato com seres humanos”. Por que, então, não fazer da educação um instrumento de mudança social? - sugere Dewey.

É nesse contexto que precisa ser compreendida a investida contra Paulo Freire, educador de renome internacional, reduzido por Veja ao “autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização”. Veja desrespeita a inteligência do leitor, ao fazer questão de ignorar que Paulo Freire, ao lado de Josué de Castro e de Milton Santos encontra-se entre os brasileiros acadêmicos mais conhecidos no exterior. O sistema de busca do Google registra 1,65 milhão de ocorrências de Paulo Freire, número somente comparável, entre os grandes nomes de educação no Ocidente, a John Dewey, com 1,63 milhão; Pestalozzi, com 1,75 milhão; e Rudolf Steiner, com 2,52 milhões.

Na Wikipédia, Paulo Freire recebe o mesmo tratamento. É considerado “um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial”, segundo informa a versão em espanhol da enciclopédia eletrônica; ou como “um dos mais influentes pensadores da educação do século vinte”, segundo a versão em inglês. Aí pode ler-se que a Pedagogia Crítica de Paulo Freire inspirou a criação de dois institutos de educação na América do Norte: um no departamento de Educação na Universidade da Califórnia, um dos mais prestigiados no ranking da revista US News & World Report, e outro na Universidade McGill no Canadá. O verbete Paulo Freire ocorre no Wikipédia nas versões francesa, italiana, inglesa e espanhola entre outras, destacando-se a extensão de sua ocorrência na versão alemã, que lhe reserva um artigo de 21.400 caracteres, o dobro destinado ao cientista e político norte-americano Benjamin Franklin.

A Paulo Freire atribui-se o mérito - universalmente reconhecido pelos vários prêmios internacionais que recebeu, entre os quais o de Educação para a Paz, da UNESCO - de avançar no pensamento educacional, ao promover uma síntese das idéias de seus predecessores, como John Dewey. Para todos eles, o aluno está longe de ser um recipiente passivo no qual os professores depositam o seu estoque de conhecimento. Os alunos são os sujeitos ativos da educação - e o que deles se espera é que comecem por fazer as perguntas, que certamente lhes ocorrem da experiência de sua imersão no ambiente familiar e social. As respostas serão procuradas num exercício de imersão social semelhante, exercício praticado pela humanidade desde que se constitui em sociedade organizada, responsável pelas conquistas da cultura e civilização.

Isso significa dizer que a pedagogia de Paulo Freire - ou de Dewey, a quem Veja covardemente não ousa desqualificar - define a educação como o lugar onde indivíduo e sociedade se constroem, capacitando-se mutuamente para a mudança social, nos termos também definidos no “Relatório da UNESCO sobre Educação para o Século XXI” (1996), onde se assinala que a educação não somente deve promover as competências básicas tradicionais, mas também proporcionar os elementos necessários para se exercer plenamente a cidadania, contribuir para uma cultura de paz e para a transformação da sociedade, para o que se propõem quatro pilares para a aprendizagem: “aprender a conhecer, a fazer, a ser e a viver juntos”.

A escola não pode reduzir-se a um adestramento para a conversão do aluno em mercadoria. O desenvolvimento humano não é sinônimo de mercado nem de crescimento econômico. O mercado ou o crescimento, por si só, não promovem a equidade nem reduzem a pobreza. Desenvolvimento implica eqüidade como resultado do exercício dos direitos sociais - e a promoção da eqüidade é uma tarefa pública, por excelência. Não é possível promover a equidade sem a democracia - e a democracia, longe de ser apenas um método de eleger os governantes, é o modo de se construir e exercitar a vida em comum, em proveito recíproco, a despeito das diferenças. Por isso, como dizia Paulo Freire, “estudar não é um ato de consumir idéias”. A democracia exige cidadãos capazes de criá-las e recriá-las.

Rui Falcão, jornalista e advogado, é deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores. Foi deputado federal, presidente do PT e secretário de governo na gestão Marta Suplicy.

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sexta-feira, 22 de agosto de 2008

A tecnocracia desvairada de Veja

É um fato deplorável, mas real, que os professores, em sua maioria, são mal preparados, e regurgitam em suas aulas os mesmos chavões que ouviram um dia (apenas ouviram, já que, como seus alunos, pouco lêem).

Mas será verdade que devemos nos curvar às formas de capitalismo neoliberal da atualidade? Será que as chocadeiras robotizadas são a solução para as angústias que a população mundial - ricos ou pobres, capitalistas ou socialistas - vivem?

Parece que a Veja quer nos impedir de discutir como o trabalhador deve usar a máquina a seu favor. Quer desclassificar aulas brilhantes como a do Colégio Dom Bosco de Goiânia, conduzidas por professores ativos como Marcos Santos, com os alunos democraticamente colocados em roda, experimentando ares diferentes das quatro paredes de uma sala de aula, e ilustradas por músicas emblemáticas como a dos Titãs. Quer que nos curvemos à tecnologia como o único deus verdadeiro, e que aceitemos, conformados, nossa posição na sociedade, gratos por poder comer um frango de R$ 5,00.

Mas será que a produção agropecuária enormemente acrescida pelo deus-tecnologia está servindo ao propósito básico de manter a humanidade alimentada? Será que essa divindade nos tornou mais fraternos? Não é o que vemos nos noticiários, sob as pontes ou nos faróis.

Veja se lamenta pela derrota de Einstein imposta por Freire. Eu regozijo! Não vamos falar do absurdo da comparação infantil, nem dos erros crassos em livros didáticos, confundidos por Veja com manipulação ideológica, mas por que a estranheza? Claro, a suposta superioridade das Exatas sobre as Humanas (note-se: ambas, ciências). Esse lamento traz o ranço dos anos do pós-guerra, quando se acreditou que a tecnologia faria a humanidade mais feliz e igualitária. Será que conseguimos?

Conheci tão poucos pais que ficaram satisfeitos com a opção de um filho pela pedagogia, no lugar da engenharia que sequer apareceriam numa estatística. Nenhuma escola que tenha equiparado a carga horária de Arte à de Matemática. O número de aulas de que dispõem os professores de geografia e história tão covardemente atacados pela Veja é tão ínfimo que certamente não seria capaz de abalar os alicerces do capitalismo (se assim o quisessem). Ao contrário, as aulas de Exatas, preparadas para manter a ciência em seu status de suprema sabedoria (através da linguagem inacessível e distância do cotidiano que muitos professores insistem em manter, para segurança de sua própria incompetência) e exaltar a sociedade tecnocrata, abarrotam a grade horária, para desespero dos alunos. Não é de se espantar que livros de Exatas, com todos os seus preconceitos, não tenham sido alvo dos ataques de Veja. Em tempo: este que vos escreve é um convicto professor de química.

Convenhamos: certamente preferimos o estereótipo do "velho descabelado" inspirado em Einstein do que o do "velho barbudo", como tão desrespeitosamente Marx é referido na reportagem.

Veja diz que ensinamos para um mundo que acabou. Digo que ainda não conseguimos fazer esse mundo sequer acontecer. Nunca, em mais de dez anos nas salas de aula, consegui me despir das coisas em que acredito. Muitas vezes estava errado (muitas vezes cheguei ao certo pelos meus alunos), mas isso é o que nos faz humanos.

A ciência não é isenta! Não foi a luta da suposta democracia contra o nazismo que criou a bomba atômica? Einstein nem teria tido participação nisso se seu colega Szilard, tão politicamente engajado, não o tivesse convencido a apor sua renomada assinatura na famosa carta entregue a Roosevelt. Foi também a disputa entre capitalismo e socialismo pela hegemonia que lançou homens ao espaço. É nossa obrigação, professores, discutir isso! A neutralidade é tão perigosa quando a ditadura ideológica.

A Veja, citando Arendt, diz que a figura adulta do professor impõe sua ideologia. Se esquece que, passados 50 anos, gradativamente estamos conseguindo que o professor deixe seu pedestal de mestre e conviva como parceiro dos educandos. O mesmo vem acontecendo, timidamente, com outros profissionais, mas muito pouco ainda com os cientistas, os deuses da nossa sociedade capenga. Importante notar que a maioria dos cientistas não quer esse papel: nós é que os entronizamos.

É verdade, os professores pouco sabem a respeito de Marx, Guevara e Freire. Eu mesmo, dos dois primeiros, nada li. Mas também nada sabem sobre Einstein, criando uma visão unilateral e falsa do trabalho dos cientistas: a de que seu único objetivo é o bem da humanidade. É mais fácil para mim acreditar que a única finalidade de Che era libertar os oprimidos da miséria. Não temos que nos perguntar sobre como esses objetivos pretendem ser atingidos, ou o fim justificará os meios?

O desemprego não é alto em "países com baixa inserção tecnológica" pela falta de robôs, mas sim pela falta de qualificação profissional. Daí o importante papel da educação básica, que deve envolver toda a sociedade. Mas a maioria está ausente desse processo, bem como os pais - talvez trabalhando nas chocadeiras robotizadas que garantem nosso frango a R$ 5,00.

Eu gostava de discutir com meus alunos, nas primeiras aulas, que não há uma verdade, mas várias, que dependem das experiências pessoais de cada ser humano. Do ser humano, e não da tecnologia. Esta deve ser mantida em seu lugar, como ferramenta. E a "verdade científica" passa a ser a grande mentira.

Marcelo Dias Pulido
Editor Assistente - Editorial Didáticos Ática
Ciências, Biologia e Química
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segunda-feira, 18 de agosto de 2008

E quem nos livrará do jornalismo das trevas de Veja?

Esta semana Veja reedita a cruzada iniciada por Kamel em setembro de 2007 contra os autores de livros didáticos de História. Desta vez, a revista símbolo dos neocons tupiniquins inclui em seus processos inquisitoriais travestidos de reportagens os professores de História e Geografia concluindo que são todos uns 'incompetentes', passadistas ultrapassados e maus-caráteres por 'incutir ideologias anacrônicas e preconceitos esquerdistas nos alunos'.

Não há nada de novo na matéria de Veja que Kamel já não tenha feito e seus asseclas dado continuidade em matérias publicadas na Época, Estadão, Folha e afins em 2007.

Na reedição de Veja estão presentes as mesmas estratégias que buscam validar o antiesquerdismo doentio de seus editores neocons travestidas de 'verdades científicas'; 'jornalismo de isenção' e outras inverdades que a grande mídia neoconservadora deseja incutir na mente dos leitores.

Pergunto-me como o professor Romano, Villa e Schwartzman ainda se prestam a falar para Veja. Não está suficientemente claro para esses intelectuais que esta revista símbolo do anti-jornalismo buscará encaixar as opiniões acadêmicas (sempre retirando-as de seus contextos) para legitimar a caçada de Veja
contra tudo o que se opõe ao seu projeto ‘arremedo de liberalismo’?

Dentre tantas bobagens, repletas de juízos de valor, tão ideologizadas quanto a crítica que Veja pretende fazer a seus opositores, destaco um trecho no qual a revista acusa os professores brasileiros de idolatrarem figuras que, segundo ela, não trouxeram nenhuma contribuição significativa ao país e/ou humanidade:

"Ou idolatram personagens arcanos sem contribuição efetiva à civilização ocidental, como o educador Paulo Freire, autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização. Entre os professores brasileiros ouvidos na pesquisa, Freire goleia o físico teórico alemão Albert Einstein, talvez o maior gênio da história da humanidade. Paulo Freire 29 x 6 Einstein. Só isso já seria evidência suficiente de que se está diante de uma distorção gigantesca das prioridades educacionais dos senhores docentes, de uma deformação no espaço-tempo tão poderosa que talvez ajude a explicar o fato de eles viverem no passado."

Como levar a sério uma revista que tem a pretensão de qualificar pejorativamente de 'arcano' um dos pensadores mais significativos do século XX , cujas contribuições para a filosofia da educação são reconhecidas entre seus pares no mundo todo?

Como levar a sério um periódico que obriga seus leitores a escolherem (sob pena de serem taxados de ultrapassados e equivocados) entre um educador e um físico teórico e que, excetuando o que a revista denomina de 'civilização ocidental', não reconhece humanidade no resto do planeta?

Como levar a sério uma revista que sequer se dá ao trabalho de conhecer a vasta produção de Paulo Freire e a reduz a 'um método de doutrinação esquerdista'?

Freire afirma que a pedagogia do oprimido, como pedagogia humanista e libertadora é feita de dois momentos distintos: o primeiro, 'em que os oprimidos vão desvelando o mundo da opressão e vão comprometendo-se na práxis, com a sua transformação; o segundo, em que, transformada a realidade opressora, esta pedagogia deixa de ser do oprimido e passa a ser a pedagogia dos homens em processo de permanente libertação'. E o pensador complementava que em qualquer um destes momentos, fosse nos trabalhos educativos como parte do processo de organização dos oprimidos ou na educação sistemática como projeto político educacional de uma sociedade revolucionária, 'será sempre a ação profunda, através da qual se enfrentará, culturalmente, a cultura da dominação". (FREIRE, 1968: 44)

Não podemos afirmar que uma revista tão desinformada e capaz de subverter tanto os fatos e valores é um representante genuíno da ‘cultura de dominação’ da qual falava Freire e diante da qual os educadores comprometidos com a transformação da realidade opressora deveriam se opor. Veja não pode ser associada à cultura de espécie alguma, nem mesmo à dominante, pois o que esta revista produz é lixo cultural.

Veja sequer tem um pensador conservador à altura capaz de debater com um pensamento de esquerda do naipe da produção de Paulo Freire. Esse arremedo de revista nem é original em suas acusações a Freire: repete as mesmas falas dos ditadores e censores do período militar dirigidas ao educador libertário, reproduz a mesma ladainha preconceituosa contra a pedagogia freiriana que recentemente alguns procuradores ultraconservadores do MP-gaúcho que desejavam criminalizar o MST produziram. Veja só se dá ao trabalho de papagaiar tudo que existe de mais retrógrado no país, incluindo aí o jornalismo kameliano.

Não há debate no mundo de Veja, não há conflitos de interesses e projetos políticos que se opõem. Em Veja existe o dicotômico e tedioso mundo do ‘bem contra o mal’, do ‘liberalismo estereotipado versus o esquerdismo estereotipado’, do Brasil ‘ame ou deixe-o’, dos ‘cristãos versus os infiéis’. O mundo de Veja é um binômio irreal, sem graça e sem importância no qual somos obrigados a escolher entre a filosofia da educação de Paulo Freire e teoria da relatividade de Albert Einstein. Não podemos buscar conhecer as diferentes contribuições destes dois importantes homens do século XX.

Talvez seja por isso que ao comemorar 40 anos, Pedagogia do Oprimido segue viva e original estimulando historiadores e educadores a refletirem sobre as contribuições e os limites da extensa e rica produção freiriana e Veja (que também faz quarenta anos) no máximo servirá aos historiadores interessados em pesquisar a capacidade de degradação de um veículo de comunicação: ao longo de quatro décadas quais diferenças existem entre a época áurea sob direção de Mino Carta e a era dos bobos da corte feito os Reinaldos e Mainardis, arremedos mal feitos dos neocons? Quem tiver paciência que faça a análise.

O que é patente aos leitores críticos que Paulo Freire ajudou a formar é que na atualidade Veja não faz jornalismo, ela arroga a si o direito de julgar produções, personalidades, projetos, políticas públicas e insiste em nos enfiar goela abaixo a sua visão pobre e restrita e deturpada do mundo.

Veja tal qual os velhos senhores feudais encastelados que dominavam o governo, o poder de legislar e o poder de Justiça em suas possessões, sequer chegou ao século XIX onde ela julga estarem estagnados os professores que critica. A revista parou na Idade das Trevas seja qual for esse tempo-espaço (façam suas escolhas, qualquer um serve, desde que tenha sido uma era de truculência, intolerância e sectarismo bem ao estilo Veja - inquisição moderna, o terror, a ditadura, o fascismo, o nazismo, o macarthismo ou a era Bush de Guantânamo e Abugrai).

O que Veja ainda não descobriu é que os professores, proprietários de escolas e pais cada dia mais sabem distinguir o jornalismo medieval do estilo Veja do bom jornalismo produzido por profissionais menos subservientes e ignorantes. Veja precisa entender que quarenta anos de Pedagogia do Oprimido fez diferença positiva em nosso país, que grande parte da população pouco a pouco briga por sua cidadania, pelo direito de pensar, opinar, refletir e se recusa a permanecer na Idade das Trevas sob a batuta do tribunal arrogante de Veja. Pais e professores cada vez mais abrem mão, de bom grado, do jornalismo medieval produzido por Veja.

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Fonte: Revista Veja

Educação Ideologia
Prontos para o século XIX

Muitos professores e seus compêndios enxergam o mundo de hoje como ele era no tempo dos tílburis. Com a justificativa de "incentivar a cidadania", incutem ideologias anacrônicas e preconceitos esquerdistas nos alunos


Monica Weinberg e Camila Pereira

VEJA TAMBÉM

Tema para reflexão: vale a pena usar chocadeiras artificiais para acelerar a produção de frango? Deu-se com isso o início de uma das aulas de geografia no Colégio Ateneu Salesiano Dom Bosco, de Goiânia, escola particular que aparece entre as melhores do país em rankings oficiais. Da platéia, formada por alunos às vésperas do vestibular, alguém diz: "Com as chocadeiras, o homem altera o ritmo da vida pelo lucro". O professor Márcio Santos vibra. "Você disse tudo! O homem se perdeu na necessidade de fazer negócio, ter lucro, exportar." E põe-se a cantar freneticamente Homem Primata / Capitalismo Selvagem / Ôôô (dos Titãs), no que é acompanhado por um enérgico coro de estudantes. Cena muito parecida teve lugar em uma classe do Colégio Anchieta, de Porto Alegre, outro que figura entre os melhores do país. Lá, a aula de história era animada por um jogral. No comando, o professor Paulo Fiovaranti. Ele pergunta: "Quem provoca o desemprego dos trabalhadores, gurizada?". Respondem os alunos: "A máquina". Indaga, mais uma vez, o professor: "Quem são os donos das máquinas?" E os estudantes: "Os empresários!". É a deixa para Fiovaranti encerrar com a lição de casa: "Então, quem tem pai empresário aqui deve questionar se ele está fazendo isso". Fim de aula.

Os dois episódios, ambos presenciados por VEJA, não são raridade nas escolas brasileiras. Ao contrário. Eles exemplificam uma tendência prevalente entre os professores brasileiros de esquerdizar a cabeça das crianças. Parece bobagem, uma curiosidade até pitoresca num mundo em que a empregabilidade e o sucesso na vida profissional dependem cada vez mais do desempenho técnico, do rigor intelectual, da atualização do pensamento e do conhecimento. Não é bobagem. A doutrinação esquerdista é predominante em todo o sistema escolar privado e particular. É algo que os professores levam mais a sério do que o ensino das matérias em classe, conforme revela a pesquisa CNT/Sensus encomendada por VEJA. Pobres alunos.

Divulgação

"Capitalismo selvagem"
Colégio Dom Bosco, de Goiânia: Titãs e crítica às chocadeiras artificiais na aula de geografia

Eles estão sendo preparados para viver no fim do século XIX, quando o marxismo surgiu como uma ideologia modernizante, capaz não apenas de explicar mas de mudar o mundo para melhor, acelerando a marcha da história rumo a uma sociedade sem classes. Bem, estamos no século XXI, o comunismo destruiu a si próprio em miséria, assassinatos e injustiças durante suas experiências reais no século passado. É embaraçoso que o marxismo-leninismo sobreviva apenas em Cuba, na Coréia do Norte e nas salas de aula de escolas brasileiras. As chocadeiras produzem os frangos vendidos a menos de 5 reais nos supermercados brasileiros, e isso propicia a dose mínima de proteína a famílias que, de outra forma, estariam mal nutridas. A realidade não interessa nas aulas como a do professor Márcio Santos. O que interessa? Passar a idéia de que as máquinas tiram empregos. Elas tiram? Tiraram no começo dos processos de robotização e automação de fábricas nos anos 90. Hoje, sem robôs e máquinas, os empregos nem sequer seriam criados. Mas dizer isso pode desagradar ao espírito do velho barbudo enterrado no novo Cemitério de Highgate, em Londres. Os professores esquerdistas veneram muito aquele senhor que viveu à custa de um amigo industrial, fez um filho na empregada da casa e, atacado pela furunculose, sofreu como um mártir boa parte da existência. Gostam muito dele, fariam tudo por ele, menos, é claro, lê-lo – pois Karl Marx é um autor rigoroso, complexo, profundo que, mesmo tendo apenas uma de suas idéias ainda levada a sério hoje – a Teoria da Alienação –, exige muito esforço para ser compreendido. "A salada ideológica resulta da leitura de resumos dos grandes pensadores", diz o filósofo Roberto Romano. Gente que vê maldade em chocadeiras e mal em empresários que usam máquinas em suas fábricas no século XXI não pode ter lido Karl Marx. É de supor que não tenham lido muito, quase nada. Mas são esses senhores que ensinam nossos filhos nas melhores escolas brasileiras – sem, diga-se, que os pais se incomodem com isso.

Mirian Fichtner

Lição de casa
Colégio Anchieta, em Porto Alegre: o professor pede aos alunos que questionem os "pais empresários"

A pesquisa CNT/Sensus ouviu 3 000 pessoas de 24 estados brasileiros, entre pais, alunos e professores de escolas públicas e particulares. Sua conclusão nesse particular é espantosa. Os pais (61%) sabem que os professores fazem discursos politicamente engajados em sala de aula e acham isso normal. Os professores, em maior proporção, reconhecem que doutrinam mesmo as crianças e acham que isso é sua missão principal – algo muito mais vital do que ensinar a interpretar um texto ou ser um bamba em matemática. Para 78% dos professores, o discurso engajado faz sentido, uma vez que atribuem à escola, antes de tudo, a função de "formar cidadãos" – à frente de "ensinar a matéria" ou "preparar as crianças para o futuro". Muito bonito se não estivessem nesse processo preparando os alunos para um mundo que acabou e diminuindo suas chances de enfrentar a realidade da vida depois que saírem do ambiente escolar. Para atacar um problema, o primeiro passo é reconhecer sua existência. Esse é o mérito da pesquisa CNT/Sensus.

Divulgação

Ódio às máquina
Na sala de aula e nos livros, a tecnologia recebe a culpa pelo aumento do desemprego no mundo

Adversária do exercício intelectual, a ideologização do ensino pode ser resultado em parte também do despreparo dos professores para o desempenho da função. No ensino básico, 52% lecionam matérias para as quais não receberam formação específica – 22% deles nunca freqüentaram faculdade. Para esses, os chavões de esquerda servem como uma espécie de muleta, um recurso a que se recorre na falta de informação. "Repetir meia dúzia de slogans é muito mais fácil do que estudar e ler grandes obras. Por isso, a ideologização é mais comum onde impera a ignorância", diz o historiador Marco Antonio Villa. A questão não é exatamente nova na educação. Meio século atrás, a filósofa alemã Hannah Arendt já alertava para o equívoco de fazer das aulas um lugar para a doutrinação ideológica, qualquer que fosse o matiz. Em A Crise na Educação, ela dizia: "Em vez de (o professor) juntar-se a seus iguais, assumindo o esforço da persuasão e correndo o risco do fracasso, há a intervenção ditatorial, baseada na absoluta superioridade do adulto". Ao refletirem sobre o atual cenário, os especialistas concordam com a idéia central da filósofa. Está claro, e a própria experiência mostra isso, que o viés político retira da escola aquilo que deveria, afinal, ser seu atributo número 1: ensinar a pensar – verbo cuja origem, do latim, significa justamente pesar. Diz o sociólogo Simon Schwartzman: "O verdadeiro exercício intelectual se faz ao colocar as idéias e os juízos numa balança, algo que só é possível com uma ampla liberdade de investigação e de crítica".

Alexandre Battibugli

Consumo, esse vilão
Na cartilha, as sociedades de consumo se prestam a estimular a futilidade e poluir o ambiente

Não é o caso na maioria das salas de aula. Muitos professores brasileiros se encantam com personagens que em classe mereceriam um tratamento mais crítico, como o guerrilheiro argentino Che Guevara, que na pesquisa aparece com 86% de citações positivas, 14% de neutras e zero, nenhum ponto negativo. Ou idolatram personagens arcanos sem contribuição efetiva à civilização ocidental, como o educador Paulo Freire, autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização. Entre os professores brasileiros ouvidos na pesquisa, Freire goleia o físico teórico alemão Albert Einstein, talvez o maior gênio da história da humanidade. Paulo Freire 29 x 6 Einstein. Só isso já seria evidência suficiente de que se está diante de uma distorção gigantesca das prioridades educacionais dos senhores docentes, de uma deformação no espaço-tempo tão poderosa que talvez ajude a explicar o fato de eles viverem no passado.

Entre as figuras históricas e da atualidade mais citadas em classe está, como não poderia deixar de ser, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As referências a Lula são contidas. O presidente brasileiro obtém aprovação menor entre os professores, segundo relatam os estudantes, do que aquela com que a sociedade brasileira em geral o brinda. Ele tem 70% de avaliação positiva dos brasileiros, mas na boca dos professores esse índice cai para 30% – com 27% de citações negativas e 43% de neutras. Ressalte-se aqui que é um ponto louvável para os mestres o fato de, como mostram os números relativos a Lula, eles não fazerem proselitismo eleitoral em classe – mesmo que seja preciso relevar o fato de o ditador venezuelano Hugo Chávez ter merecido 51% de citações positivas. A neutralidade e o comedimento em relação a Lula desautorizam a interpretação de que os professores tentam direcionar o voto dos alunos, o que seria desastroso. É sinal de que sua pregação, mesmo equivocada, se mantém no nível das idéias – o que é excelente.

Joedson Alves

Contrários à doutrinação
O advogado Miguel Nagib (sentado) fundou a ONG Escola Sem Partido, junto com outros pais: todos acharam na cartilha dos filhos exemplos de ideologia

"Eu e todos os meus colegas professores temos, sim, uma visão de esquerda – e seria impossível isso não aparecer em nossos livros. Faço esforço para mostrar o outro lado", diz a geógrafa Sonia Castellar, que há vinte anos dá aulas na faculdade de pedagogia da Universidade de São Paulo (USP) e escreveu Geografia, um dos best-sellers nas escolas particulares (livro que tem dois de seus trechos comentados por VEJA na reportagem seguinte). "Reconheço o viés esquerdista nos livros e apostilas, fruto da formação marxista dos professores. Mas não temos nenhuma intenção de formar uma geração de jovens socialistas", diz Miguel Cerezo, responsável pelo conteúdo publicado nas apostilas do COC (de onde foram extraídos quatro trechos comentados pela revista). À luz de outra pesquisa em profundidade feita pelo Ibope em colaboração com a revista Nova Escola, editada pela Fundação Victor Civita, os professores da rede pública revelam que, para eles, o principal problema da sala de aula é, de longe (77%), a ausência dos pais no processo educativo. Repousam na colaboração entre pais e professores a correção dos rumos do ensino no país e a aceleração da curva de melhora de desempenho que começa a se desenhar. A questão do excesso de ideologização é um desses problemas que podem ser abordados em conjunto por pais e professores. Demanda para o diálogo existe. O advogado Miguel Nagib fundou, há quatro anos, em Brasília, a ONG Escola Sem Partido, com o objetivo de chamar atenção para a ideologização do ensino na sala de aula. Nagib se incomodou com os sinais do problema na escola particular de sua filha, então com 15 anos, onde o professor de história gostava de comparar Che Guevara a São Francisco de Assis. Foi ao colégio reclamar. Diz Nagib: "As escolas precisam ficar sabendo que muitos pais não concordam com essa visão".

Com reportagem de Camila Antunes e Marcos Todeschini

Para saber mais:

Não deixe de acessar: Veja e a mercantilização do ensino

Dossiê da Revista NovaE sobre Veja e seu anti-jornalismo

Dossiê do Nassif e o Caso de Veja


segunda-feira, 11 de agosto de 2008

NA GUERRA DA INFORMAÇÃO, INDÍGENAS SÃO O "INIMIGO INTERNO"

Luiz Carlos Azenha

Atualizado em 11 de agosto de 2008 às 15:39

Vivemos um momento extraordinário, em que a produção, a disseminação e o controle da informação são utilizados tanto por estados quanto por entes privados para a produção de "consensos". Não é exatamente uma novidade. É que, na presença de múltiplas fontes de informação, os canhões midiáticos se multiplicam e atiram sobre nós incessantemente. Atiram mentiras, informação manipulada, cuidadosamente selecionada ou deturpada.

Na Bolívia, a delegação do Mercosul que acompanhou o referendo revogatório notou: assim que as urnas foram fechadas, a mídia corporativa passou a destacar não a vitória nacional de Evo Morales com 63%, mas o NÃO majoritário nos estados da Meia Lua. Não notou que Evo, eleito com 53%, saltou para 63% de aprovação, mas o SIM majoritário dos governadores que se opõem a Evo. Quando o presidente discursava em La Paz a mídia boliviana mostrava entrevistas com os governadores de oposição.

No Brasil, Eduardo Guimarães analisou como a mídia corporativa brasileira atacou duas pesquisas, uma da FGV e outra do IPEA, que demonstraram o crescimento da classe média e a redução da pobreza no Brasil. É óbvio que é preciso desmoralizar as pesquisas, já que elas contradizem o discurso segundo o qual tudo o que aconteceu de bom no país nos últimos vinte anos foi resultado da presença abençoada de FHC, uma narrativa essencial para eleger José Serra em 2010.

E eu me espanto ao notar que o metralhar da mídia é muito eficaz, especialmente quando combina com um preconceito existente na população. Durante meses a mídia brasileira bombardeou o público com a idéia de que os indígenas representam uma ameaça à soberania do Brasil na Amazônia, um discurso que serve exclusivamente ao agronegócio e às mineradoras. A mídia não diz:

1) Que as terras indígenas são da União e, portanto, nunca deixam de ser do Brasil; apenas o usufruto é dos indígenas;

2) Que a Polícia Federal e o Exército são livres para atuar em terras indígenas;

3) Que o Exército tem bases em todas as reservas situadas em área fronteiriça;

4) Que são os brasileiros que estão invadindo outros países (Bolívia, Paraguai, Venezuela e Guiana, por exemplo) e não vice-versa;

5) Que dezenas de indígenas foram mortos desde o início da campanha pela demarcação da Raposa/Serra do Sol em múltiplos incidentes violentos.

Ao divulgar apenas os fatos que justificam a tese dos "índios imperialistas", a mídia brasileira contribui para distorcer o debate sobre esta e outras demarcações e para o desprezo histórico dos brasileiros brancos pelos indígenas. O roubo de terras com violência é justificável: "eles" são o inimigo interno.