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quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Escravos letrados

Em Minas Gerais, entre os séculos XVIII e XIX, atributos como leitura, escrita e capacidade musical eram valorizados; no XIX, os negros eram maioria na escola

Alex Sander Alcântara

Os corpos de 70 negros se espalham pelos arredores do Quartel de Cavalaria, em Água de Meninos, Salvador. Outros 280 são presos. Cai à bala a Revolta dos Malês, levante de escravos e libertos islâmicos na Bahia, em janeiro de 1835. No corpo, amuletos trazem papéis escritos pelos próprios revoltosos.

"Nas senzalas da Bahia de 1835 havia talvez maior número de gente sabendo ler e escrever do que no alto das casas-grandes."A frase, de Gilberto Freyre em Casa grande & senzala, ilumina um fenô­me­no pouquíssimo difundido: o da fa­mi­liaridade dos escravos com a escrita, portuguesa ou não (os malês escreviam em árabe suas orações a Alá).

Por tempo demais a historiografia tradicional difundiu a idéia de que os negros trazidos ao Brasil até o século XIX não sabiam ler nem escrever. Aos poucos, esse mito perde espaço. Pesquisas em história da educação levantam evidências de uma disseminação da cultura escrita entre escravos e alforriados. Há pistas de que, nos séculos XVII e XVIII, os negros foram decisivos na difusão do português no Brasil.
(Litogravura de Rugendas, primeira metade do século XIX, que representa um mercado de escravos. Observe à esquerda da imagem um cativo registra algo na parede sob olhares de outros cativos e de um homem branco e livre posicionado ao centro da gravura)

Um estudo de Christianni Cardoso Morais, do Departamento de Educação da Universidade Federal de São João del-Rei, em Minas Gerais, reforça a idéia de que mesmo os escravos e alforriados iletrados sabiam se utilizar da escrita numa época em que eram proibidos de freqüentar escolas. A pesquisa se baseia em anúncios de jornais e em documentos. Nos anúncios, era comum a descrição física e das habilidades dos escravos foragidos ou à venda. Além de marcas e cicatrizes, realçavam-se atributos, como ofício, capacidade musical, de leitura ou de escrita.

"Ter profissão especializada, como alfaiate, pedreiro ou carpinteiro, que exigia o uso de medidas e cálculos, indica um grau refinado de "letramento", termo que ajuda a entender os usos sociais, culturais e históricos atribuídos à palavra escrita", diz Christianni.

Consciência escrita

A pesquisadora faz doutorado sobre a disseminação da escrita na região. Analisou 1.612 documentos de 1731 a 1850, relatórios do Ministério da Agricultura, testamentos, processos-crime, além de anúncios de O Astro Minas, um jornal do perío­do. A região analisada é a comarca do Rio das Mortes, cidade mineira escolhida pela importância econômica e cultural que teve no século XVIII. O recorte temporal seguiu a lógica imposta pela documentação, mais abundante naqueles anos.

"A cidade exercia a função de entreposto, pois era centro de exportação dos produtos mineiros e de redistribuição das mercadorias da Corte. Possuía vida política e cultural intensa, com biblioteca pública e imprensa periódica", diz Christianni.

Para determinar os graus de letramento dos escravos, ela usou um método de análise de assinaturas a partir de escala de cinco níveis desenvolvida pelo português Justino Magalhães. O primeiro corresponde ao mero uso de siglas ou sinais; o nível 2, à assinatura ainda rudimentar, imperfeita; o 3 indica assinatura completa; o nível 4, uma caligrafia mais precisa e o 5, mais personalizada. Maior a complexidade do traçado, maior o domínio do idioma.

"Fotografo e analiso as assinaturas tendo por base a caligrafia da época. Busco perceber se a pessoa tinha traço firme, bem organizado e distribuído na folha, se conseguia fazer arabescos, ligava as letras ou tinha boa escrita cursiva, o que não era fácil na época porque os ensinos da leitura e da escrita eram dissociados. Então, se o assinante se encaixa no nível 2, provavelmente sabia ler", conclui.

Combinado

O método não é exato, admite Christianni. Mas, na ausência de fontes diretas, as assinaturas assumem a condição de documento, sobretudo, pelo poder simbólico entre os assinantes.
"Quando sabiam assinar, os negros aumentavam seu status numa sociedade basicamente iletrada."

O ensino "combinado" da leitura e da escrita se disseminou só após 1850. Antes, primeiro se aprendia a ler, depois a escrever. Depois, surgiram pessoas com assinaturas bem compostas, mas que, na prática, não sabiam ler. Essas foram descartadas por Christianni. Ela ainda coletou 76 anúncios, dos quais 5 com mulheres, pois só homens tendiam a ser identificados, como o "escravo pardo de nome Vicente", "oficial de alfaiate, [que] sabe ler e escrever".

Evidência mais segura do letramento escravo é a presença de negros nas escolas do século XIX, em Minas Gerais, em proporção superior à dos brancos. Para Marcus Vinicius Fonseca, autor de Educação dos negros (Edusf, 2002), quando se fala em educação elementar nas Minas Gerais do período é preciso ter em mente uma escola negra.

O perfil populacional de 1830 o comprova. Segundo Fonseca, a comunidade livre de Minas era de 270 mil pessoas, 59% das quais negras, somando-se os 130 mil escravos locais.

"No Brasil, a escola sempre foi vinculada à modernização, ao passo que o negro foi associado ao atraso. A discussão sobre a democratização das universidades e a de que a inserção dos negros pode comprometer o nível das instituições é manifestação tácita desse raciocínio" diz Fonseca.

Vazio

Há, no entanto, um silêncio da historiografia sobre a relação do escravo com a língua portuguesa. Fervilham hipóteses. Como a da professora da Faculdade de Educação da UFMG Cynthia Greive Veiga, para quem os negros tiveram participação ativa na difusão da língua portuguesa no Brasil Império. Os africanos precisavam dominar o idioma que os adaptasse à sociedade. Tal fato fez coro à oficialização do português nos tempos da Independência.

Os registros de inspetores e professores das aulas elementares do século XIX, sobre o desempenho de alunos em leitura e escrita ("sofrível", "não sabe nada"), podem ter relação com as tensões entre um português oficial e outro misto, marcado pelos dialetos africanos.

Os sinais, desde Gilberto Freyre, abrem veio importante a investigar. Já se pode provar a distância entre ser negro e escravo, por exemplo, e de que essa distância parece passar pelo letramento. Os escravos letrados podem ter sido exceção no Brasil, como os de Minas ou os da Bahia de 1835. Mas será preciso muita pesquisa para entender a real difusão das práticas de leitura e escrita negra no Império, e a relação dos escravos com a língua portuguesa. O terreno está a explorar. Mas está dado.

Alcântara, Alex Sander. Escravos letrados. Revista Educação, edição n. 136. Extraído da versão online publicada no Boletim Mineiro de História, edição 155

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Literatura em língua portuguesa países africanos

Vozes d’aquém e d’além-mar

Lançamento dos cinco volumes da coleção "Literaturas de Língua Portuguesa: Marcos e Marcas" lança luzes sobre importantes obras e autores de Cabo Verde, Angola e Moçambique

(Marcello Rollemberg)

Minha pátria é minha língua, já escreveu o poeta. E a pátria/língua do poeta em questão, Fernando Pessoa, era o português, Portugal. Mas essa pátria à qual Pessoa se referia é muito mais ampla, verdadeiros heterônimos geográficos e lingüísticos que têm como raiz comum o português lusitano, aquele que muitos estudiosos indicam como variação do galego e que, saindo da Galícia espanhola, ganhou vida como idioma e cultura em terras de Dom Alfonso Henriques. E depois, o mundo. Brasil, Portugal, Cabo Verde, Angola, Moçambique são pátrias irmanadas e separadas pela mesma língua, parafraseando-se livremente Bernard Shaw. A camisola brasileira é distinta da lusitana – em semântica e em significado –, assim como a bicha lusa é menos espalhafatosa. Ex-colônias que agregaram ao português original elementos culturais e lingüísticos dos povos que as ajudaram a se construir como nações, Brasil, Angola, Moçambique e Cabo Verde têm na língua original da antiga metrópole seu ponto em comum. E seu ponto de distensão. Tangenciam-se e se tocam, mas são outras coisas, enfim. São outras culturas. São outras literaturas.

Justamente para compreender esse melting pot cultural que nasce do filão seminal do português lusitano e se desmembra em culturas ricas e diversificadas, acaba de ser lançada uma coleção de cinco livros que pode – e muito – ajudar leitores, professores e estudiosos a perceberem melhor a fina alquimia cultural de Portugal, Brasil e de países africanos de língua portuguesa. Trata-se da coleção Literaturas de Língua Portuguesa: Marcos e Marcas, editada pela Arte e Ciência Editora, em parceria com a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo (por meio do Programa de Ação Cultural) e com o Instituto Brasileiro de Incentivo ao Mérito, o Ibim.

São ao todo cinco volumes, que tratam da formação cultural e literária de países ao mesmo tempo tão próximos e tão apartados – não apenas geograficamente – quanto Brasil, Portugal, Cabo Verde, Angola e Moçambique. Cada volume ficou a cargo de um ou dois professores especializados no tema em questão, apresentando um bem-acabado quadro cultural do país abordado. Dos sete especialistas convidados a compor a obra, a USP colabora com quatro: Benjamin Abdala Junior, que assina o livro sobre Portugal; Tania Macêdo e Rita Chaves, que escrevem sobre Angola – Tania ainda assina, ao lado de Vera Maquêa, da Universidade do Estado do Mato Grosso (Unemat), o volume sobre Moçambique –, e Maria Aparecida Santilli, responsável pelo livro que trata de Cabo Verde. Maria Aparecida é também a organizadora da coleção, ao lado de Suely Fadul Flory, da Universidade de Marília (Unimar). O volume sobre o Brasil está a cargo de Antonio Manoel dos Santos Silva e Romildo Sant’Anna, da Unimar.

Originalmente, a coleção foi pensada na capacitação de professores, principalmente aqueles do ensino fundamental e médio, já que desde 2003 a disciplina História e Cultura Afro-brasileira tornou-se obrigatória no país, tanto na rede pública quanto na privada. “A presente coleção preenche uma lacuna na formação do professor, agora muito mais pungente no Brasil”, informa o texto de apresentação da coleção. Mas não só os professores podem e devem usufruir da caixa bem-acabada e dos cinco volumes acondicionados nela. Esta é também uma coleção que tem tudo para atrair uma parcela de leitores que, por mais que não exerçam qualquer atividade em sala de aula, têm curiosidade acerca da literatura de língua portuguesa que é feita nos chamados – com o perdão do clichê – “países irmãos”.

Mia Couto e Pepetela – Afinal, independentemente de qualquer ação governamental, a literatura de língua portuguesa fora do Brasil tem chamado a atenção de leitores já há algum tempo. E não está se falando de José Saramago, Fernando Pessoa, Eça de Queiroz e outros top de linha das letras lusitanas. As editoras brasileiras têm apostado – com maior ou menor intensidade, é verdade, mas ainda assim com interesse – no talento de nomes como Mia Couto, José Craveirinha, Pepetela e Jorge Barbosa, autores daquela enorme porção de terra africana que têm muito a dizer e a trocar com o público do lado de cá desse Mar Oceano.

E a relação com autores brasileiros é direta. Tania Macêdo e Vera Maquêa, por exemplo, traçam, em seu estudo sobre a literatura moçambicana, paralelos entre a obra de Mia Couto e as de Milton Hatoum e Guimarães Rosa, mostrando como o autor amazonense e o homem de sertões e veredas encontram eco na bela, refinada – e ao mesmo tempo telúrica – prosa do autor de Um rio chamado Tempo, uma casa chamada Terra.

Mas se o moçambicano Mia Couto e o angolano Pepetela começam a ficar bem conhecidos por aqui, outros nomes das letras luso-africanas (se é que se pode denominá-las assim) ainda caminham na penumbra, por mais que um círculo ainda fechado saiba de sua existência. É o caso, por exemplo, do poeta cabo-verdiano Jorge Barbosa. Da mesma forma que a curiosidade e o engenho do navegador português Diogo Gomes o levaram a dar na costa daquele arquipélago que se tornaria Cabo Verde, também o leitor brasileiro deveria atentar para os versos de Barbosa – até porque seu olhar atravessou o Atlântico e se cravou entre nós. “Aqui onde estou, no outro lado do mesmo mar,/ Tu me preocupas, Manuel Bandeira,/ Meu irmão Atlântico”, escreveu ele em seu poema “Carta para Manuel Bandeira”.

Não só ele, mas autores como Eduardo White e Ungulani Ba Ka Khosa (Moçambique), Maurício Gomes e Boaventura Cardoso (Angola) e Onésimo Silveira e Vera Duarte (Cabo Verde), entre tantos outros, merecem e precisam ser conhecidos. Não por força de lei ou por necessidades acadêmicas. Mas porque os trajetos percorridos por esses países – e seus autores – têm origem similar aos que conhecemos tão bem. E marcas sociais e culturais que em muitos casos se espelham e se refletem. São “vasos intercambiantes” em muitos aspectos, e, se houve desvãos com o tempo e com a própria história, a cultura e a língua seminais tratam de aparar arestas. Por mais que outras possam ser criadas.

Esta talvez seja a maior validade desta coleção recém-lançada: não elaborar, pela enésima vez, estudos acerca da literatura brasileira e das letras portuguesas, com todos seus parnasianismos, barrocos, modernismos e outros ismos – essenciais, sem dúvida, mas já bem estudados e pesquisados. É dar voz, nome e história às letras – aquelas africanas de sotaque tão conhecido – que ainda precisam ser melhor desvendadas e apreciadas.

Jornal da USP, ano XXIII nº.825 de 7 a 13 de abril de 2008.

sábado, 19 de janeiro de 2008

UMA PROVOCAÇÃO: Quantos livros você lê por ano professor/a?

Livros e Professores

O texto de hoje é de Gabriel Perissé, autor dos livros Elogio da leitura e Literatura & educação. Professor do programa de mestrado em Educação da Uninove (SP).

Um editor carioca me contava, recentemente, que muitos professores universitários dirigem-se à editora pedindo livros de graça, a título de cortesia. Alegam que são professores, portanto, multiplicadores, divulgadores em potencial, pois pretendem fazer “propaganda” entre os colegas e os alunos. Sim, nós professores merecemos ganhar livros, mas devemos ser sinceros. Na verdade, pouco podemos multiplicar.

O triste fato: os docentes têm dificuldade para comprar um livro de R$ 40,00. Mesmo os mais baratos podem nos parecer caros, quando, como diz um humorista, falta tanto mês no final do salário. E em nossas aulas podemos até elogiar e recomendar livros, mas os alunos (em particular os universitários), quando compram, levam os livros mais baratos, e tão-somente se não encontram exemplares disponíveis na biblioteca ou não conseguem xerocopiá-los clandestinamente.

Início do ano letivo... bem-aventurados aqueles cujos nomes aparecem como autores de livros didáticos, compra obrigatória para os pais cujos filhos freqüentam escolas particulares. Livros didáticos, bem sabemos, que nascem do trabalho de uma equipe editorial, é um investimento grande para ajudar os docentes do País a vencerem incertezas e hesitações. Uma pesquisa demonstra que muitos professores lêem apenas o próprio livro didático ao prepararem suas aulas. Não criam seus próprios exercícios e atividades. Não se arriscam.

Na Folha de S. Paulo (26/01/07), o imortal José Sarney fez a sua apologia ao livro, um tanto hiperbólica: “O aquecimento global pode levantar o nível dos mares e a água invadirá as cidades, mas salvaremos os livros, se não pudermos salvar os prédios das bibliotecas.” Menciona “um projeto, já sancionado, do Estatuto do Livro e outro para a criação de um fundo para a difusão da leitura e a proteção ao livro.” Trata-se da Lei n° 10.753, de 2003. Ela é cheia de boas intenções, como deve ser toda a lei que se preza.

Mas, como sempre, não é com decretos que se muda a realidade. Mais da metade dos professores brasileiros – ou seja, mais de 1 milhão e 500 mil professores – não têm o hábito da leitura (segundo o Instituto Paulo Montenegro). Nemo dat quod non habet, ninguém dá aquilo que não tem. Nossos alunos – cerca de 50 milhões de pessoas estão estudando hoje no Brasil – vêem boa parte de seus professores carentes da paixão pela leitura. Educadores que não lêem têm repertório limitado, vocabulário pobre, imaginação rotineira. Seus alunos, por osmose, não escapam dessas limitações. Estas atrofiam nossa existência.

Em algum lugar do futuro, secretários de educação e donos de escolas criarão o vale-livro para docentes. Cada professor poderá gastar R$ 40,00 por mês (ou mais, dependendo do seu esforço e do seu desempenho) em livrarias, feiras de livros, sebos. E se ele for diretamente a uma editora poderá conseguir descontos de 20%, ou mais. Bolsa-livro para o docente estudar, aprender, aprofundar-se, entusiasmar-se, montar a sua biblioteca pessoal.

Contudo, simplesmente esperar por esse incentivo é condenar-se à apatia. Professores sem leitura? Educação sem cura. Portanto, cada professor, cada professora, por terem o dever de transmitir a “dor da lucidez”, como diz o personagem/professor do excelente filme argentino Lugares comunes, são chamados, por uma questão de responsabilidade pessoal, a buscar alternativas inteligentes para si e para os alunos.

Se as editoras, que também enfrentam dificuldades para divulgar e vender seus livros, não podem doá-los, cabe-nos sermos criativos! Na sua escola, bairro ou cidade, os professores podem fundar bibliotecas populares, sistemas de empréstimo/rodízio de livros, enfim, pôr em prática soluções novas, com iniciativa corajosa!


E você professor/a, concorda com Perisse? Comente.