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segunda-feira, 21 de junho de 2010

James Petras: A deterioração econômica da Europa

" Ainda é cedo para se falar em um colapso para o futuro próximo, mas os conflitos sociais e a recessão tendem a aumentar nesse continente e no mundo após a crise do euro, pontua o sociólogo James Petras. China e Brasil emergem como potencialidades nesse cenário. "

Reproduzido da Revista IHU
Por: Graziela Wolfart, Márcia Junges e Patricia Fachin | Tradução de Lucas Schlupp, 24/05/2010

Apesar de não ver um colapso para um futuro próximo, o sociólogo norte-americano James Petras vislumbra “possibilidades de recessão e de aumento nos conflitos sociais”. Na entrevista que concedeu, por telefone, à IHU On-Line, ele sentencia que “estamos entrando num período de deterioração econômica na Europa”. As revoltas sociais estão acontecendo em países específicos, e não há uma revolta social geral. As lutas dos trabalhadores querem, no fundo, manter o status quo, evitando o regresso de direitos já adquiridos. O que é paradoxal, observa Petras, é que eles se valem de medidas radicais para defender esse status quo. Já os capitalistas usam medidas legais para destruir esse cenário. Em sua opinião, após essa crise do euro, “haverá uma reorganização da política em um espectro bem polarizado entre a direita e a esquerda”. Além disso, aponta que a terceira via chegou ao seu limite, sobretudo na Inglaterra e França, em específico, e na Europa, como um todo. Na verdade, diz ele, a terceira via não era uma terceira via: “Era uma forma de liberdade de mercado capitalista com aumento nos gastos sociais, sem a realização de mudanças estruturais”. Petras adverte, também, para a compreensão de que a globalização significa, entre outras coisas, a integração de todas as economias, o que faz com que a crise do euro afete diretamente os EUA de inúmeras formas.

James Petras é professor emérito de Sociologia na Universidade Binghamton, em Nova York. Cursou a graduação na Universidade de Boston e o doutorado na Universidade da Califórnia, em Berkeley. É autor de mais de 62 livros, publicados em 29 línguas, entre os quais citamos A mudança social na América Latina (2000), Globalização: O imperialismo do século XXI (2001), Sistema em crise (2003) e Multinacionais Trial (2006). Entre 1973 e 1976, foi membro do Tribunal Bertrand Russel sobre a repressão na América Latina. Atualmente, escreve uma coluna semanal para o jornal mexicano, La Jornada.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quais são as perspectivas apontadas pelo governo Obama diante deste cenário de crise do euro?

James Petras - Em primeiro lugar, penso que é importante lembrarmos que a globalização significa integração de todas as economias, pelo menos as que estão profundamente incorporadas no mercado mundial. Assim, tudo aquilo que acontece na Europa, particularmente a crise do euro, afeta fundamentalmente os Estados Unidos de diversas maneiras. Afeta a capacidade dos exportadores americanos competirem com os europeus, pois o baixo preço do euro torna os exportadores europeus muito mais competitivos. Inevitavelmente, se o euro cria uma crise de grande proporção, também afeta os Estados Unidos, que investiram pesado na Europa, particularmente nas linhas de crédito imobiliário. Dessa forma, a crise espalha-se do sul da Europa para o norte, e do norte europeu para os Estados Unidos, levando a uma “recessão dupla” (Double dip recession), que é a reversão da recuperação, que tem demonstrado alguns sinais, retornando a uma recessão, a um crescimento negativo.

Uma terceira coisa é que já estamos percebendo, nos Estados Unidos e no norte da Europa, mas, particularmente, na Grécia, Espanha e Portugal, um processo de reversão dos ganhos sociais. Isso é um efeito dominó em que as tentativas dos governos para impor o custo da crise na classe trabalhadora, nos sindicatos, causam um efeito profundo nos padrões de vida. Eu não consigo ver como isso pode não acabar aumentando os conflitos sociais. Agora, os principais conflitos estão nas áreas diretamente afetadas. Na Grécia, há uma greve geral afetando em torno de 60% do efetivo, 90% do efetivo público em Atenas, e já atingiu o setor privado. Essa é a expressão militante mais visível de uma rejeição intensa.

Autoritarismo capitalista

Na Espanha, há sinais de greve geral. Em Portugal os sindicatos rejeitaram o plano de Sócrates , de cortes nas áreas sociais. E eu acho que há uma possibilidade de que, de acordo com os desdobramentos de programas como estes, no restante da Europa, as relações de capital de trabalho serão afetadas num futuro não tão distante. Além disso, virtualmente, não há sindicatos nos Estados Unidos. Temos 93% de trabalhadores no setor privado que não são filiados a sindicatos, e os sindicatos do setor público são legalmente proibidos de aderirem a greves. Então, virtualmente, não há resistência organizada contra estes programas nos Estados Unidos. É muito similar a um modelo autoritário, onde o capital faz o que bem entende, o governo faz o que bem entende. A manifestação nos Estados Unidos é muito confusa. É feita de forma que o descontentamento social não se expressa muito em um protesto social ou movimentos em massa. Porque o que temos de organizações trabalhistas é dirigido por milionários dirigentes dos sindicatos. Eu não sei se vocês sabem aí no Brasil, mas praticamente todos os líderes sindicais ganham mais de U$350 mil por ano. Então eles não possuem qualquer interesse em ter engajamento nestas atividades. O que acontece nos Estados Unidos é que as pessoas expressam sua irritação através de processos políticos, principalmente as eleições. Paradoxalmente, e por isso eu acho um pouco ruim, eles estão expressando isto através da rejeição dos que buscam os cargos administrativos na política, não importando se são republicanos ou democratas. Em muitos casos, suportam candidatos de direita que estão utilizando um red alert [expressão utilizada para uma “chamada de atenção”, originalmente utilizada para avisos de ataques aéreos iminentes] antipolítico. Assim, nos Estados Unidos, diferentemente de qualquer outro país, o descontentamento da classe trabalhadora – descontentamento popular –, está sendo direcionado à extrema direita. Vemos isso nas eleições primárias ocorridas na semana passada, onde houve candidatos que usam um red alert anti-Washington, e não oferecem uma solução social real. Na verdade, suas posições são geralmente mais de direita do que a do Obama, que representa, pode-se dizer, uma posição de centro-direita. Temos essas consequências, hoje, no que se refere ao euro. Você começa com uma crise no sul da Europa que se amplia para a União Europeia, vai além do domínio monetário e, por fim, acaba afetando os Estados Unidos.

Agora, a única ressalva é a discussão de se isto afetará a Ásia, que, nos últimos 18 meses, desenvolveu uma espécie de autonomia, diferente da vista nos Estados Unidos e Europa. A China ainda cresce, como a Índia, Coreia e Taiwan. A China está desenvolvendo laços com a América Latina, o que é um fator muito importante em países como o Brasil e a Argentina, para saírem da recessão de forma muito rápida por causa da dinâmica das novas parcerias entre a América Latina e a Ásia.

IHU On-Line - Em quais aspectos o modelo chinês pode indicar novos caminhos a partir da crise da moeda europeia?

James Petras - Bem, há varias coisas a serem ditas, tanto negativas quanto positivas, a respeito do modelo chinês. Primeiro, o modelo chinês demonstra que uma economia diversificada, especialmente arraigada no setor produtivo: indústria, agricultura e campos relacionados à construção e infraestrutura, tem claramente demonstrado sua superioridade em relação a um modelo centralizado no sistema financeiro. Em segundo, o modelo chinês demonstra que a atividade do mercado é muito mais eficaz na distribuição de recursos do que os estruturados sobre as forças armadas, como os Estados Unidos e seus aliados na Europa. Bem, os Estados Unidos estão gastando mais de um trilhão de dólares nas guerras do Afeganistão e no Iraque, e nos atritos bélicos com o Irã, Somália, Iêmen etc. Os chineses investiram mais de 130 bilhões de dólares no Irã, novos projetos na África e empreendimentos conjuntos com o Brasil. Então, vemos estes aspectos positivos do modelo chinês. O que há de negativo, e que está criando contradições sociais, é a ampliação da diferença entre as classes, entre os ricos e os pobres, entre a costa e o interior do país. E isso é o que está criando grande descontentamento, e sendo demonstrado em greves e mobilizações populares. A não ser que o governo chinês saiba lidar com a fragilidade da divisão social, verá que a estabilidade, que é necessária, ficará em perigo.

IHU On-Line - Se as economias britânica e europeia entrarem em colapso, quais os rumos da situação econômica e financeira mundial?

James Petras - Na verdade, não vejo um colapso em um futuro próximo. Eu vejo possibilidades de recessão e possibilidades de aumento nos conflitos sociais. Mas um colapso completo, penso que talvez ocorra em algum momento num futuro distante. Presumindo isto, acredito que haverá uma reorganização da política em um espectro bem polarizado entre a direita e a esquerda, com a direita utilizando um plano racista anti-imigrante, culpando os imigrantes pelos problemas, talvez até encorajando fomentos contra supostos inimigos. Mas eu penso que o problema central, em relação à direita, hoje, e as classes governantes, é o fato de que o elo fraco são os países do Leste Europeu, como Letônia e Romênia, que possuem 25% de desemprego, e estão propondo cortes de 30% nos salários e pensões, e onde um descontentamento está começando a aparecer. Fato semelhante se dá no Sul Europeu, em que a Grécia entrou num período de alto endividamento. Estas quitações são empréstimos, não são presentes ou doações. É impossível visualizar a Grécia quitando tais dívidas com os bancos do norte europeu. E esse é o ponto! Se os bancos não forem pagos, a Grécia terá que reorganizar todos os seus pagamentos ou optar pela inadimplência da dívida. E isto traria repercussões em toda a Europa e nos Estados Unidos.

O setor financeiro é o que pode detonar uma profunda crise econômica em um momento como este. E o problema da Grã-Bretanha é o excesso de déficit fiscal, o acúmulo de dívidas aparecendo. Inevitavelmente, haverá cortes realizados pelo novo governo de coalizão conservadora e liberal-democrata. Refiro-me a grandes cortes em saúde, educação e congelamento de salários. Acho que veremos uma renovação nas atividades sindicais da Inglaterra. Então, penso que estamos entrando num período de deterioração econômica na Europa. Paralelamente, haverá um pequeno boom nas exportações, causado pela desvalorização do euro. Exportações podem aumentar enquanto a crise financeira aprofunda, pelo menos por um curto prazo.

IHU On-Line - Os estados europeus de bem-estar social, tão afetados pelo endividamento e pelos déficits, serão capazes de resgatar suas finanças públicas e reformar suas economias sociais de mercado?

James Petras - Bem, a economia social de mercado está mais para o mercado do que para o social. Como mencionei anteriormente, houve ataques violentos à pensão, as idades mínimas para direito às pensões foram aumentadas, valores das pensões congelados, salários rebaixados, e os desempregados receberam ofertas de trabalho com salários bem menores do que os salários que ganhavam anteriormente. Portanto, está havendo uma regressão geral que piorou o estado de bem-estar social, ao invés de melhorá-lo. O que acho, e deve ser dito, é que o “mercado social”, que surgiu na década de 60 e se desenvolveu até os anos 90, está fazendo o sentido inverso.
A segunda coisa é que, quando se fala da recuperação econômica, acho necessário colocar, no contexto, que há uma enorme transferência de riqueza através destes subsídios às empresas privadas e, em contrapartida, uma certa dureza para com as empresas. Então temos uma substituição enorme, através da agência do governo, de income shares, de salários, a lucros, rendas, royalties etc. E este tipo de recuperação me lembra um pouco do que disse o General Médici: “A economia vai bem, mas o povo vai mal”. Penso que devemos entender que o crescimento do capital, hoje, o mínimo que seja, está sendo amplamente financiado por uma batalha entre os salários e o bem-estar.

IHU On-Line - Quais as consequências sociais da redução do estado de bem-estar social? Qual sua análise de uma possível revolta social?

James Petras - As revoltas sociais hoje estão focalizadas em países específicos. Isso precisa ser enfatizado. Não há uma revolta social geral. Há muito protesto na Grécia, uma movimentação social latente na Espanha, em Portugal e no leste europeu, particularmente, na Romênia e na Letônia, onde há indicações de possíveis movimentações sociais. Temos que colocar isto dentro do contexto: estas são lutas defensivas [protetivas]. São lutas para manter o status quo. Os trabalhadores estão empenhados em movimentos massivos para evitar o regresso. Estas não são lutas ofensivas para levar adiante interesses de trabalhadores, mas são para defender os salários, padrão de vida, pensões, empregos etc. O paradoxo é que eles utilizam medidas radicais para manter o status quo. Os capitalistas estão utilizando medidas legais para destruir o status quo e impor regras exclusivamente capitalistas sobre estes países. Se, ao longo do tempo, esse processo continuar, é difícil de imaginar que não haverá uma radicalização das lutas, passando de protestos pacíficos para confrontos mais violentos. Mas isto deve ser pensado ao longo de um bom tempo. Devemos lembrar que estamos falando de décadas de adaptação entre capital e trabalho. Falamos de décadas em que trabalhadores e funcionários, especialmente funcionários públicos, trabalharam através dos partidos, negociações e barganha. Portanto, isso está incorporado na consciência e na ideia de revoluções. Revoltas não são parte desta atuação. É um processo gradual em que as formas antigas já não têm mais efeito, e as novas formas ainda têm que ser colocadas em prática.

IHU On-Line - Em que aspectos o fim da terceira via aponta na direção de uma possível transição para um esvaziamento da política?

James Petras - Penso que a terceira via já chegou ao seu limite, especialmente na Europa e particularmente onde tudo começou, na Inglaterra. Vimos a saída do Partido Trabalhista e o colapso bancário, do sistema financeiro. A terceira via não era realmente uma terceira via. Era uma forma de liberdade de mercado capitalista com aumento nos gastos sociais, sem a realização de mudanças estruturais. Então, quando a crise financeira veio, teve um impacto muito grande. Pois, incorporado à realização das políticas, estavam as ideias de que o sistema financeiro deveria ser poupado acima de tudo. Portanto, nada foi feito para alterar as estruturas. Como resultado disso, temos uma segunda onda de tentativas de resgate do setor financeiro à custa dos trabalhadores e dos sistemas produtivos. Portanto, temos, no resgate financeiro, uma situação de caráter desagradável para com o público. Acredito que a terceira onda de gastos sociais e de liberdade de mercado é um dilema. A liberdade de mercado não está funcionando, e os gastos sociais estão acabando. Na verdade, estamos tendo uma retratação dos gastos sociais. Portanto, a terceira via morreu na Inglaterra, talvez até na França e no restante do continente.

A terceira via na América Latina

Tendo dito isto, vejamos a América Latina e o que está acontecendo nela. A terceira via está muito evidente nas práticas de algumas novas formas de governo de classe média, com governos como Lula e Evo Morales, que são essencialmente desenvolvimentistas. Não são reformadores, mas governos concentrados em encorajar a maximização de investimentos privados, investimentos estrangeiros, capitalistas nacionais etc, e combinam isto com os gastos sociais, particularmente nos chamados programas sociais. Não tocaram em nenhuma estrutura fundamental, como as bancárias, industriais, agrominerais, mas reforçaram-nas e as ampliaram. Portanto, a terceira via está em atividade no Brasil e na América Latina, neste momento. Mas, ao mesmo tempo em que há grande ênfase em encorajar investimentos privados e gastos com programas sociais, mantém-se os salários baixos. A chave dos programas desenvolvimentistas é a estabilidade social através da exploração da classe trabalhadora para pagar os programas para os pobres, enquanto se incentiva o grande capital. A diferença da terceira via no Brasil e na América Latina, é que ela está menos dependente do sistema financeiro do que estava na Inglaterra e nos Estados Unidos. Portanto, há uma diferença na composição da parceria entre o Estado e diferentes tipos de capital. Mas a ênfase unilateral no capitalismo, crescimento e investimento está presente, ao mesmo tempo em que a ausência de qualquer redistribuição significativa do produto social é muito evidente.

IHU On-Line - Podemos relacionar o fim da terceira via e a ruína do trabalhismo inglês com o colapso das finanças públicas europeias? O que esses dois fatos dizem sobre uma mudança de paradigma econômico e social?

James Petras - Bem, nós já temos uma mudança. Há o colapso dos sistemas financeiros, orçamentos e um tremendo endividamento. Aqui podemos ter uma tentativa de criar um novo modelo em que o Estado possui um papel importante e crescente de regular a economia. Isto é, regular no sentido de restaurar as operações do sistema financeiro. As pessoas dizem que o Estado está mais envolvido agora do que esteve no passado, e isso é diferente. Mas temos que nos perguntar: que tipo de aumento na intervenção do Estado? Existe qualquer reequilíbrio da economia entre finanças e produção, indústria etc.? Não há qualquer reequilíbrio, mesmo nos Estados Unidos ou na Europa. Há mais intervenção do Estado, mais gastos estatais, mas estão sendo canalizados para as classes que criaram a crise. Nesta nova abordagem, temos capital financeiro do Estado como uma força motora. E nada tem realmente sido alterado em relação aos fundamentos. Ainda temos uma base econômica muito precária para qualquer tipo de renovação dos objetivos. E eu acho que o futuro do trabalho está apenas se direcionando no sentido de se tornar um desafio para os governos existentes. Quando digo governos, refiro-me aos liberais, conservadores, social-democratas, republicanos e democratas... Nenhuma destas opções demonstra qualquer capacidade de repensar o passado, e dizer: vejam, os modelos de desenvolvimento baseados no sistema financeiro: o turismo no sul, o bancário na Inglaterra, a dependência do financiamento das dívidas no leste europeu etc., não funcionam! Temos que repensar e voltar aos fundamentos da economia política, da necessidade de investimentos públicos, de propriedade pública, de maior grau de participação social na economia etc. Nada disto está nos planos. Acho que estes são planos futuros para a classe trabalhadora.

Leia mais...

James Petras já concedeu outra entrevista à IHU On-Line. Confira:

• ''A esquerda não pode ser um mero salva-vidas do capitalismo''. Revista IHU On-Line, número 287, de 30-03-2009

quinta-feira, 12 de março de 2009

Lula: Falta coragem política

Atualizado em 12 de março de 2009 às 00:07 | Publicado em 11 de março de 2009 às 19:25

por Luiz Carlos Azenha no Vi o Mundo

Fiz uma aposta com o Eduardo Guimarães. Uma aposta que eu não gostaria de vencer. Eu acredito que o Eduardo subestimou a crise internacional em suas análises sobre a economia brasileira. Ele acredita que a mídia teve um papel relevante em provocar a crise. Eu não boto tanta fé no poder da mídia para inventar uma crise econômica, embora seja nítida a torcida do "quanto pior, melhor".

Não sou economista e, em geral, erro sempre em minhas previsões. Dessa vez talvez eu acerte. Eu vivia em Washington quando comecei a acompanhar a crise. E não é preciso ser um gênio para constatar que, diante da globalização e da financeirização do mundo -- dois fenômenos que se entrelaçam -- uma crise profunda nos países centrais afeta as economias ditas "periféricas", por mais que elas estejam preparadas. O risco de os maiores bancos dos Estados Unidos falirem é um sinal da profundidade da crise.

Sim, o Brasil tem um mercado interno, mas não vive só dele. Vive, também, da exportação de seus produtos. A crise atingiu não apenas os Estados Unidos, mas também a União Européia. Dois grandes mercados brasileiros. Reduziu o crescimento na China, outro mercado importante. "Marolinha", como definiu o presidente da República? Até entendo que Lula faça o papel de "dourar a pílula". Nos Estados Unidos, Barack Obama tem sido criticado pelo tom catastrofista que adotou. O governo brasileiro já admite que o crescimento do Brasil não atingirá a meta de 4% em 2009.

Eu disse, lá atrás, que se o Brasil crescer 2% este ano deveríamos soltar rojões. Quando a crise se agravou, mesmo nos Estados Unidos notei um tremendo descompasso entre os números da economia real e o noticiário da imprensa. Se eu acreditasse em conspirações, diria que o "dinheiro inteligente" estava ganhando tempo para pular fora e deixar o mico na mão do "dinheiro burro", ou seja, do estado.

Vai ficar cada vez mais óbvio, no Brasil, que o governo Lula demorou a agir. Só posso especular que os quadros governamentais não se deram conta da gravidade da crise que teriam pela frente. O conservadorismo do Banco Central é típico de quem não se deu conta de que estamos vivendo um momento de transformação. Não se trata, apenas, de mais uma crise, mas "da crise" de nossa geração. Não dá para aplicar velhas receitas em problemas novos.

A doença que acometeu os governos Sarney e FHC também pegou o governo Lula: a falta de coragem política. O loteamento do governo para garantir a "governabilidade", lá atrás, em 2002, desaguou em 2009 nas vitórias políticas de Collor e Sarney dentro do Congresso. O antigo Centrão divide o poder com o governo Lula, que agora é refém dele para as eleições de 2010. E essa "banda podre" sempre foi, é e sempre será imobilista: do jeito que está, tudo bem. Eles sempre estiveram por cima da carne seca. Assim como FHC, Lula faz um governo "reativo". Não ousa politicamente, apesar de montado em 84% de popularidade. Aposto que o cálculo político do presidente leva em conta que à esquerda dele não há lugar para correr. Por isso, Lula costura à vontade ao centro e à direita.

Seria a hora, hoje, de demitir o presidente do Banco Central e colocar no lugar não outro representante dos banqueiros, mas alguem identificado com os novos contornos que o mundo vai tomando. Um mundo em que o papel do estado será decisivo para separar os paises que sairão ganhando da crise daqueles que sairão perdendo. Mas Lula deve satisfações, no Congresso, à sua base mais conservadora. A posição que ele assumiu é justamente aquela que interessa a José Serra e ao PSDB: a única chance do tucano repousa em vender, fora de São Paulo, a imagem de um administrador experimentado e que tem mão firme para conduzir o Brasil num momento de crise.

A situação de hoje é a que mais interessa aos tucanos: um governo imobilizado, que fica esperando a economia reagir como se isso dependesse de alguma simpatia. A sorte de Lula é que a oposição já deu muitas demonstrações de inépcia e confunde o Jornal Nacional com a realidade.

PS: O que o governo Lula fez pela "renovação política"? Quase nada. Não dá para cumprir 8 anos de mandato e dizer que a culpa "é da oposição". Lula fez a inclusão social, mas pecou na inclusão politica. Promoveu a ascensão de uma nova classe média que reproduz acriticamente como verdade o que ouve no BBB ou no Jornal Nacional -- quando consegue discernir entre um e outro. As demandas sociais foram contempladas, mas as demandas políticas foram diluídas no assistencialismo. O Congresso de 2009 é igualzinho ao de 2002. O assalto aos cofres públicos é generalizado. Os ruralistas mandam na política agrária e ambiental; os banqueiros, na política econômica; a Globo nas comunicações. O estatuto do negro parou no Congresso. A reforma da radiodifusão, também. A presença das mulheres no Congresso é de menos de 10%. Os partidos são tão fracos hoje quanto eram há oito anos, talvez mais. Venceu o lulismo, mas não houve avanço institucional equivalente. Não dá para dizer que a culpa é só dos tucanos e demos.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

O neoliberalismo pra inglês ver dos republicanos estadunidenses


Atualizado em 21/09/2008

Uma nação de bobos da corte

James Moore, no Huffington Post

Não deixe eles te dizerem que o derretimento econômico é uma confusão complicada. Não é. Nossa crise financeira nacional é facilmente entendível por qualquer pessoa que tenha visto cobiça e hipocrisia. Mas agora testemunhamos as duas em escala profunda e monumental.

Os republicanos conservadores sempre querem que o governo fique longe dos negócios e combatem fiscalização enquanto fazem rios de dinheiro. Quando a cobiça deles, no entanto, os coloca em apuros, são os primeiros a chorar por regras e leis e dinheiro do contribuinte para salvá-los. Obviamente, os republicanos são socialistas. O governo Bush decidiu socializar a dívida das grandes empresas de Wall Street. Os contribuintes não puderam aproveitar dos grandes lucros nos instrumentos financeiros fajutos como derivativos ou papéis do sub-prime, mas nós ganhamos o privilégio de pagar pelas dívidas e falências.

Vamos considerar apenas o dinheiro. O salvamento público da seguradora gigante AIG (que está se tornando um anão) custará 85 bilhões de dólares. De acordo com uma notícia, mais do que o governo Bush gastou no programa Ajuda para Famílias com Crianças durante seus dois mandatos. Esse dinheiro cobriria os gastos de saúde de todos os homens, mulheres e crianças dos Estados Unidos por ao menos seis meses.

Como chegamos a isso?

A resposta também é simples. O nome dele é Phil Gramm. Poucos dias depois que a Suprema Corte fez Bush presidente em 2000, Gramm enfiou uma coisa chamada Ato de Modernização do Commodity Futures na lei do Orçamento. Ninguém sabia que o senador do Texas estava dando aos Estados Unidos uma pílula de veneno de 262 páginas. O Ato do Gramm foi desenhado para manter fiscais federais longe do controle de novas ferramentas financeiras descritas como credit swaps. São instrumentos como hipotecas de sub-prime empacotadas e vendidas.

[Pedro deve à Caixa Econômica 50 mil reais. A dívida dele é garantida através de papéis vendidos no mercado financeiro. Os bancos de investimento ganham rios de dinheiro com as comissões de venda. Pedro fica doente, perde o emprego e deixa de pagar a conta. Os títulos ligados à dívida do Pedro apodrecem. Foi isso o que deu origem à crise nos Estados Unidos. Pedro multiplicado por milhares de compradores de casas. Bilhões de dólares em papéis micados que se espalharam pelo mundo.]

Sob a lei de Gramm, nem a SEC [equivalente americano da Comissão de Valores Mobiliários] nem a Comissão de Vendas de Commodities Futures (CFTC) poderiam examinar as instituições financeiras como fundos de hedge ou bancos de investimento para garantir que tinham os bens necessários para cobrir perdas no mercado.

Não estamos falando de uma besteira qualquer. O mercado para esses instrumentos financeiros que eles esperam que a gentinha não entenda é estimado em 60 trilhões de dólares anualmente, o que equivale a quase quatro vezes o valor que gira em todo o mercado de ações dos Estados Unidos.

E o senador Phil Gramm queria que os bancos de investimento atuassem sem regulamentação. Assim como Alan Greenpan, que apoiou a legislação e agora vai a programas de televisão para falar do horror que está acontecendo. Antes que os lobistas de altos salários acabassem de mostrar os seus cartões-ouro nos corredores do Congresso, todos -- dos fundos de hedge aos bancos -- já estavam brincando com fogo em busca de diversão e lucros.

Gramm não apenas fez de Wall Street uma ilha da fantasia. Ele também enfiou na sua lei um artigo que evitava a regulamentação dos mercados de energia, o que levou ao colapso da Enron. Não houve colapso da casa de Gramm, no entanto, já que a mulher dele, Wendy, que já dirigiu a Comissão de Vendas de Commodities Futures (CFTC) conseguiu um emprego na Enron que rendeu quase dois milhões de dólares para o cofrinho familiar. Por que não? Wendy passou uma regra que manteve o governo distante da fiscalização dos contratos de energia futura da Enron.

Se John McCain se eleger e escolher Phil Gramm como secretário do Tesouro, o que é uma possibilidade, eles poderão conversar sobre os bons velhos tempos em que Gramm estava no Congresso e McCain no Senado e eles participaram da crise dos Savings as Loans [S&L].

[Crise financeira que atingiu instituições de poupança e empréstimos pessoais nos anos 80, em que o governo americano também entrou com dinheiro público].

O escândalo dos S&L, que parece nada comparado com a presente cascata de problemas, também não é difícil de entender. Mas é impossível levar John McCain a sério em nosso atual Armageddon financeiro uma vez que ele esteve envolvido no colapso histórico de 747 instituições de poupança que ocorreu na era de Ronald Reagan. No início dos anos 80, sob um presidente republicano, o Congresso desregulamentou as empresas de S&L da mesma forma que Gramm mais tarde acabaria com as leis para controlar os malfeitores de Wall Street. Os dirigentes das instituições de poupança fizeram lobby até derrubar as regulamentações e em seguida passaram a fazer investimentos de má qualidade.

O cara que endoidou com a liberdade financeira foi Charles Keating, que controlava a Lincoln Savings and Loan da Califórnia. Uma vez que a indústria da S&L tinha conseguido fazer com que o Congresso aumentasse a garantia federal aos depósitos de 40 mil para 100 mil dólares, o investimento irresponsável de pessoas como Keating começou a colocar em risco dinheiro do contribuinte. Keating colocou dinheiro em ações junk e projetos imobiliários duvidosos e por causa disso a direção do Federal Home Loan Bank (FHLBB) começou a pedir regulamentação para limitar esses investimentos diretos, perigosos e especulativos a 10% dos bens totais das empresas de S&L.

Keating não gostou disso; chamou um economista privado de nome Alan Greenspan, que prontamente produziu um estudo dizendo que não havia perigo em investimentos "diretos". Mas isso não convenceu o FHLBB e o escrutinio federal mostrou que a Lincoln Savings and Loan tomava decisões historicamente ruins e uma investigação foi iniciada.

Assim, Keating chamou o senador de seu estado, John McCain.

McCain e outros quatro senadores (conhecidos como o Quinteto de Keating) se encontraram com Edwin Gray, então dirigente do FHLBB. McCain tinha hesitado em comparecer mas teria sido chamado de "fracote" por Keating nos bastidores. A mensagem de Gray e do Quinteto para a FHLBB foi de que deveria tirar as mãos da Lincoln e esfriar a investigação. Gray e a FHLBB não cederam, mas a Lincoln manteve seus negócios até 1989, quando faliu com o resto da indústria de S&L. Os investimentos de mais de 20 mil investidores da terceira idade desapareceram com a falência da Lincoln. Keating passou cinco anos na cadeia.

Charles Keating era amigão de John McCain. Eles se encontraram em 1981 e Keating deu 112 mil dólares para as campanhas de McCain entre 1982 e 1987. Um ano antes do encontro de McCain com os fiscais do FHLBB a mulher de McCain, Cindy e o pai dela, de acordo com o noticiário da época, investiram 360 mil dólares em um dos shopping centers de Keating. O jornal Arizona Republic noticiou que McCain, sua mulher e a babá viajaram nove vezes no avião privado de Keating para as Bahamas, onde ficaram no resort decadente de Cat Cay [pertencente a Keating]. O senador não pagou pelas viagens ao banqueiro até anos depois, quando Keating estava sob investigação.

McCain não foi acusado oficialmente de nada, mas de erro de avaliação. Os republicanos, que lideraram a desregulamentação da indústria de Savings and Loans, adiaram a operação de salvamento até depois da eleição de 1988 para garantir a vitória de George H. W. na disputa pela Casa Branca. O custo da ajuda dos contribuintes às 747 empresas foi calculado em 1,4 trilhão de dólares. Se o salvamento tivesse começado em 1986, em vez de depois da eleição presidencial, o custo teria sido contido em 20 bilhões de dólares.

E agora os republicanos, que inventaram a presente crise e causaram o debacle das Savings and Loans nos anos 80, nos dizem que os mercados precisam de regulamentação. Não, de fato, eles não precisam. Por que os capitalistas republicanos que acreditam no mercado livre não caem fora e deixam o mercado funcionar, permitindo que essas casas de doido sejam esmagadas sob o peso de sua própria estupidez? Quando tudo acabar, teremos gente sã e sóbria para criar leis que garantam que o problema não se repita, isso se sobrevivermos ao caos.

Além disso, quando você estiver dando nosso dinheiro público para os idiotas de Wall Street, guarde um pouco das verdinhas para os desempregados da indústria automobilística e da construção civil que perderam seus empregos, já que você foi muito estúpido para não notar o que Phil Gramm fez e estava convencido de que tudo daria certo, uma vez que os mercados funcionam.

Esses, pois, são os caras -- os republicanos -- que querem o governo por mais quatro anos. John McCain não é apenas um deles. Ele anda nos jatos. Ele recebe doações de campanha. Ele os tem como assessores de campanha. E ele diz que devemos confiar nele.

Ele deve pensar que somos uma nação de bobos da corte.

Talvez a gente seja.


George Bush e o comunismo enrustido


George Bush, o comunista enrustido. Crédito: Divulgação.

Para o sociólogo Cristóvão Feil, a crise do mercado financeiro nos Estados Unidos salienta a contradição do capitalismo. As empresas, que sempre reclamam da intervenção do governo no mercado, agora imploram que a administração de George W. Bush salve as instituições à beira da falência. Este é o comentário político da semana.



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Reportagem: Cristóvão Feil | duração: 4'26 | tamanho: 780 Kb

Porto Alegre (RS) - Em tom de brincadeira, tenho dito que o presidente norte-americano George Bush Jr. é um revolucionário criptocomunista, que quer dizer um comunista enrustido. Pois acabou com o capitalismo sem nunca admitir sequer que era um militante de esquerda. Brincadeiras a parte, mas o sistema capitalista internacional está no momento em uma crise sem precedentes, pelo menos desde 1929. Portanto, há quase oito décadas.

Como não sou um economista, fui dar uma olhada no que os economistas que eu respeito estão comentando sobre a crise no capitalismo nos Estados Unidos da América do Norte. Muito embora este tema não seja um assunto só de economistas, mas diz respeito a todos nós que estamos vivos e respiramos debaixo do sol, sempre á bom examinar o que eles têm a dizer. Para a economista Maria da Conceição Tavares, a crise atual é comparável a de 1929 no tamanho e no estrago. Só que os bancos centrais e os tesouros nacionais estão atuando para evitar uma recessão. Então é “uma crise de 29 a conta-gotas”, como diz Conceição. Estoura um, o Tesouro norte-americano socorre. Estoura outro, o Banco central dos EUA socorre. Conceição diz que ninguém sabe onde isso vai parar.


Para o Brasil, a economista acha que até pode ajudar a conter a inflação, que andou meio descontrolada, mas que agora já está diminuindo. Outro economista que andei lendo para saber o que ele pensa sobre a crise financeira dos mercados foi Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia em 2001 e ex-diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI). Stiglitz usa uma metáfora muito apropriada: ele diz que a atual crise é a "queda do muro de Berlim do capitalismo". Diz ele: "A queda de Wall Street representa para o fundamentalismo do mercado o que a queda do Muro de Berlim representou para o Comunismo". Ele informa que esse modo de organização econômica não funciona mais.

Para o Prêmio Nobel nós, os capitalistas estamos nos afogando, segundo ele. Considerando que 30% dos ganhos de capital resultam de lucros financeiros e que esses capitais estão podres, Stiglitz diz que os fundamentos da economia não garante que vamos sair da crise de modo fácil e indolor. Já o economista Paulo Nogueira Batista, o brasileiro que é diretor-executivo do FMI, comenta que este é o crepúsculo dos ídolos do capitalismo. Já quebraram várias instituições no coração do capital: Bear Stearns, Fannie Mae, Freddie Mac, Lehman Brothers, Merrill Lynch e a megaseguradora AIG.

E o governo de George Bush teve de desembolsar US$ 1 trilhão para estatizar essas empresas privadas, contrariando tudo o que neoliberalismo sempre pregou, ou seja, que o Estado jamais pode interferir nos negócios privados. Como se vê, para salvar reputações e negócios rentáveis aí pode. Aí o estado tem que exercer o seu paternalismo e salvar os filhos que caíram em desgraças financeiras mesmo que seja por incompetência e má gestão como é o caso recente desses operadores de mercado.


Pensem nisso, enquanto eu me despeço.

Até a próxima!


Cristóvão Feil é sociólogo e editor do blog Diário Gauche

Será o destino do Lehman aquele da América? EUA: economia sem leme e a cambalear

por Craig Roberts*

Haviam-nos prometido uma "Nova economia" de serviços de alta tecnologia comerciáveis que substituiria a economia manufatureira deslocalizada no estrangeiro. Desejando saber o que aconteceu à "Nova economia", a Research Offshoring Network da Duke University investigou-a e localizou-a no offshore. Sim, as atividades da dita "Nova Economia" também foram deslocalizadas no estrangeiro.

Call centers, operações de TI, operações de back-office e a manufacura foram há muito removidas para o exterior. Agora atividades de alto valor acrescentado tais como investigação e desenvolvimento, engineering, desenvolvimento de produto e serviços analíticos estão a ser enviadas offshore. Tudo o que foi deixado são as finanças, e elas estão a desintegrar-se diante dos nossos olhos.

Corretores independentes (broker-dealers) estão a desaparecer: Merrill Lynch, Bear Stearns, Lehman Brothers. Estas veneráveis instituições estavam demasiado pouco capitalizadas para os riscos que assumiram. A Merrill Lynch agora faz parte do Bank of América, e a Lehman Brothers é história.

Desregulamentações financeiras imprudentes levaram à concentração financeira e não a mercados mais eficientes. Bancos locais independentes, os quais focavam-se no financiamento de negócios locais, e Associações de Caixas Econômicas (Saving and Loan), que conheciam o mercado da habitação local, foram substituídas por grandes instituições que empacotavam riscos não analisados e vendiam-nos por todo o mundo.

A regulamentação foi demasiado ambiciosa. O pêndulo inclinou-se. A desregulamentação tornou-se uma ideologia e uma facilitadora da ganância.

A desregulamentação da energia elétrica deu-nos a Enron.

A desregulamentação das companhias de aviação destruiu nomes americanos famosos como a Pan Am, encolheu o números de companhias e provocou um declínio no serviço. Quando as companhias estavam regulamentadas, elas podiam permitir-se ter equipamento de reserva de prontidão e os voos cancelados eram raros. Hoje, as condições financeiras proíbem ter equipamento standby e problemas mecânicos resultam em cancelamento de voos. Quando economistas calcularam os benefícios da desregulamentação eles deixaram de lado muitos dos seus custos.

Já não há mais companhias blue chip , o que significa que investir para a aposentadoria tornou-se um jogo de dados. As pessoas percebem isto; portanto, a privatização da Segurança Social não tem apoio.

Se olharmos de forma realista para a economia dos EUA, veremos que aquilo que não foi movido para o offshore está a precisar de salvação. No ano passado, o Departamento da Energia foi autorizado a efetuar empréstimos de US$25 mil milhões a indústrias fabricantes de automóveis e fornecedores de peças. Na semana passada o secretário do Tesouro pôs debaixo da sua US$5 milhões de milhões em hipotecas habitacionais da Fannie Mãe e do Freddie Mac. O Gabinete de Orçamento do Congresso diz que esta ação do Tesouro significa "que as operações da Fannie Mãe e do Freddie Mac deveriam ser incorporadas direcamente no orçamento federal". ( http://cboblog.cbo.gov/ ) Suas receitas seriam tratadas como receitas federais, e suas despesas como despesas federais. Se as últimas fossem maiores do que as primeiras, não haveria razão para a tomada.

A questão em aberto é: como estes novos passivos afetam a capacidade de crédito do próprio Tesouro?

Por enquanto, esta questão está submersa. A prática tradicional de fugir para o dólar americano e os títulos do Tesouro dos EUA durante períodos de stress financeiro e de incerteza promoveu o dólar e manteve baixas as taxas de juro. Mas mais cedo ou mais tarde o déficit do orçamento dos EUA, agravado pela recessão e por salvamentos, e ainda pelo grande déficit comercial que exige a constante reciclagem de dólares possuídos por estrangeiros nos ativos reais e financeiros estadunidenses, resultará em esforços renovados da parte dos estrangeiros para aligeirar seus haveres em dólares.

Quando chegar este momento, as taxas de juros estadunidenses terão de ascender em conformidade para o governo ser capaz de continuar a apoiar-se nos estrangeiros para reciclar os dólares adquiridos no comércio a fim de financiar o déficit do orçamento anual do governo dos EUA.

Os atuais problemas financeiros empurraram para os bastidores os problemas maiores do orçamento e do déficit comercial dos EUA. Bens e serviços para mercados americanos que as corporações dos EUA deslocalizam offshore retornam como importações, as quais alargam o déficit comercial estadunidense. Transferir produção para o estrangeiro reduz o PIB e o emprego dos EUA e aumenta o PIB e o emprego no estrangeiro. Transferir produção para o estrangeiro reduz a capacidade exportadora da economia dos EUA ao mesmo tempo que aumenta a conta da importação.

Portanto, como é que o déficit comercial será colmatado? Um dos meios é através da perda do valor de troca do dólar, a qual reduziria os rendimentos reais dos consumidores americanos e deixa-los-ia demasiado pobres para comprarem bens e serviços deslocalizados.

Como é que o déficit orçamental será fechado quando empregos estão a desaparecer e o PIB (base do fisco) está a ser relocalizado offshore?

Não através de impostos mais altos. Impostos mais altos são problemáticos para uma economia recessionária na qual o emprego, medido corretamente, já está em dois dígitos (http://www.shadowstats.com/).

Algumas pessoas têm especulado que o déficit orçamental será colmatado pelo desmantelamento de programas de promoção social tais como o Medicare. Contudo, considerando o custo dos seguros médicos, isto seria catastrófico para dezenas de milhões de americanos mais idosos.

A via mais provável será uma incursão nas pensões privadas. Alicia Munnell, nomeada pela administração Clinton como secretária assistente do Tesouro para Política Econômica, argumentou que fundos privados de pensões deveriam enfrentar um gravame fiscal pelo fato de que a sua acumulação ter sido livre de impostos. Espero que o governo federal, confrontado com a sua própria bancarrota, ressuscitará este argumento, pois será preferível imprimir dinheiro como uma república de bananas ou a Alemanha de Weimar.

No século XXI, a economia dos EUA tem estado a manter através da expansão da dívida, não pelo crescimento real do rendimento. Economistas têm louvado o crescimento da produtividade estadunidense, mas não há sinal de que a produtividade acrescida tenha ascendido rendimentos familiares, uma indicação de que há um problema com as estatísticas da produtividade. Com consumidores super carregados de dívidas e o valor do seu ativo mais importante – habitação – em queda, o consumidor americano não será levado a uma recuperação.

Um país que tivesse líderes inteligentes reconheceria suas aflições, travaria suas guerras gratuitas e cortaria seu orçamento militar maciço, o qual excede aquele de todo o resto do mundo somado. Mas um país cujo objetivo de política externa é hegemonia mundial continuará no caminho da destruição até que o resto do mundo cesse de financiar a sua existência.

A maior parte dos americanos, incluindo os candidatos presidenciais e os media, estão inconscientes de que o governo dos EUA hoje, agora neste minuto, é incapaz de financiar suas operações diárias e deve confiar em estrangeiros que comprem seus títulos. O governo paga os juros aos estrangeiros vendendo-lhes mais títulos, e quando os títulos têm de ser pagos, o governo resgata-os vendendo-lhes novos títulos. O dia em que os estrangeiros não comprarem será o dia em que o povo americano e o seu governo será trazido à realidade.
Isto não é a posição financeira de uma superpotência.

Será que aquilo que hoje aconteceu à Lehman Brothers será amanhã o destino da América?

[*] Ex-secretário assistente do Tesouro na administração Reagan. Foi Editor Associado da página editorial do Wall Street Journal e Editor Colaborador da National Review. É co-autor de The Tyranny of Good Intentions. Email: PaulCraigRoberts@yahoo.com
O original em inglês foi publicado em 16/09/2008 no Counter Punch.org