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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A crise financeira sem mistérios

Para apresentar os principais encadeamentos da crise financeira é preciso partir dos mecanismos que a desencadearam; a deterioração dos mecanismos e das instituições de regulação, e o papel chave que os Estados Unidos desempenham. Na avaliação dos impactos, quem deverá em última instância pagar pela bancarrota do cassino?

Ladislau Dowbor (Mundo Diplomatique)

(25/01/2009)

“Os benefícios fundamentais da globalização financeira são bem conhecidos: ao canalizar fundos para os seus usos mais produtivos, ela pode ajudar tanto os países desenvolvidos como os em via de desenvolvimento a atingir níveis mais elevados de vida.” IMF, Finance & Development, March 2002, p. 13.

“Os administradores de fundos enriqueceram e os investidores viram o seu dinheiro desaparecer. E estamos falando de muito dinheiro, em todo esse processo” ­- Paul Krugmann, Folha de São Paulo, 30-12-2008

Tirando a roupa (financeira)

As pessoas imaginam profundas articulações onde, em geral, há mecanismos bastante simples. Nada como alguns exemplos para ver como funciona. Há poucos anos estourou o desastre da Enron, uma das maiores e mais conceituadas multinacionais americanas. Foi uma crise financeira e um dos principais mecanismos de geração fraudulenta de recursos fictícios, foi um charme de simplicidade. Manda-se um laranja qualquer abrir uma empresa laranja num paraíso fiscal como Belize. Esta empresa reconhece por documento uma dívida de, por exemplo, 100 milhões de dólares. Esta dívida entra na contabilidade da Enron como “ativo”, e melhora a imagem financeira da empresa. Os balanços publicados ficam mais positivos, o que eleva a confiança dos compradores de ações. As ações sobem, o que valoriza a empresa, que passa a valer os cem milhões suplementares que dizia ter.

Os executivos da Enron acharam o processo muito interessante. O setor de produção (que produzia efetivamente coisas úteis) foi colocado no seu devido lugar, e os magos da finança se lançaram no filão que apresentava a vantagem de ser menos trabalhoso e mais lucrativo. No momento da falência, a Enron tinha 1600 empresas fictícias na sua contabilidade. A empresa de auditoria Arthur Andersen não percebeu. As empresas de avaliação de risco não perceberam. A primeira tinha a Enron como cliente de consultoria. As segundas são pagas pelas empresas que avaliam.

Partimos deste exemplo da Enron porque é simples, representa um mecanismo de fraude honesto e transparente. Não viu quem não quis. E também para marcar o que é uma cultura da área financeira, onde vale rigorosamente tudo, conquanto não sejamos pegos. Não é o reino dos inteligentes (tanto assim que quebram), mas dos espertos. E os que buscam produzir bens e serviços realmente úteis são levados de roldão, em parte culpados porque toleraram idiotas disfarçados em magos de finanças e marketing. Qualquer semelhança com empresas nacionais que se lançaram em aventuras especulativas é mera coincidência.

O estopim da crise financeira de 2008 foi o mercado imobiliário norte-americano. Abriu-se crédito para compra de imóveis por parte de pessoas qualificadas pelos profissionais do mercado de Ninjas (No Income, No Jobs, no Savings). Empurra-se uma casa de 300 mil dólares para uma pessoa, digamos assim, pouco capitalizada. Não tem problema, diz o corretor: as casas estão se valorizando, em um ano a sua casa valerá 380 mil, o que representa um ganho seu de 80 mil, que o senhor poderá usar para saldar uma parte dos atrasados e refinanciar o resto. O corretor repassa este contrato – simpaticamente qualificado de “sub-prime”, pois não é totalmente de primeira linha, é apenas sub-primeira linha – para um banco, e os dois racham a perspectiva suculenta dos 80 mil dólares que serão ganhos e pagos sob forma de reembolso e juros. O banco, ao ver o volume de “sup-prime” na sua carteira, decide repassar uma parte do que internamente qualifica de “junk” (aproximadamente lixo), para quem irá “securitizar” a operação, ou seja, assegurar certas garantias em caso de inadimplência total, em troca evidentemente de uma taxa. Mais um pequeno ganho sobre os futuros 80 mil, que evidentemente ainda são hipotéticos. Hipotéticos mas prováveis, pois a massa de crédito jogada no mercado imobiliário dinamiza as compras, e a tendência é os preços subirem.

As empresas financeiras que juntam desta forma uma grande massa de “junk” assinados pelos chamados “ninjas”, começam a ficar preocupadas, e empurram os papéis mais adiante. No caso, o ideal é um poupador sueco, por exemplo, a quem uma agência local oferece um “ótimo negócio” para a sua aposentadoria, pois é um “sup-prime”, ou seja, um tanto arriscado, mas que paga bons juros. Para tornar o negócio mais apetitoso, o lixo foi ele mesmo dividido em AAA, BBB e assim por diante, permitindo ao poupador, ou a algum fundo de aposentadoria menos cauteloso, adquirir lixo qualificado. O nome do lixo passa a ser designado como SIV, ou Structured Investment Vehicle, o que é bastante mais respeitável. Os papéis vão assim se espalhando e enquanto o valor dos imóveis nos EUA sobe, formando a chamada “bolha”, o sistema funciona, permitindo o seu alastramento, pois um vizinho conta a outro quanto a sua aposentadoria já valorizou.

Para entender a crise atual, não muito diferente no seu rumo geral do caso da Enron, basta fazer o caminho inverso. Frente a um excesso de pessoas sem recurso algum para pagar os compromissos assumidos, as agências bancárias nos EUA são levadas a executar a hipoteca, ou seja, apropriam-se das casas. Um banco não vê muita utilidade em acumular casas, a não ser para vendê-las e recuperar dinheiro. Com numerosas agências bancárias colocando casas à venda, os preços começam a baixar fortemente. Com isso, o Ninja que esperava ganhar os 80 mil para ir financiando a sua compra irresponsável, vê que a sua casa não apenas não valorizou, mas perdeu valor. O mercado de imóveis fica saturado, os preços caem mais ainda, pois cada agência ou particular procura vender rapidamente antes que os preços caiam mais ainda. A bolha estourou. O sueco que foi o último elo e que ficou com os papéis – agora já qualificados de “papéis tóxicos” – é informado pelo gerente da sua conta que lamentavelmente o seu fundo de aposentadoria tornou-se muito pequeno. “O que se pode fazer, o senhor sabe, o mercado é sempre um risco”. O sueco perde a aposentadoria, o Ninja volta para a rua, alguém tinha de perder. Este alguém, naturalmente, não seria o intermediário financeiro. Os fundos de pensão são o alvo predileto, como o foram no caso da Enron.

Mas onde a agência bancária encontrou tanto dinheiro para emprestar de forma irresponsável? Porque afinal tinha de entregar ao Ninja um cheque de 300 mil para efetuar a compra. O mecanismo, aqui também, é rigorosamente simples. Ao Ninja não se entrega dinheiro, mas um cheque. Este cheque vai para a mão de quem vendeu a casa, e será depositado no mesmo banco ou em outro banco. No primeiro caso, voltou para casa, e o banco dará conselho ao novo depositante sobre como aplicar o valor do cheque na própria agência. No segundo caso, como diversos bancos emitem cheques de forma razoavelmente equilibrada, o mecanismo de compensação à noite permite que nas trocas todos fiquem mais ou menos na mesma situação. O banco, portanto, precisa apenas de um pouco de dinheiro para cobrir desequilíbrios momentâneos. A relação entre o dinheiro que empresta – na prática o cheque que emite corresponde a uma emissão monetária – e o dinheiro que precisa ter em caixa para não ficar “descoberto” chama-se alavancagem.

A alavancagem, descoberta ou pelo menos generalizada já na renascença pelos banqueiros de Veneza, é uma maravilha. Permite ao banco emprestar dinheiro que não tem. Em acordos internacionais (acordos de cavalheiros, ninguém terá a má educação de verificar) no quadro do BIS (Bank for International Settlements) de Basiléia, na Suíça, recomenda-se por exemplo que os bancos não emprestem mais de nove vezes o que têm em caixa, e que mantenham um mínimo de coerência entre os prazos de empréstimos e os prazos de restituições, para não ficarem “descobertos” no curto prazo, mesmo que tenham dinheiro a receber a longo prazo. Para se ter uma idéia da importância das recomendações de Basiléia, basta dizer que os bancos americanos que quebraram tinham uma alavancagem da ordem de 1 para 40.

A vantagem de se emprestar dinheiro que não se tem é muito grande. Por exemplo, a pessoa que aplica o seu dinheiro numa agência verá o seu dinheiro render cerca de 10% ao ano. O banco tem de creditar estes 10% na conta do aplicador. Se emprestar este dinheiro para alguém a 20%, por exemplo, terá de descontar dos seus ganhos os 10% da aplicação. Mas quando empresta dinheiro que não tem, não precisa pagar nada, é lucro líquido. A alavancagem torna-se portanto muito atraente. E a tentação de exagerar na diferença entre o que tem no caixa e o que empresta torna-se muito grande. Sobretudo quando vê que outros bancos tampouco são cautelosos, e estão ganhando cada vez mais dinheiro. É uma corrida para ver quem agarra o cliente primeiro, pouco importa o risco. E os ganhos são tão estupendos...

A ficção da regulação

A “bolha” imobiliária vinha sendo comentada há pelo menos três anos. Greenspan previa um “soft landing”, ou seja, um esvaziamento suave da bolha, e não o “crash landing” que finalmente aconteceu. É interessante comparar a frase ufanista do FMI em 2002, que colocamos em epígrafe no início deste artigo, com a avaliação bastante mais cautelosa e até alarmante que aparece já em 2005: “Ainda que seja difícil ser categórico sobre qualquer coisa tão complexa como o sistema financeiro moderno, é possível que estes desenvolvimentos estejam criando mais movimento procíclicos que no passado. Podem igualmente estar criando uma probabilidade maior (mesmo que ainda pequena) de um colapso catastrófico (catastrophic meltdown). ”

Em dezembro de 2007, o FMI lança um grito: “Global governance: who’s in charge?” diz a capa da publicação, claramente sugerindo que ninguém está “in charge”, ninguém está regulando nada. “Lax, if not fraudulent, underwriting practices in subprime mortgage lending largely explain the rise in the rate of seriously delinquent loans from 6 percent to 9 percent between the second quarter of 2006 and the second quarter of 2007”. Na época já estimava que o lixo tóxico (troubled loans como era ainda chamado) estava corrompendo (disrupting) o mercado financeiro americano de 57 trilhões de dólares. A culpa recai, segundo o Fundo, sobre a globalização do sistema, abandonando as “local depository institutions [which] make loans” em proveito dos “major Wall street banks and securities firms, which employ the latest financial engineering to repackage mortgages into securities through credit derivatives and collateralized debt obligations”. O uso de paraísos fiscais está igualmente bem mapeado: “Securitization involves the pooling of mortgages into a special-purpose vehicle, which is simply a corporation registered in what is usually an off-shore tax-haven country”. Este e outros canais eram utilizados, segundo o Fundo, “to keep the subprime assets off their books and to avoid related capital requirements”. A expressão “keep off their books” nos é familiarmente conhecida como “caixa dois”. Atribuir a crise ao “pânico” e outras manifestações irracionais não tem muito sentido. O pânico existe, pois as pessoas não gostam de perder dinheiro. Mas tem a sua origem no comportamento fraudulento quando não criminoso das principais instituições financeiras. E sobretudo na ausência de qualquer vontade ou capacidade reguladora do FED e do governo norte-americano.

Quando os pequenos bancos locais se transformam em gigantes planetários, a imprensa apresenta a evolução como positiva, dizendo que os bancos ficam ‘mais sólidos”. A realidade é que ficam mais poderosos, logo menos controlados. No conjunto, o que aconteceu com a globalização financeira é que os papéis circulam no planeta todo, enquanto os instrumentos de regulação, os bancos centrais nacionais, estão fragmentados em cerca de 190 nações. Na prática, ninguém está encarregado de regular coisa alguma. E se algum país decide controlar os capitais, estes fugirão para lugares mais hospitaleiros (market-friendly), em processo muito parecido com os mecanismos de guerra fiscal entre municípios. Nas análises das Nações Unidas, isto é chamado de race to the bottom, corrida para o fundo, de quem reduz mais as suas próprias capacidades de controle.

Lembremos aqui que os gigantes globalizados da finança, os chamados Institutional Investors, constituem um grupo pequeno e seleto. Segundo o New Scientist, 66 grupos apenas gerem 75% das movimentações especulativas planetárias que eram da ordem de 2,1 trilhões de dólares por dia na véspera do agravamento da crise em 2008. É fácil imaginar o poder político que corresponde a esta capacidade de irrigar com dinheiro ou desequilibrar com fugas qualquer economia. Stigliz lembra bem que se trata de um clube de pessoas que circulam alternadamente entre Wall Street, o Departamento do Tesouro norte-americano, o FMI e o Banco Mundial. Paulson, o Secretário do Tesouro dos Estados Unidos, na gestão Bush, pertencia à Goldman & Sachs. O mecanismo é familiarmente chamado de “porta giratória”.

Haveria ainda de se considerar o papel regulador das agências avaliadoras de risco. O muito conservador The Economist chega a se indignar com o peso que adquiriu este oligopólio de tres empresas – Moody’s, Standard & Poor (S&P) e Fitch – que “fazem face a críticas pesadas nos últimos anos, por terem errado relativamente a crises como as da Enron, da WorldCom e da Parmalat. Estes erros, a importância crescente das agências, a falta de competição entre elas e a ausência de escrutínio externo estão começando a deixar algumas pessoas nervosas”. O The Economist argumenta também que as agências de avaliação são pagas pelos que emitem títulos, e não por investidores que utilizarão as avaliações de risco, com evidentes conflitos de interesse. O resultado é que “a mais poderosa força nos mercados de capital está desprovida de qualquer regulação significativa”.

A pá de cal na capacidade de regulação veio no final dos anos 1990 quando se liquidou a separação entre os bancos comerciais tradicionais, que tipicamente recebiam depósitos de correntistas e faziam empréstimos locais, e os investidores institucionais. Todo mundo passou a fazer o que quisesse, os intermediários financeiros passaram a ser “supermercados” de produtos financeiros e inclusive grandes empresas industriais e comerciais viraram especuladores.

Nesta discrepância entre finanças globais e regulação nacional, jogam um papel complementar importante os paraísos fiscais, cerca de 70 “nações”, ilhas da fantasia onde frequentemente existem mais empresas registradas do que habitantes, e onde não se pagam impostos nem exigem relatórios de atividades. Estes paraísos exercem hoje o papel que no século 18 desempenhavam algumas ilhas do Caribe que constituíam abrigos permanentes de piratas, onde os produtos da ilegalidade podiam ser estocados, trocados e comercializados. Mudou apenas o tipo de produto, encobrindo não só caixa dois, como evasão fiscal, tráfego de armas e lavagem de dinheiro. Não haverá um mínimo de ordem financeira mundial enquanto subsistirem estes off-shores de ilegalidade.

Circo, cassino, ciranda financeira, estes são os termos com os quais já há tempos especialistas têm designado o carnaval econômico que oportunistas dos mais variados tipos desenvolvem com dinheiro que não é deles – se trata de poupanças da população ou de emissão de dinheiro com autorização pública – e que acaba quebrando não os próprios intermediários, mas pessoas, empresas ou países que produzem, poupam e investem.

O papel dos Estados Unidos

O epicentro da atual crise está nos Estados Unidos, e o eixo desencadeador foi o mercado imobiliário. Mas a diferença relativamente às crises dos hedge funds ou do Long Term Capital Management (LTCM) de poucos anos atrás, é a nova fragilidade dos Estados Unidos. A tradição ideológica exige que se considere os EUA à beira do colapso ou como poderoso bastião do capitalismo, segundo as posições. A realidade é que se trata sim de um poderoso bastião, mas impressionantemente fragilizado.

Os Estados Unidos têm uma dívida pública de 10,5 trilhões de dólares. Como ninguém consegue imaginar o que pode representar tal soma, vale a pena lembrar que o PIB mundial é da ordem de 55 trilhões de dólares. Ou seja, a dívida pública norte-americana representa cerca de um quinto do PIB mundial. É um país que vive acima de suas posses. O American Way of Life é amplamente artificial. Sem falar do conteúdo das atividades: os custos advocatícios empresariais são da ordem de 370 bilhões de dólares por ano, e pode-se duvidar se este aumento do PIB gera qualidade no Way of Life.

O endividamento como nação se reflete na situação das famílias. O americano adulto médio tem oito cartões de crédito, e gasta um terço da sua renda com o pagamento de dívidas. Apresentado no momento da concessão, o crédito aparece como um instrumento de dinamização da conjuntura, pois aumenta a capacidade de compra da família. No entanto, cada dívida significa não só reembolso, como pagamento de juros e, na realidade, o que se consegue com endividamento é uma antecipação de consumo, e não o seu aumento. Quando chega a hora de pagar, o efeito se inverte. Até onde irão as famílias norte-americanas no faz-de-conta de prosperidade?

Os dois endividamentos, público e privado, dependem no caso americano de um desequilíbrio entre importações e exportações, da ordem de 1 trilhão de dólares anualmente.8 Este déficit sistemático levou a um acúmulo de reservas em dólares em particular pela China, que detém curiosamente hoje uma capacidade impressionante de desestabilização do sistema monetário norte-americano. Imagina, comenta informalmente Ignacy Sachs, o Partido Comunista da China salvando a economia americana.

Neste final de 2008, as matrizes norte americanas de multinacionais estão comprando dólares nos mercados do mundo para se recapitalizar, e inúmeras empresas com dívidas denominadas em dólar buscam igualmente a moeda, além de especuladores tentando “realizar” papéis podres transformando-os em moeda real, gerando uma valorização. O médio prazo deste processo é simplesmente um ponto de interrogação, em particular considerando a gigantesca massa de dólares que os EUA emitiram quando estes eram – e ainda são em parte – ao mesmo tempo moeda nacional e moeda-reserva mundial.

O efeito desequilibrador que os Estados Unidos geram no planeta é poderoso, e isto torna as responsabilidades do novo governo eleito muito amplas. Os desequilíbrios monetários e financeiros foram-se acumulando durante as décadas da farra neoliberal, e hoje estão gravadas nas estruturas produtivas. Mais importante ainda, a dinâmica recente de concentração de renda nos Estados Unidos, inclusive com a drástica redução de impostos pagos pelos ricos, geraram uma cultura do lucro fácil e uma estrutura de poder que de tudo fará para manter o sistema. Os ajustes terão de ser profundos.

Quem paga a conta?

A conta da irresponsabilidade norte-americana, devidamente imitada em outros países que até ontem nos davam lições, ainda está por ser apresentada. A curtíssimo prazo, e buscando conter o pânico entre eleitores, os governos dos países mais afetados procuraram tranquilizar os milhões de pequenos depositantes. Neste sentido, vários países passaram a assegurar que no caso de quebra de um banco, por exemplo, o governo ressarciria as perdas dos correntistas até 100 mil dólares, ou até sem limite, segundo os países. O processo é interessante, pois o correntista seria ressarcido do seu próprio dinheiro com dinheiro que pagou para o governo sob forma de impostos. A generosidade governamental escapa à compreensão de muitos, que acham que talvez devessem ser debitados os especuladores que afinal especularam precisamente com o dinheiro dos poupadores.

Mas a grande massa de movimentação financeira foi evidentemente no socorro às instituições financeiras que estão quebrando. Neste início de 2009, a conta dos recursos mobilizados está em cerca de 4 trilhões de dólares. Como o ex-presidente Bush explicou candidamente, isto ia contra as suas convicções, mas como uma quebradeira geral iria prejudicar ainda mais a população, e sendo o bem-estar desta a sua preocupação maior, tinha de mobilizar o dinheiro necessário. Dinheiro público, naturalmente, pois se tratava justamente de não prejudicar os bancos ou seguradoras. Aqui também, para o público, ficou um sentimento profundamente ambíguo: alívio porque a quebradeira seria evitada, ou retardada, mas também a amarga constatação de que se estava salvando especuladores com o próprio dinheiro do público. Na primeira reviravolta do “mercado” após o anúncio dos 700 bilhões do governo americano, quando o mercado se recuperou momentâneamente, houve declarações – lamentavelmente públicas – de especuladores: “The happy days are back”. Já não dizem o mesmo, pelo menos por enquanto. Ponto essencial, é preciso lembrar que os trilhões desembolsados pelo governo não estarão disponíveis para políticas públicas em saúde, educação e assim por diante. Alguém tem de pagar.

Um drama que ainda se desenrola, e de dimensões imprevisíveis, é o dos que pouparam a vida inteira para formar um fundo de pensão, e dos próprios grandes fundos que tinham os seus ativos aplicados em ações que perderam valor. É preciso lembrar que os administradores das grandes instituições de especulação trabalham essencialmente com dinheiro de terceiros, e que têm os seus salários – em geral na faixa de dezenas de milhões ao ano – garantidos, foram os primeiros a saber como realocar o que tinham em opções empresariais. Mas os detentores de ações perderam massas avassaladoras de recursos, mais de 30 trilhões neste início de 2009. Quando uma pessoa tem mil dólares em dinheiro, enquanto não houver um surto inflacionário, tem o seu poder de compra garantido. Mas quando os seus dólares foram transformados em papéis que perderam todo valor, estão arruinados. Muita gente procurou dólares para se livrar de ações de empresas perfeitamente produtivas, e que fazem coisas úteis, buscando a segurança do dinheiro vivo, agravando o processo.

Gera-se assim um amplo efeito multiplicador, em que a irresponsabilidade da especulação financeira atinge áreas de atividades produtivas. Note-se aqui que “especulação” é o termo tecnicamente correto. O inglês não tem, como temos em português, a diferença entre investimento e aplicação financeira. Tecnicamente, o investimento é quando alguém constrói uma fábrica, por exemplo, e com o lucro da produção financiará a restituição do empréstimo e os juros correspondentes. À movimentação financeira correspondeu uma atividade produtiva. No caso da aplicação financeira apenas se transfere ativos financeiros de uma área para outra, não se gera produto ou serviço algum. O Economist, que sempre considerou este último tipo de aplicação como “investment”, e durante décadas declarou que a especulação ajudava na mobilidade dos capitais e, portanto, no seu uso mais produtivo, hoje enfrenta grandes dificuldades para sair da saia justa: não querendo acusar os amigos de sempre de especuladores, passou a chamá-los de “speculative investors”. Os doutores sofistas de tempos passados não inventariam melhor.

Temos assim um processo desequilibrado, em que por um lado os impressionantes avanços tecnológicos permitiram fortes aumentos de produtividade sistêmica no planeta, mas por outro lado a apropriação dos excedentes gerados se dá na mão de intermediários, não de produtores, e muito menos dos trabalhadores. Este desvio das capacidades financeiras, do investimento produtivo para as esferas da especulação, está no centro da perversão sistêmica que enfrentamos.

Especulação e concentração de renda

Num plano mais amplo, portanto, o próprio sistema é desequilibrado em termos de alocação e de apropriação de recursos, mesmo quando não há crise. Marjorie Kelly produziu nesta área um estudo particularmente interessante, intitulado “O direito divino do capital”. Analisando o mercado de ações dos Estados Unidos, Kelly constata que a imagem das empresas se capitalizarem por meio da venda de ações é uma bobagem, pois o processo é marginal: “Dólares investidos chegam às corporações apenas quando novas ações são vendidas. Em 1999 o valor de ações novas vendidas no mercado foi de 106 bilhões de dólares, enquanto o valor das ações negociado atingiu um gigantesco 20,4 trilhões. Assim que de todo o volume de ações girando em Wall Street, menos de 1% chegou às empresas. Podemos concluir que o mercado é 1% produtivo e 99% especulativo”. Mas naturalmente, as pessoas ganham com as ações e, portanto, há uma saída de recursos: “Em outras palavras, quando se olha para as duas décadas de 1981 a 2000, não se encontra uma entrada líquida de dinheiro de acionistas, e sim saídas. A saída líquida (net outflow) desde 1981 para novas emissões de ações foi negativa em 540 bilhões”...”A saída líquida tem sido um fenômeno muito real – e não algum truque estatístico. Em vez de capitalizar as empresas, o mercado de ações as tem descapitalizado.

Durante décadas os acionistas têm se constituído em imensos drenos das corporações. São o mais morto dos pesos mortos. É inclusive inexato se referir aos acionistas como investidores, pois na realidade são extratores. Quando compramos ações não estamos contribuindo com capital, estamos comprando o direito de extrair riqueza”.

Esta forma de drenar a riqueza produzida pelas empresas está baseada num pacto de solidariedade nas próprias corporações, em que os acionistas são bem remunerados pelos seus aportes iniciais, e os administradores levam salários nababescos (na faixa de dezenas e frequentemente centenas de milhões de dólares anuais mais opções). Encontramos aqui a boa e velha mais valia, onde a produtividade do trabalho aumenta de forma acelerada graças às novas tecnologias, mas a participação da remuneração do trabalho declina. O FMI apresenta uma tabela bem clara referente aos países mais desenvolvidos (ver tabela abaixo). Constatamos que a parte da renda destinada à remuneração do trabalho cai sistematicamente entre 1980 e 2005 nos países avançados. É o efeito prático mais direto do neoliberalismo. É interessante lembrar que em 1980 se inicia, com Reagan e Margareth Thatcher, a onda neoliberal. E é bom recorrer a estatísticas do Fundo, pouco suspeito no caso.

IMF, Finance&Development, June 2007, p. 21

A compreensão deste “pano de fundo” é importante, pois não se trata apenas de um sistema bom que entrou em crise por movimentos conjunturais: a financeirização dos processos econômicos vem há décadas se alimentando da apropriação dos ganhos da produtividade que a revolução tecnológica em curso permite, de forma radicalmente desequilibrada. Não é o caso de desenvolver o tema aqui, mas é importante lembrar que a concentração de renda no planeta está atingindo limiares absolutamente obscenos.

Fonte: Human Development Report 1998, p. 37

A imagem da taça de champagne é extremamente expressiva, pois mostra quem toma que parte do conteúdo, e em geral as pessoas não têm consciência da profundidade do drama. Os 20% mais ricos se apropriam de 82,7% da renda. Como ordem de grandeza, os dois terços mais pobres têm acesso a apenas 6%. Em 1960, os 20% mais ricos se apropriavam de 70 vezes a renda dos 20% mais pobres, em 1989 são 140 vezes. A concentração de renda é absolutamente escandalosa, e nos obriga de ver de frente tanto o problema ético, da injustiça e dos dramas de bilhões de pessoas, como o problema econômico, pois estamos excluindo bilhões de pessoas que poderiam estar não só vivendo melhor, como contribuindo de forma mais ampla com a sua capacidade produtiva. Esta concentração não se deve apenas à especulação financeira, mas a contribuição é significativa e, sobretudo, é absurdo desviar o capital de prioridades planetárias óbvias. O cassino tornou-se um entrave central no processo de desenvolvimento em geral.

Os lucros financeiros no Brasil

Finalmente, e antes de entrar nas propostas, um comentário sobre a situação particular da intermediação financeira no Brasil. Basicamente, cinco grupos dominam o mercado. A ANEFAC, Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contábeis, apresenta mensalmente a taxa média de juros efetivamente praticada junto ao tomador final, pessoa física ou pessoa jurídica.

Para pessoa jurídica, os juros anuais se mantêm em 68% durante 3 anos, sendo que os juros correspondentes na Europa seriam da ordem de 3% ao ano. É importante lembrar que neste período a taxa básica de juros Selic caiu de 19,75% para 13,75%, ou seja, 6 pontos percentuais (queda de 30,4%), sem que houvesse redução da taxa média para pessoa jurídica ou para pessoa física no mercado financeiro.

A situação aqui é completamente diferente dos bancos dos países desenvolvidos, que trabalham com juros baixos e alavancagem altíssima. Essencial para nós, é que sustentar no Brasil juros que são da ordem de mil por centos relativamente aos juros praticados internacionalmente, só pode ser realizado mediante uma cartelização de fato. Para dar um exemplo, o Banco Real (Santander Brasil) cobra 146% no cheque especial no Brasil, enquanto o Santander na Espanha cobra 0% (zero por cento) por seis meses até cinco mil euros. Os ganhos dos grupos estrangeiros no Brasil sustentam assim as matrizes. Lembremos ainda que a Anefac apresenta apenas os juros, sem mencionar as tarifas cobradas. Os resultados são os spreads fantásticos e lucros impressionantes que o setor apresenta, sobre um volume de crédito no conjunto bastante limitado (39% do PIB) para uma economia como o Brasil. A intermediação financeira tornou-se assim um fator central do chamado “custo Brasil”, e um vetor central da concentração de renda. Os lucros são tão impressionantes, que ao abrigo deste cartel mesmo grupos de comércio, em vez de se concentrar em prestar bons serviços comerciais, hoje se concentram na intermediação financeira.

Em termos de remuneração do trabalho, o processo no caso brasileiro é bastante mais dramático, pois a queda da participação da remuneração do trabalho na renda nacional, durante o período, foi da ordem de 45% para 35%, o que representa ao mesmo tempo uma queda mais acelerada do que os países desenvolvidos vistos anteriormente e um nível absurdamente baixo. Em período mais recente, apesar dos fortes avanços sociais do governo Lula, menos da metade dos ganhos de produtividade do trabalho foi repassada ao trabalhador.

Os números apontam para o bom momento econômico e social do país. Entretanto, é preciso estar atento para o fato de que o mundo do trabalho ainda não é capaz de repassar ao trabalhador parte significativa dos ganhos obtidos nos últimos anos. A Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física do IBGE indica, por exemplo, que entre 2001 e 2008, houve aumento de produção física da indústria brasileira na ordem de 28,1%, com ganhos de produtividade do trabalhador de 22,6%. A folha de pagamento por trabalhador, em contrapartida, cresceu, em termos reais, 10,5% no mesmo período de tempo. Por conta disso, o Custo Unitário do Trabalho (CUT) – entendido como a razão entre o rendimento real médio por trabalhador ocupado e a produtividade – apresentou queda de 10,2% no mesmo período de tempo. Noutras palavras, a remuneração dos trabalhadores não tem acompanhado plenamente os ganhos de produtividade da indústria brasileira. Se não são os salários a incorporar completamente os ganhos de produtividade, não podem ser percebidos sinais de pressão sobre os custos de produção, o que poderia sugerir alguma pressão inflacionária. Sem o repasse pleno da produtividade aos trabalhadores, estimula a expansão do estrato superior na distribuição de renda no Brasil.

O Brasil tem evidentemente um grande trunfo na mão, que é a possibilidade de usar os bancos oficiais para reintroduzir concorrência no mercado cartelizado, permitindo ao mesmo tempo dinamizar a economia ao estimular consumo e investimento. Este mecanismo, ao que tudo indica, está sendo progressivamente implantado. O sistema de intermediação financeira dos grandes grupos terá de evoluir para mecanismos de concorrência, inclusive porque a cartelização é ilegal. No curto prazo, no entanto, parece claro que o funcionamento protegido da concorrência de um grupo de gigantes com lucros imensos gera, paradoxalmente, uma situação mais estável do que a da sobre-exposição dos grupos financeiros dos países desenvolvidos. O problema aqui é de que em vez de termos intermediários financeiros que facilitam as iniciativas econômicas, temos atravessadores que as encarecem. A intermediação financeira tornou-se aqui num dos principais instrumentos de concentração de renda e de desequilíbrios sociais.

No geral tanto nos países desenvolvidos, como no Brasil, cada vez mais os lucros corporativos estão alimentando atravessadores financeiros, gerando uma ampla classe de rentistas. A questão, vista do ponto de vista de “quem paga”, tende a deslocar-se, na visão das pessoas, para pensar melhor em “a quem pagamos”. Trata-se de poupanças da população. Este ponto é essencial, pois tratando-se de um cassino gerado com dinheiro da população, proteger os especuladores pode legitimamente ser apresentado como uma proteção à própria população, pois é o dinheiro dela que está em risco. Isto gera, evidentemente, uma posição de chantagem, e uma correspondente posição de poder. E permite deixar de lado o que deve ser a questão central da canalização das poupanças: não se os intermediários estão ganhando ou perdendo dinheiro, mas a que agentes econômicos, a que atividades, a que tipo de desenvolvimento e com que custos ambientais devem servir estas poupanças. Bastará assegurar que não quebre um sistema cujo produto final não está servindo?

Para o Brasil, paradoxalmente, a crise financeira pode representar uma oportunidade. Somos o país da desigualdade. A metade da população ainda precisa ter acesso ao consumo básico diversificado, incluindo nisto não só o alimento e outros bens de primeira necessidade, mas também o consumo de bens sociais como saúde e educação, de infraestruturas sociais como redes de saneamento e redes de banda larga de comunicação e assim por diante. Em outros termos, uma expansão dos programas, em grande parte já desenvolvidos pelo governo, tem a virtude de ao mesmo tempo começar a resgatar a nossa imensa dívida social, e de dinamizar, através da maior demanda agregada (consumo popular e investimento público), as próprias atividades empresariais. Reorientar as nossas capacidades de financiamento cada vez mais neste sentido – ainda que reduzindo a dimensão do rentismo financeiro e das atividades especulativas – faz todo sentido.

As medidas propostas: salvar o sistema ou transformá-lo? Naturalmente, dado o peso político do sistema especulativo mundial engendrado nas últimas décadas, predomina na mídia e nas tomadas públicas de posição a busca de um simples conserto, um “arreglo” como dizem os hispânicos, que permita aos especuladores voltar aos bons dias. Inclusive, quase não se encontram explicações sobre os mecanismos: a mídia se concentra no que se tem chamado de “economia de elevador”, jogando diariamente cifras sobre porcentagens de ganhos e perdas, e entrevistando magos que decifram o futuro dos altos e baixos, sobre os quais em geral não têm a mínima ideia. A palavra chave, que protege o consultor, é sempre que “o mercado está nervoso”, o que implica cientificamente que tudo é possível.

Mas a realidade é que algumas coisas mudaram de forma irremediável, constituindo deslocamentos sistêmicos. Primeiro, há o fato que a credibilidade dos Estados Unidos e o seu papel de liderança planetária, já fortemente abalados pelos golpes desferidos contra as Nações Unidas, as guerras irresponsáveis, o uso escancarado da tortura, e o desprezo geral pela concertação internacional – afundaram de maneira impressionante. Houve um deslocamento geopolítico sistêmico em direção ao mundo multipolar.

Segundo, se já depois do calote de Nixon em 1971, com a desvinculação do dólar da sua cobertura em ouro, já se falava na morte do sistema Bretton Woods, hoje a visão torna-se muito mais ampla, pois houve uma falência generalizada dos mecanismos de regulação que se acreditava serem funcionais. Em particular, a regulação financeira havia sido montada como instrumento destinado a impedir o comportamento irresponsável por parte dos países em desenvolvimento, e a crise surge nos países que se propunham como modelo. Não há instrumentos de regulação multilateral para esta situação. A imagem de um Bretton Woods II, no sentido de uma reformulação sistêmica dos processos regulatórios e das regras do jogo, está no horizonte.

Um terceiro ponto importante, é que diferentemente da crise de 1929, em que cada país se recolheu em posturas defensivas para lamber as suas feridas em mercados protegidos, desta vez há uma atitude concertada e multilateral para se enfrentar a crise. A rapidez com a qual se levantaram recursos para salvar instituições cuja credibilidade é baixíssima, mas cujo poder de estrago é imenso, aponta para uma nova cultura de construção de políticas multilaterais, mas também para o imenso poder político dos especuladores, que tudo farão para conter mudanças estruturais.

Quarto, e particularmente importante para nós, com a reunião do G20 em 15 de novembro de 2008, há pela primeira vez um reconhecimento planetário de que o mundo dito “em desenvolvimento” existe não apenas como fonte de matérias primas e de problemas, mas como fator essencial da construção de soluções.

Finalmente, o abalo planetário da confiança nas instituições financeiras não tem volta, pois são milhões os que foram prejudicados nas suas poupanças ou aposentadorias, e circulam em todos os meios de comunicação as contabilidades duplas, o uso dos paraísos fiscais para fraudar tanto o público como as obrigações fiscais, a falsificação dos dados sobre a situação real das instituições, o compadrio que preside às atividades das agências de avaliação de risco. No caso da Enron, depois da WorldCom e da Parmalat, houve uma ofensiva de propaganda em defesa do sistema, sugerindo a imagem das maçãs podres (bad apples) num sistema saudável. Hoje, esta imagem mudou, e a reconstrução da confiança só se dará no quadro de mudanças sistêmicas. São muitas bad apples. Esta mudança de contexto ainda não chegou a Basiléia.

Não é o caso aqui de entrar no detalhe da enxurrada de propostas que surgem, veremos apenas os rumos gerais. É interessante consultar as 47 propostas elencadas na sequência da reunião do G20 em novembro de 2008, a bateria de sugestões desenvolvidas por Barack Obama para reequilibrar a economia norte-americana (indo bastante além do mercado financeiro), a consulta organizada por Eichengreen a um conjunto de especialistas dias antes da reunião do G20, as propostas preliminares do Comitê de Supervisão Bancária de Basileia. Trata-se por enquanto de propostas, não mais do que isto.

Da mesma forma como Bretton Woods exigiu dois anos de preparação por equipes técnicas, não se fará uma reformulação real em pouco tempo. Trata-se, até agora, de uma ampla lista de idéias. E não devemos perder de vista que os responsáveis (e beneficiários) do sistema jogarão a carta do tempo, esperando que a crise amaine para que nada mude. Elencamos a seguir alguns elementos destas primeiras propostas, sabendo que ainda carecem do arcabouço técnico de sua sistematização e do poder político de sua implementação.

Agrupando as propostas segundo os seus eixos de impacto, as mais significativas vêm na área da governança, já que claramente ninguém estava governando coisa alguma.22 A principal questão envolve a existência ou não de um instrumento supranacional de regulação financeira global, na linha de uma World Financial Organization (WFO) análoga à Organização Mundial do Comércio (WTO na sigla inglesa). Dado o caráter internacional dos processos especulativos, a sua evolução para sistemas racionais de canalização de capitais em função de necessidades reais do desenvolvimento terá de alguma forma ser coordenada ao nível mundial. Na reunião do G20, qualquer opção neste sentido foi vetada pelos Estados Unidos, que colocaram nas resoluções a afirmação de que os problemas serão resolvidos antes de tudo pelos “reguladores nacionais”. Os Estados Unidos assim preservam a sua capacidade de agir mundialmente, mas de se regularem nacionalmente. Com esta visão, evidentemente, simplesmente não haverá regulação.

Sobra então a cosmética relativa às organizações multilaterais existentes. Isto envolve a capitalização do Fundo Monetário Internacional, cujos recursos, da ordem de 250 bilhões de dólares, são ridículos frente à dimensão dos rombos financeiros gerados pelos bancos. Propõe-se igualmente a redistribuição dos votos no Fundo, retirando o poder de veto dos EUA. O BIS deveria também passar a ser administrado de forma mais ampla e receber maiores poderes e assim por diante. Continuamos, no entanto, no quadro destas propostas, com o dilema central: a finança se tornou mundial, mas não há nada que se pareça com um banco central mundial. Fluxos mundiais versus regulação nacional; processos globais versus gestão fragmentada. Who’s in charge?

Neste plano tem sido ainda colocado um argumento central: com a regulação fragmentada atual, qualquer país que passe a exercer algum controle sobre o movimento de entrada e saída de capitais, visando assegurar o seu uso produtivo e evitar os movimentos pró-cíclicos, passa imediatamente a ser discriminado nos movimentos, tanto pelos investidores institucionais como pelas agências de risco. A regulação, nestas condições, ou é planetária ou ineficiente.

Os conteúdos da regulação reforçada proposta são relativamente óbvios, e não muito misteriosos: trata-se antes de tudo de limitar a alavancagem, que atingiu conforme vimos níveis absurdos. Trata-se também de assegurar a transparência dos processos, e de organizar o acesso às informações não apenas individualmente, mas em termos sistêmicos.24 Uma exigência igualmente óbvia é o controle da dupla contabilidade, que se generalizou, bem como o controle dos paraísos fiscais e das fraudes associadas ao “off-shore” financeiro. As agências de avaliação de risco ganhariam um quadro regulatório (“regulatory framework”) e não poderiam ser financiadas por quem avaliam.

Este tipo de recomendações constitui uma visão de que o sistema deve se manter, mas a sua governança deve melhorar. O problema básico, naturalmente, é o das próprias condições da governança. O elefante no meio da sala – o que não dá para não ver, e que é grande demais para mover – é o pequeno clube de gigantes mundiais que maneja todo este processo, que desencadeou o caos e que chamamos por alguma razão misteriosa de “forças de mercado”. A delicadeza com que se trata este grupo comove. Na declaração do G20 de 15 de novembro, merece apenas três linhas: “As instituições financeiras também (!) devem arcar com a sua parte da responsabilidade na confusão (turmoil), e deveriam fazer a sua parte para superá-la, inclusive reconhecendo as perdas, melhorando a informação (disclosure) e fortalecendo a sua governança e práticas de gestão de risco”.

Claessens é dos poucos que coloca com clareza a necessidade de “um novo regime para os grandes bancos internacionais”: “One internally consistent approach, perhaps the only one, is to establish a separate regime for large, internationally active financial institutions. This would mean an ‘International Bank Charter” with accompanying regulation and supervision, liquidity support, remedial actions as well as post-insolvency recapitalisation fund in case things go wrong. The idea is that a separate international college of supervisors, with professionals recruited internationally, would regulate, license and supervise these institutions" Em troca destas mudanças, os grupos poderiam “agir livremente”.

No conjunto, é óbvio que um sistema onde um país detém o poder de emitir uma moeda cujo uso é internacional, é estruturalmente desequilibrado. Qualquer proposta de se regular gigantes planetários sem haver um sistema supranacional efetivo é estruturalmente ineficaz. Na realidade, estamos aqui no reino do “wishful thinking”, de propostas destinadas a negociar a transição até sairmos magicamente do fundo do poço, para saudar a volta dos happy days e esperar a próxima crise. A grande incógnita neste início de 2009, é o próximo presidente dos Estados Unidos, que recebe um país profundamente desmoralizado e caótico nos planos político, militar, econômico e sobretudo ético. O caos gerado nesta presidência Bush, em que o poder de fato foi exercido não por um presidente, mas por corporações, políticos corruptos e fundamentalistas religiosos, abre espaço para mudanças profundas. Se as forças que estão se agregando em torno a Barack Obama terão dinamismo suficiente para gerar mudanças institucionais, é um ponto de interrogação, mas em todo caso é um potencial e uma oportunidade. Aliás a crise, ao cimentar a eleição de Obama, algo de positivo já trouxe.

A convergência das crises: um outro desenvolvimento, outras instituições

Tivemos portanto de imediato numerosas propostas de consertos do sistema, sem mexer na sua lógica. A intenção é claramente mostrar que no futuro será diferente, pois teremos governos severos e austeros que cobrarão resultados. Haverá postura e ética no sistema reformado. E os grupos responsáveis por tudo isto, que aliás aparecem tão pouco na mídia quando os dias são bons, passarão a se comportar de maneira socialmente responsável. As propostas surgem mesmo sem muita base institucional ou elaboração técnica, porque uma massa de poupadores no planeta está sendo atingida diretamente – da classe média para cima – pelo derretimento das suas poupanças e das suas esperanças de aposentadoria.28 E na medida em que o caos financeiro gerado pelos especuladores está atingindo os produtores efetivos de bens e serviços, é o povo em geral que passa a sofrer as consequências. Dentro do sistema, há uma clara consciência da volatilidade política da situação. Propostas, em consequência, surgem rapidamente. A sua implementação – a não ser os trilhões demandados pelos grandes grupos – obedecerá a outros ritmos.

O caos sistêmico gerado e a clara perda de governança econômica, frente ao desespero de uma imensa massa de pessoas prejudicadas, estão gerando um novo clima político. Estão se abrindo possibilidades de se colocar na mesa propostas mais amplas no sentido de um desenvolvimento que tenha pé e cabeça. Mais precisamente, gera-se um espaço para que surjam alternativas de desenvolvimento, e para que – não parece um objetivo exorbitante – o nosso próprio dinheiro sirva para fins úteis. Não se deve sonhar excessivamente – muito do espaço político gerado dependerá da profundidade da crise – e esta é uma incógnita. Mas é importante sim organizar alternativas sistêmicas, pois o que estamos sofrendo é uma crise estrutural de curto e médio prazos dentro de um quadro de crises mais amplas que se avizinham, particularmente nos planos social, climático, energético, alimentar, de água e outros.

As propostas que estão surgindo vêm de pessoas como Jeffrey Sachs, que propõe que o uso dos recursos financeiros seja formalmente vinculado à construção das Metas do Milênio. Stiglitz trabalha com uma visão de fazer os objetivos de qualidade de vida nortearem a alocação de recursos, e não apenas o chamado Produto Interno Bruto. Hazel Henderson resgata a importância da taxa Tobin, que cobraria um imposto sobre transações internacionais especulativas para financiar um desenvolvimento socialmente mais justo. Ignacy Sachs trabalha com a visão de uma convergência da crise financeira com a crise energética e a necessidade de repensarmos de forma sistêmica o nosso modelo de desenvolvimento. Não se trata aqui de um idealismo excessivo, e sim de uma apreciação fria dos nossos desafios.

O gráfico que apresentamos abaixo constitui um resumo de macro-tendências, num período histórico de 1750 até a atualidade. As escalas tiveram de ser compatibilizadas, e algumas das linhas representam processos para os quais temos cifras apenas mais recentes. Mas no conjunto, o gráfico permite juntar áreas tradicionalmente estudadas separadamente, comodemografia, clima, produção de carros, consumo de papel, apropriação da água e outros. A sinergia do processo torna-se óbvia, como se torna óbvia a dimensão dos desafios ambientais. O comentário do New Scientist é igualmente significativo:

The science tells us that if we are serious about saving the Earth, we must reshape our economy. This, of course, is economic heresy. Growth to most economists is as essential as the air we breathe: it is, they claim, the only force capable of lifting the poor out of poverty, feeding the world’s growing population, meeting the costs of rising public spending and stimulating technological development – not to mention funding increasingly expensive lifestyles. They see no limits to growth, ever. In recent weeks it has become clear just how terrified governments are of anything that threatens growth, as they pour billions of public money into a failing financial system. Amid the confusion, any challenge to the growth dogma needs to be looked at very carefully. This one is built on a long standing question: how do we square Earth’s finite resources with the fact that as the economy grows, the amount of natural resources needed to sustain that activity must grow too? It has taken all of human history for the economy to reach its current size. On current form, it will take just two decades to double. Fonte: New Scientist, 18 October 2008, p 40.

Estamos aqui entre pessoas que entenderam que se trata de um sistema que sem dúvida deixou de funcionar, e que está portanto em crise, mas que sobretudo é um sistema que quando funciona é inviável. As soluções têm de ser mais amplas. Esta visão mais ampla pode – e apenas pode – viabilizar mudanças mais profundas.

A crise financeira tem esta particularidade de ser pouco transparente em termos de dinâmicas e de soluções, para a população em geral. Não é muito viável se colocar na rua grandes manifestações relativas à mudança dos mecanismos de regulação do BIS de Basileia. A grande defesa do sistema absurdo de especulação que enfrentamos, é que pouquíssimas pessoas entendem o que se passa. Mas se os mecanismos são obscuros, os impactos são visíveis, e estes sim podem mobilizar.

A perda de empregos por parte de gente que estava cumprindo bem as suas funções produtivas, porque uns irresponsáveis gostam de ganhar dinheiro com poupança dos outros, gera indignação. A perda da base de sobrevivência de cerca de 300 milhões de pessoas no planeta que viviam de pesca artesanal, porque grandes empresas de pesca oceânica estão acabando com a vida nos mares, está gerando outra faixa de irritações políticas. O caos climático está trazendo as primeiras amostras do seu potencial, e está gerando outros desesperos, além de tomadas mais amplas de consciência. A contaminação da água doce por excessos de quimização, insuficiências clamorosas de saneamento, e esgotamento de lençóis freáticos, está levando a um conjunto de crises setoriais que envolvem desde a redução da pesca até à tragédia de 1,8 milhão de crianças que morrem anualmente por não ter acesso à água limpa, e à ameaça de regiões rurais que dependiam de uma segunda safra com irrigação.

Não é o caso aqui de fazer um elenco das nossas tragédias. Mas o fato é que, com um pouco de recuo, já não são crises setoriais, e representam sim uma crise mais ampla de governança local, nacional, regional e planetária. Há uma convergência de problemas que se avolumam, cuja sinergia os torna mais ameaçadores, e cuja raiz comum encontra-se ao fim e ao cabo no fato que os nossos mecanismos atuais de governança não são suficientes. Com a globalização, financeirização e oligopolização de grandes eixos de atividades econômicas, o mercado perde de forma acelerada as suas funções reguladoras. E as alternativas, particularmente a capacidade de planejamento e de intervenção organizada, foram desativadas.

Ignacy Sachs resume bem o dilema: que desenvolvimento queremos? E para este desenvolvimento, que Estado e que mecanismos de regulação são necessários? Não há como minimizar a dimensão dos desafios. Com 6,7 bilhões de habitantes – e 70 milhões a mais a cada ano – que buscam um consumo cada vez mais desenfreado, e manejam tecnologias cada vez mais poderosas, o nosso planeta mostra toda a sua fragilidade. A questão básica que se coloca para a reformulação do sistema de intermediação financeira é que é criminoso o desperdício das nossas poupanças e do potencial mundial de financiamento no cassino global, quando temos desafios sociais e ambientais desta dimensão e urgência, e que necessitam vitalmente de recursos.

O desperdício de recursos financeiros nas dinâmicas atuais é avassalador. Segundo as Nações Unidas, “medidos em termos de paridade de poder de compra do ano 2000, o custo de se liquidar a pobreza extrema – o montante necessário para puxar 1 bilhão de pessoas para cima da linha de pobreza de $1 por dia – é de $300 bilhões”.30 A realidade é que a utilidade marginal do dinheiro, em termos de sua capacidade de gerar qualidade de vida, decresce rapidamente quanto mais se eleva a renda. Em outros termos, quanto mais os recursos são orientados para a baixa renda, maior é a utilidade. Em termos prosáicos, rendem mais. Assegurar a renda mínima planetária faz todo sentido, é uma forma simples, com as tecnologias atuais, de multiplicar o valor real dos recursos. Como, além do mais, os recursos que chegam à base da pirâmide são transformados em demanda efetiva, e não em especulação, estimulando portanto a produção e o emprego, é a própria produtividade sistêmica dos recursos que aumenta. A solução que permite enfrentar simultâneamente os dramas sociais, os desafios ambientais e a racionalidade no uso de recursos econômicos está na resposta organizada às necessidades mais prementes da base da pirâmide. Estamos vivendo a era do desperdício. É tempo de orientar os recursos para os seus usos mais produtivos.

As alternativas não serão construídas da noite para o dia. Algumas medidas são óbvias, e já estão sendo amplamente discutidas: controlar os paraísos fiscais, taxar os movimentos especulativos, organizar sistemas de controle e regulação sobre os intermediários financeiros, voltar a separar as atividades propriamente bancárias dos investidores institucionais, criar sistemas locais de financiamento e assim por diante. Mas numa visão mais abrangente, temos de estar conscientes de que estamos enfrentando a construção de uma nova institucionalidade. O planeta não sobrevive – e muito menos o bípede curiosamente chamado de homo sapiens – sem amplos processos colaborativos, visão de longo prazo, planejamento e intervenções sistêmicas. O papel do Estado precisa ser resgatado, já não como socorro de iniciativas corporativas irresponsáveis, mas como articulador de um desenvolvimento mais justo e mais sustentável, e com forte participação da sociedade civil organizada.

Um outro mundo não é apenas possível, é necessário. O desafio para o mundo progressista é aproveitar as janelas de oportunidade que a crise financeira nos abre, para sistematizar uma visão alternativa. Temos de mostrar que uma outra gestão é possível.

Viável? Lamentavelmente, esta não é a questão. As medidas terão de ser tomadas. O aquecimento global, por exemplo, está se dando, e a opção de se queremos ou não enfrentá-lo não está na mesa, e sim o como. A crise financeira representa apenas uma oportunidade – e não uma garantia – para organizarmos uma convergência de forças da sociedade interessadas num desenvolvimento que tenha um mínimo de viabilidade econômica, de equilíbrio social e de sustentabilidade.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Veja diz que fomos salvos pelo tio Sam, você acredita nisto?

Está imperdível a leitura da capa de Veja desta semana feita pelo jornalista Luiz Carlos Azenha e publicados no site Vi o mundo. É de lá também que reproduzo dois textos críticos sobre a crise econômica estadunidense traduzidos pelo Azenha.
Até onde pode chegar o parajornalismo de Veja?



O fim da Chimerica

ROUGH WEEK, BUT AMERICA'S ERA GOES ON

por Niall Ferguson*, no Washington Post, 21/09/2008

O derretimento de Wall Street é prenúncio do fim do século americano? Muitos comentaristas alertaram que a catástrofe financeira da semana passada foi um recuo não só econômico, mas político para os Estados Unidos. "Por que o resto do mundo levaria a sério o modelo americano de mercado livre depois desse debacle?", um jornalista britânico me perguntou na quinta-feira. Essa crise, ele argumentou, foi para a economia o que a guerra do Iraque foi para a política externa dos Estados Unidos: um golpe fatal para a credibilidade da alegada primazia global norte-americana.

Certamente, se a conversa de "momento unipolar" que se seguiu ao colapso soviético era exagero, as dificuldades de crédito representam um nêmesis bem americano. Dez anos atrás existia uma estranha competição nos Estados Unidos para saber quem era mais arrogante. Os neoconservadores argumentavam que o resto do mundo deveria correr e abraçar o caminho americano ou se preparar para um bombardeio que os levaria à "idade democrática". Mas igualmente arrogantes eram os economistas neoliberais, que argumentavam que o resto do mundo deveria se apressar e abraçar o assim-chamado consenso de Washington para expandir o comércio, atacar a inflação e encorajar investimento estrangeiro, ou se preparar para uma venda rápida. Um grupo atacava a falência política do mundo muçulmano; o outro atacava o "capitalismo corrompido" da Ásia, supostamente a causa-raiz da crise dos mercados asiáticos em 1997-98.

Os neocons levaram o troco no Iraque, onde as forças americanas não foram, como eles diziam, abraçadas como libertadoras. Os neolibs levaram o deles este mês, quando um Departamento do Tesouro republicano, dirigido por um ex-presidente da Goldman Sachs, de fato nacionalizou os grandes financiadores do mercado imobiliário e depois a maior companhia seguradora. Enquanto os candidatos presidenciais, em raro uníssono, atacam os jogadores de Wall Street e os fiscais deficientes, o palco parece montado para o fim do "fundamentalismo de mercado", na frase de George Soros.

Que os paradigmas da política estão mudando é claro. Mas o equilíbrio global de poder também está? Para responder a essa pergunta precisamos refletir mais profundamente sobre a real natureza dessa crise.

Estamos vivendo o fim de um fenômeno que Moritz Schularick, da Universidade Livre de Berlim, definiu como Chimerica. Na visão dele, a coisa mais importante a se entender sobre a economia do mundo nos últimos dez anos é a relação entre a China e a America. Se você pensar em uma economia chamada Chimerica, essa relação representa cerca de 13% do território global, 25% da população, um terço do PIB e cerca de metade do crescimento global dos últimos seis anos.

Por um tempo essa relação simbiótica parecia quase perfeita. Uma metade poupava e a outra gastava. Comparando a poupança nacional como proporção do PIB, a poupança dos Estados Unidos caiu de mais de 5% na metade dos anos 90 para virtualmente zero em 2005, enquanto a poupança dos chineses saltou de menos de 30% para cerca de 45% no mesmo período. Essa divergência em poupança permitiu uma explosão da dívida nos Estados Unidos, já que o "excesso" de poupança da Ásia tornou muito mais barato o crédito. Enquanto isso, o trabalho barato dos chineses ajudou a segurar a inflação.

Não é preciso dizer que não foram apenas os americanos que tomaram emprestado, nem apenas os chineses que emprestaram. Em todo o mundo de fala inglesa, assim como na Espanha, a dívida doméstica cresceu e as formas tradicionais de poupança foram abandonadas em favor do investido em mercados imobiliários. Enquanto isso, não apenas na China mas em outras economias da Ásia houve acúmulo de reservas, com isso financiando os déficits em conta corrente do Ocidente, assim como tornando as exportações baratas. Exportadores de energia do Oriente Médio e outras regiões também se viram com superávits e reciclaram os petrodólares para a Anglosfera e seus satélites. Mas a Chimerica era o verdadeiro motor da economia mundial.

Enquanto essa tremenda expansão dos empréstimos -- e dos emprestadores -- acontecia, alguns economistas tentavam entender o que estava se passando. Alguns argumentavam que se tratava de Bretton Woods 2, um sistema internacional de câmbio parecido ao que ligava a Europa Ocidental aos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial. Outros chamavam de "desequilíbrio estável", que poderia continuar por algum tempo. Mas depois uma onda de calotes nas hipotecas sub-prime revelaram o quanto a Chimerica era instável.

Na essência, a poupança do resto do mundo tinha ajudado a inflar a bolha do mercado imobiliário dos Estados Unidos. Dinheiro fácil era (o que sempre acontece nessas bolhas de bens) acompanhado de facilidades para emprestar e fraude pura e simples. A euforia deu lugar à preocupação e essa ao pânico. O problema começou no mercado do sub-prime, já que nele havia maior risco de default. Mas logo ficou claro que todo o mercado imobiliário dos Estados Unidos seria afetado. Nunca desde a Grande Depressão vimos o valor das casas cair a taxas anuais de mais de 10%.

Isso teve três conseqüências distintas. Primeiro, expôs os bancos mais fracos (particularmente os bancos de investimento, que não podem recorrer à poupança depositada) a declínio selvagens e auto-alimentados no preço das ações. Segundo, a falência de firmas financeiras causou crise no vasto e opaco mercado dos derivativos -- especialmente os credit-default swaps. Terceiro -- e mais importante --, a contração de crédito dos bancos certamente condena o resto da economia dos Estados Unidos à recessão. A Main Street está começando a sentir a dor causada pela falta de crédito em Wall Street.

Quais são as implicações geopolíticas disso? Uma possibilidade é de que a "grande reconvergência" entre o Leste e o Oeste está se acelerando. Se você voltar ao primeiro relatório que a Goldman Sachs produziu sobre os BRICs (Brasil, Rússia, India e China), a projeção era de que a China superaria o PIB dos Estados Unidos em 2040. Mas em relatórios mais recentes essa projeção foi antecipada para 2027. Talvez vá ocorrer mais cedo. Uma das conseqüências da dificuldade de crédito é que os Estados Unidos vão crescer mais devagar -- perto de 1 a 2% por ano, em vez dos 3 a 4% usuais. Por contraste, a economia semi-planejada da China pode crescer confortavelmente a 8% ou mais por ano, empurrada pelo investimento estatal em infra-estrutura e a crescente demanda dos consumidores. Como a exportação deixou de ser a chave para o crescimento da China, um espirro dos Estados Unidos não é necessariamente causador de uma gripe na Ásia.

Os dias em que o dólar era a moeda internacional podem ter chegado ao fim. As moedas de reserva não duram para sempre, como a libra britânica deixa claro. Houve uma vez em que a libra era a moeda número um do mundo, a unidade em que as transações financeiras eram feitas. Morreu um longa morte, arrastada, caindo de U$ 4.86 em 1930 até a paridade com o dólar no momento mais forte da moeda americana, no início dos anos 80. A principal razão foi a dívida gigantesca do Reino Unido, contraída para lutar as duas guerras mundiais. A segunda razão foi o crescimento menor: a economia britânica tinha a pior performance do mundo desenvolvido no pós-guerra até o início dos anos 80.

Se a conseqüência fiscal do aperto de crédito é um aumento do risco para o governo federal -- já substancialmente maior desde a nacionalização da Fannie Mae e Freddie Mac -- os Estados Unidos poderiam ficar numa posição parecida com a do Reino Unido. O dólar poderia seguir o caminho da libra. E os Estados Unidos poderiam perder a conveniência de emprestar dos estrangeiros com baixas taxas de juros em sua própria moeda.

Com a China divorciada dos Estados Unidos -- dependendo menos de exportações para cá, se preocupando menos com a relação do yuan com o dólar -- o fim da Chimerica parece certo. E com o fim da Chimerica, o equilíbrio global vai mudar. Sem tanto compromisso com a amizade sino-americana estabelecida em 1972, a China pode explorar outras esferas de influência global, da Organização de Cooperação de Shangai, que agrupa a China, Rússia e quatro nações da Ásia Central ao próprio império rico em commodities da China na África.

Mas os comentaristas deveriam hesitar antes de fazer a profecia do declínio e queda dos Estados Unidos. O país já passou por crises financeiras antes -- não apenas a Grande Depressão mas a Grande Estaglfação dos anos 70 -- e emergiu com sua posição geopolítica reforçada. As crises, ruins em casa, quase sempre têm piores efeitos nos rivais da América.

O mesmo pode estar acontecendo hoje. De acordo com o índice da Morgan Stanley Capital Internacional o mercado de ações dos Estados Unidos perdeu 18% este ano. O número equivalente para a China é de 48% e para a Rússia -- o mercado emergente mais afetado -- é de 55%. Esses números não são boa propaganda para os modelos econômicos mais regulamentados e guiados pelo estado favorecidos em Moscou e Beijing.

Além disso, uma vez que investidores continuam a considerar a dívida do governo dos Estados Unidos como refúgio em tempos de incerteza, a última fase da crise financeira viu o dólar subir, em vez de cair mais.

Naturalmente, isso pode ser o último suspiro do refúgio seguro, especialmente se as autoridades dos Estados Unidos não conseguirem evitar uma nova onda de falências de bancos nos próximos dias. De qualquer forma, a diferença é clara. A arrogância dos anos recentes foi seguida por uma terrível crise financeira. Mas é muito cedo para concluir que o século americano acabou. Como tudo o que é feito nos Estados Unidos, esse desastre pode se mostrar um produto de exportação muito bem sucedido.

*Niall Ferguson: é professor de História de Harvard.

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Como o mercado faz chantagem por dinheiro público

DINHEIRO POR LIXO

Paul Krugman*, no New York Times, 21/09/ 2008

Alguns céticos estão chamando o plano de resgate de U$ 700 bilhões de Henry Paulson para o sistema financeiro de "dinheiro por lixo". Outros estão chamando a legislação proposta de Autorização para Usar a Força Financeira, lembrando a Autorização para o Uso de Força Militar, a lei infame que deu ao governo Bush luz verde para invadir o Iraque.

Há justiça nas piadas. Todo mundo concorda que algo importante precisa ser feito. Mas o mr. Paulson está pedindo um poder extraordinário para si mesmo -- e para seu sucessor -- para usar dinheiro do contribuinte em um plano que, até onde posso ver, não faz sentido.

Alguns dizem que deveríamos simplesmente acreditar em mr. Paulson, já que ele é um cara inteligente que sabe o que está fazendo. Mas isso é apenas uma meia-verdade: ele é um cara inteligente mas o que, na experiência dos últimos dezoito meses -- um período no qual o sr. Paulson repetidamente declarou que a crise financeira estava "contida" e em seguida ofereceu uma série de consertos mal sucedidos -- justifica a crença de que ele sabe o que está fazendo? Ele está inventando dia-a-dia, como todos nós.

Então pensemos por nós mesmos. Eu tenho uma visão de quatro passos para esta crise financeira:

1. O estouro da bolha do mercado financeiro causou a disparada na inadimplência e na perda de imóveis, que por sua vez levou ao desabamento do preço de papéis ligados às hipotecas -- bens cujo valor estavam ligados ao pagamento dos financiamentos.

2. Essas perdas financeiras deixaram muitas instituições com pouco capital -- poucos bens em comparação com sua dívida. Esse problema é especialmente severo porque todo mundo se carregou de dívida durante os anos da bolha.

3. Já que as instituições financeiras têm pouco capital em relação à dívida, elas não são capazes ou não querem dar o crédito necessário à economia.

4. As instituições financeiras vem tentando pagar suas dívidas vendendo bens, inclusive os papéis ligados às hipotecas, mas isso faz com que os preços dos bens caiam ainda mais e deixam as instituições em pior situação financeira. Esse círculo vicioso é às vezes chamado de "paradoxo do desalavancamento".

O plano do Paulson prevê que o governo federal compre até U$ 700 bilhões em bens, especialmente os papéis ligados às hipotecas. Como é que isso resolve a crise?

Bem, pode -- pode -- quebrar o círculo vicioso do desalavancamento, passo 4 de minha receita. Mesmo isso não está claro: os preços de muitos bens, não daqueles que o Tesouro se propõe a comprar, estão sob pressão. E mesmo se o círculo vicioso for limitado, o sistema financeiro continuará com a capitalização inadequada.

Ou, de fato, ficará mal das pernas por falta de capital, a não ser que o governo federal pague acima do valor pelos bens que está comprando, dando às firmas financeiras -- e seus acionistas e executivos -- um lucro gigantesco à custa dos contribuintes. Eu mencionei que não gosto desse plano?

A lógica dessa crise parece pedir por uma intervenção não no passo 4, mas no passo 2: o sistema financeiro precisa de mais capital. E se o governo vai providenciar capital às empresas, deveria conseguir o que as pessoas que dão capital têm direito -- uma parcela da propriedade, para que todos os ganhos do plano de resgate não sejam transferidos àqueles que causaram a confusão em primeiro lugar.

É o que aconteceu na crise dos Savings and Loan [envolvendo instituições de poupança e empréstimos pessoais, nos anos 80]: o governo federal assumiu propriedade dos bancos ruins, não apenas de seus bens ruins. Também aconteceu no caso do Fannie e Freddie. (Por sinal, o resgate fez o que devia. Os juros dos financiamentos cairam fortemente desde que o governo federal assumiu as empresas).

Mas o mr. Paulson insiste que quer um plano "limpo". "Limpo", nesse contexto, significa o salvamento financiado por dinheiro do contribuinte sem compromisso -- sem compromisso da parte daqueles que estão sendo salvos. Por que isso é bom? Acrescente a isso o fato de que mr. Paulson está pedindo autoridade ditatorial, mais imunidade "de qualquer tribunal ou agência administrativa", e essa é uma proposta inaceitável.

Entendo que o Congresso esteja sob imensa pressão para concordar com o plano de mr. Paulson nos próximos dias, com pequenas alterações que fariam desse um plano menos ruim. Basicamente, depois de um ano e meio dizendo a todos que as coisas estavam sob controle, o governo Bush diz que o céu está desabando e que para salvar o mundo é preciso fazer tudo o que o governo diz agora, agora, agora.

Eu pediria ao Congresso que parasse por um minuto, respirasse profundamente e tentasse seriamente reescrever a estrutura do plano, fazendo dele um projeto que ataque o problema real. Não sejam atropelados -- se o plano for aprovado no formato atual nós todos estaremos arrependidos em um futuro não muito distante.

*Paul Robin Krugman: economista, escritor, colunista no The New York Times. e professor de Economia e Assuntos Internacionais na Universidade de Princeton.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

O neoliberalismo pra inglês ver dos republicanos estadunidenses


Atualizado em 21/09/2008

Uma nação de bobos da corte

James Moore, no Huffington Post

Não deixe eles te dizerem que o derretimento econômico é uma confusão complicada. Não é. Nossa crise financeira nacional é facilmente entendível por qualquer pessoa que tenha visto cobiça e hipocrisia. Mas agora testemunhamos as duas em escala profunda e monumental.

Os republicanos conservadores sempre querem que o governo fique longe dos negócios e combatem fiscalização enquanto fazem rios de dinheiro. Quando a cobiça deles, no entanto, os coloca em apuros, são os primeiros a chorar por regras e leis e dinheiro do contribuinte para salvá-los. Obviamente, os republicanos são socialistas. O governo Bush decidiu socializar a dívida das grandes empresas de Wall Street. Os contribuintes não puderam aproveitar dos grandes lucros nos instrumentos financeiros fajutos como derivativos ou papéis do sub-prime, mas nós ganhamos o privilégio de pagar pelas dívidas e falências.

Vamos considerar apenas o dinheiro. O salvamento público da seguradora gigante AIG (que está se tornando um anão) custará 85 bilhões de dólares. De acordo com uma notícia, mais do que o governo Bush gastou no programa Ajuda para Famílias com Crianças durante seus dois mandatos. Esse dinheiro cobriria os gastos de saúde de todos os homens, mulheres e crianças dos Estados Unidos por ao menos seis meses.

Como chegamos a isso?

A resposta também é simples. O nome dele é Phil Gramm. Poucos dias depois que a Suprema Corte fez Bush presidente em 2000, Gramm enfiou uma coisa chamada Ato de Modernização do Commodity Futures na lei do Orçamento. Ninguém sabia que o senador do Texas estava dando aos Estados Unidos uma pílula de veneno de 262 páginas. O Ato do Gramm foi desenhado para manter fiscais federais longe do controle de novas ferramentas financeiras descritas como credit swaps. São instrumentos como hipotecas de sub-prime empacotadas e vendidas.

[Pedro deve à Caixa Econômica 50 mil reais. A dívida dele é garantida através de papéis vendidos no mercado financeiro. Os bancos de investimento ganham rios de dinheiro com as comissões de venda. Pedro fica doente, perde o emprego e deixa de pagar a conta. Os títulos ligados à dívida do Pedro apodrecem. Foi isso o que deu origem à crise nos Estados Unidos. Pedro multiplicado por milhares de compradores de casas. Bilhões de dólares em papéis micados que se espalharam pelo mundo.]

Sob a lei de Gramm, nem a SEC [equivalente americano da Comissão de Valores Mobiliários] nem a Comissão de Vendas de Commodities Futures (CFTC) poderiam examinar as instituições financeiras como fundos de hedge ou bancos de investimento para garantir que tinham os bens necessários para cobrir perdas no mercado.

Não estamos falando de uma besteira qualquer. O mercado para esses instrumentos financeiros que eles esperam que a gentinha não entenda é estimado em 60 trilhões de dólares anualmente, o que equivale a quase quatro vezes o valor que gira em todo o mercado de ações dos Estados Unidos.

E o senador Phil Gramm queria que os bancos de investimento atuassem sem regulamentação. Assim como Alan Greenpan, que apoiou a legislação e agora vai a programas de televisão para falar do horror que está acontecendo. Antes que os lobistas de altos salários acabassem de mostrar os seus cartões-ouro nos corredores do Congresso, todos -- dos fundos de hedge aos bancos -- já estavam brincando com fogo em busca de diversão e lucros.

Gramm não apenas fez de Wall Street uma ilha da fantasia. Ele também enfiou na sua lei um artigo que evitava a regulamentação dos mercados de energia, o que levou ao colapso da Enron. Não houve colapso da casa de Gramm, no entanto, já que a mulher dele, Wendy, que já dirigiu a Comissão de Vendas de Commodities Futures (CFTC) conseguiu um emprego na Enron que rendeu quase dois milhões de dólares para o cofrinho familiar. Por que não? Wendy passou uma regra que manteve o governo distante da fiscalização dos contratos de energia futura da Enron.

Se John McCain se eleger e escolher Phil Gramm como secretário do Tesouro, o que é uma possibilidade, eles poderão conversar sobre os bons velhos tempos em que Gramm estava no Congresso e McCain no Senado e eles participaram da crise dos Savings as Loans [S&L].

[Crise financeira que atingiu instituições de poupança e empréstimos pessoais nos anos 80, em que o governo americano também entrou com dinheiro público].

O escândalo dos S&L, que parece nada comparado com a presente cascata de problemas, também não é difícil de entender. Mas é impossível levar John McCain a sério em nosso atual Armageddon financeiro uma vez que ele esteve envolvido no colapso histórico de 747 instituições de poupança que ocorreu na era de Ronald Reagan. No início dos anos 80, sob um presidente republicano, o Congresso desregulamentou as empresas de S&L da mesma forma que Gramm mais tarde acabaria com as leis para controlar os malfeitores de Wall Street. Os dirigentes das instituições de poupança fizeram lobby até derrubar as regulamentações e em seguida passaram a fazer investimentos de má qualidade.

O cara que endoidou com a liberdade financeira foi Charles Keating, que controlava a Lincoln Savings and Loan da Califórnia. Uma vez que a indústria da S&L tinha conseguido fazer com que o Congresso aumentasse a garantia federal aos depósitos de 40 mil para 100 mil dólares, o investimento irresponsável de pessoas como Keating começou a colocar em risco dinheiro do contribuinte. Keating colocou dinheiro em ações junk e projetos imobiliários duvidosos e por causa disso a direção do Federal Home Loan Bank (FHLBB) começou a pedir regulamentação para limitar esses investimentos diretos, perigosos e especulativos a 10% dos bens totais das empresas de S&L.

Keating não gostou disso; chamou um economista privado de nome Alan Greenspan, que prontamente produziu um estudo dizendo que não havia perigo em investimentos "diretos". Mas isso não convenceu o FHLBB e o escrutinio federal mostrou que a Lincoln Savings and Loan tomava decisões historicamente ruins e uma investigação foi iniciada.

Assim, Keating chamou o senador de seu estado, John McCain.

McCain e outros quatro senadores (conhecidos como o Quinteto de Keating) se encontraram com Edwin Gray, então dirigente do FHLBB. McCain tinha hesitado em comparecer mas teria sido chamado de "fracote" por Keating nos bastidores. A mensagem de Gray e do Quinteto para a FHLBB foi de que deveria tirar as mãos da Lincoln e esfriar a investigação. Gray e a FHLBB não cederam, mas a Lincoln manteve seus negócios até 1989, quando faliu com o resto da indústria de S&L. Os investimentos de mais de 20 mil investidores da terceira idade desapareceram com a falência da Lincoln. Keating passou cinco anos na cadeia.

Charles Keating era amigão de John McCain. Eles se encontraram em 1981 e Keating deu 112 mil dólares para as campanhas de McCain entre 1982 e 1987. Um ano antes do encontro de McCain com os fiscais do FHLBB a mulher de McCain, Cindy e o pai dela, de acordo com o noticiário da época, investiram 360 mil dólares em um dos shopping centers de Keating. O jornal Arizona Republic noticiou que McCain, sua mulher e a babá viajaram nove vezes no avião privado de Keating para as Bahamas, onde ficaram no resort decadente de Cat Cay [pertencente a Keating]. O senador não pagou pelas viagens ao banqueiro até anos depois, quando Keating estava sob investigação.

McCain não foi acusado oficialmente de nada, mas de erro de avaliação. Os republicanos, que lideraram a desregulamentação da indústria de Savings and Loans, adiaram a operação de salvamento até depois da eleição de 1988 para garantir a vitória de George H. W. na disputa pela Casa Branca. O custo da ajuda dos contribuintes às 747 empresas foi calculado em 1,4 trilhão de dólares. Se o salvamento tivesse começado em 1986, em vez de depois da eleição presidencial, o custo teria sido contido em 20 bilhões de dólares.

E agora os republicanos, que inventaram a presente crise e causaram o debacle das Savings and Loans nos anos 80, nos dizem que os mercados precisam de regulamentação. Não, de fato, eles não precisam. Por que os capitalistas republicanos que acreditam no mercado livre não caem fora e deixam o mercado funcionar, permitindo que essas casas de doido sejam esmagadas sob o peso de sua própria estupidez? Quando tudo acabar, teremos gente sã e sóbria para criar leis que garantam que o problema não se repita, isso se sobrevivermos ao caos.

Além disso, quando você estiver dando nosso dinheiro público para os idiotas de Wall Street, guarde um pouco das verdinhas para os desempregados da indústria automobilística e da construção civil que perderam seus empregos, já que você foi muito estúpido para não notar o que Phil Gramm fez e estava convencido de que tudo daria certo, uma vez que os mercados funcionam.

Esses, pois, são os caras -- os republicanos -- que querem o governo por mais quatro anos. John McCain não é apenas um deles. Ele anda nos jatos. Ele recebe doações de campanha. Ele os tem como assessores de campanha. E ele diz que devemos confiar nele.

Ele deve pensar que somos uma nação de bobos da corte.

Talvez a gente seja.


George Bush e o comunismo enrustido


George Bush, o comunista enrustido. Crédito: Divulgação.

Para o sociólogo Cristóvão Feil, a crise do mercado financeiro nos Estados Unidos salienta a contradição do capitalismo. As empresas, que sempre reclamam da intervenção do governo no mercado, agora imploram que a administração de George W. Bush salve as instituições à beira da falência. Este é o comentário político da semana.



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Reportagem: Cristóvão Feil | duração: 4'26 | tamanho: 780 Kb

Porto Alegre (RS) - Em tom de brincadeira, tenho dito que o presidente norte-americano George Bush Jr. é um revolucionário criptocomunista, que quer dizer um comunista enrustido. Pois acabou com o capitalismo sem nunca admitir sequer que era um militante de esquerda. Brincadeiras a parte, mas o sistema capitalista internacional está no momento em uma crise sem precedentes, pelo menos desde 1929. Portanto, há quase oito décadas.

Como não sou um economista, fui dar uma olhada no que os economistas que eu respeito estão comentando sobre a crise no capitalismo nos Estados Unidos da América do Norte. Muito embora este tema não seja um assunto só de economistas, mas diz respeito a todos nós que estamos vivos e respiramos debaixo do sol, sempre á bom examinar o que eles têm a dizer. Para a economista Maria da Conceição Tavares, a crise atual é comparável a de 1929 no tamanho e no estrago. Só que os bancos centrais e os tesouros nacionais estão atuando para evitar uma recessão. Então é “uma crise de 29 a conta-gotas”, como diz Conceição. Estoura um, o Tesouro norte-americano socorre. Estoura outro, o Banco central dos EUA socorre. Conceição diz que ninguém sabe onde isso vai parar.


Para o Brasil, a economista acha que até pode ajudar a conter a inflação, que andou meio descontrolada, mas que agora já está diminuindo. Outro economista que andei lendo para saber o que ele pensa sobre a crise financeira dos mercados foi Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia em 2001 e ex-diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI). Stiglitz usa uma metáfora muito apropriada: ele diz que a atual crise é a "queda do muro de Berlim do capitalismo". Diz ele: "A queda de Wall Street representa para o fundamentalismo do mercado o que a queda do Muro de Berlim representou para o Comunismo". Ele informa que esse modo de organização econômica não funciona mais.

Para o Prêmio Nobel nós, os capitalistas estamos nos afogando, segundo ele. Considerando que 30% dos ganhos de capital resultam de lucros financeiros e que esses capitais estão podres, Stiglitz diz que os fundamentos da economia não garante que vamos sair da crise de modo fácil e indolor. Já o economista Paulo Nogueira Batista, o brasileiro que é diretor-executivo do FMI, comenta que este é o crepúsculo dos ídolos do capitalismo. Já quebraram várias instituições no coração do capital: Bear Stearns, Fannie Mae, Freddie Mac, Lehman Brothers, Merrill Lynch e a megaseguradora AIG.

E o governo de George Bush teve de desembolsar US$ 1 trilhão para estatizar essas empresas privadas, contrariando tudo o que neoliberalismo sempre pregou, ou seja, que o Estado jamais pode interferir nos negócios privados. Como se vê, para salvar reputações e negócios rentáveis aí pode. Aí o estado tem que exercer o seu paternalismo e salvar os filhos que caíram em desgraças financeiras mesmo que seja por incompetência e má gestão como é o caso recente desses operadores de mercado.


Pensem nisso, enquanto eu me despeço.

Até a próxima!


Cristóvão Feil é sociólogo e editor do blog Diário Gauche

Será o destino do Lehman aquele da América? EUA: economia sem leme e a cambalear

por Craig Roberts*

Haviam-nos prometido uma "Nova economia" de serviços de alta tecnologia comerciáveis que substituiria a economia manufatureira deslocalizada no estrangeiro. Desejando saber o que aconteceu à "Nova economia", a Research Offshoring Network da Duke University investigou-a e localizou-a no offshore. Sim, as atividades da dita "Nova Economia" também foram deslocalizadas no estrangeiro.

Call centers, operações de TI, operações de back-office e a manufacura foram há muito removidas para o exterior. Agora atividades de alto valor acrescentado tais como investigação e desenvolvimento, engineering, desenvolvimento de produto e serviços analíticos estão a ser enviadas offshore. Tudo o que foi deixado são as finanças, e elas estão a desintegrar-se diante dos nossos olhos.

Corretores independentes (broker-dealers) estão a desaparecer: Merrill Lynch, Bear Stearns, Lehman Brothers. Estas veneráveis instituições estavam demasiado pouco capitalizadas para os riscos que assumiram. A Merrill Lynch agora faz parte do Bank of América, e a Lehman Brothers é história.

Desregulamentações financeiras imprudentes levaram à concentração financeira e não a mercados mais eficientes. Bancos locais independentes, os quais focavam-se no financiamento de negócios locais, e Associações de Caixas Econômicas (Saving and Loan), que conheciam o mercado da habitação local, foram substituídas por grandes instituições que empacotavam riscos não analisados e vendiam-nos por todo o mundo.

A regulamentação foi demasiado ambiciosa. O pêndulo inclinou-se. A desregulamentação tornou-se uma ideologia e uma facilitadora da ganância.

A desregulamentação da energia elétrica deu-nos a Enron.

A desregulamentação das companhias de aviação destruiu nomes americanos famosos como a Pan Am, encolheu o números de companhias e provocou um declínio no serviço. Quando as companhias estavam regulamentadas, elas podiam permitir-se ter equipamento de reserva de prontidão e os voos cancelados eram raros. Hoje, as condições financeiras proíbem ter equipamento standby e problemas mecânicos resultam em cancelamento de voos. Quando economistas calcularam os benefícios da desregulamentação eles deixaram de lado muitos dos seus custos.

Já não há mais companhias blue chip , o que significa que investir para a aposentadoria tornou-se um jogo de dados. As pessoas percebem isto; portanto, a privatização da Segurança Social não tem apoio.

Se olharmos de forma realista para a economia dos EUA, veremos que aquilo que não foi movido para o offshore está a precisar de salvação. No ano passado, o Departamento da Energia foi autorizado a efetuar empréstimos de US$25 mil milhões a indústrias fabricantes de automóveis e fornecedores de peças. Na semana passada o secretário do Tesouro pôs debaixo da sua US$5 milhões de milhões em hipotecas habitacionais da Fannie Mãe e do Freddie Mac. O Gabinete de Orçamento do Congresso diz que esta ação do Tesouro significa "que as operações da Fannie Mãe e do Freddie Mac deveriam ser incorporadas direcamente no orçamento federal". ( http://cboblog.cbo.gov/ ) Suas receitas seriam tratadas como receitas federais, e suas despesas como despesas federais. Se as últimas fossem maiores do que as primeiras, não haveria razão para a tomada.

A questão em aberto é: como estes novos passivos afetam a capacidade de crédito do próprio Tesouro?

Por enquanto, esta questão está submersa. A prática tradicional de fugir para o dólar americano e os títulos do Tesouro dos EUA durante períodos de stress financeiro e de incerteza promoveu o dólar e manteve baixas as taxas de juro. Mas mais cedo ou mais tarde o déficit do orçamento dos EUA, agravado pela recessão e por salvamentos, e ainda pelo grande déficit comercial que exige a constante reciclagem de dólares possuídos por estrangeiros nos ativos reais e financeiros estadunidenses, resultará em esforços renovados da parte dos estrangeiros para aligeirar seus haveres em dólares.

Quando chegar este momento, as taxas de juros estadunidenses terão de ascender em conformidade para o governo ser capaz de continuar a apoiar-se nos estrangeiros para reciclar os dólares adquiridos no comércio a fim de financiar o déficit do orçamento anual do governo dos EUA.

Os atuais problemas financeiros empurraram para os bastidores os problemas maiores do orçamento e do déficit comercial dos EUA. Bens e serviços para mercados americanos que as corporações dos EUA deslocalizam offshore retornam como importações, as quais alargam o déficit comercial estadunidense. Transferir produção para o estrangeiro reduz o PIB e o emprego dos EUA e aumenta o PIB e o emprego no estrangeiro. Transferir produção para o estrangeiro reduz a capacidade exportadora da economia dos EUA ao mesmo tempo que aumenta a conta da importação.

Portanto, como é que o déficit comercial será colmatado? Um dos meios é através da perda do valor de troca do dólar, a qual reduziria os rendimentos reais dos consumidores americanos e deixa-los-ia demasiado pobres para comprarem bens e serviços deslocalizados.

Como é que o déficit orçamental será fechado quando empregos estão a desaparecer e o PIB (base do fisco) está a ser relocalizado offshore?

Não através de impostos mais altos. Impostos mais altos são problemáticos para uma economia recessionária na qual o emprego, medido corretamente, já está em dois dígitos (http://www.shadowstats.com/).

Algumas pessoas têm especulado que o déficit orçamental será colmatado pelo desmantelamento de programas de promoção social tais como o Medicare. Contudo, considerando o custo dos seguros médicos, isto seria catastrófico para dezenas de milhões de americanos mais idosos.

A via mais provável será uma incursão nas pensões privadas. Alicia Munnell, nomeada pela administração Clinton como secretária assistente do Tesouro para Política Econômica, argumentou que fundos privados de pensões deveriam enfrentar um gravame fiscal pelo fato de que a sua acumulação ter sido livre de impostos. Espero que o governo federal, confrontado com a sua própria bancarrota, ressuscitará este argumento, pois será preferível imprimir dinheiro como uma república de bananas ou a Alemanha de Weimar.

No século XXI, a economia dos EUA tem estado a manter através da expansão da dívida, não pelo crescimento real do rendimento. Economistas têm louvado o crescimento da produtividade estadunidense, mas não há sinal de que a produtividade acrescida tenha ascendido rendimentos familiares, uma indicação de que há um problema com as estatísticas da produtividade. Com consumidores super carregados de dívidas e o valor do seu ativo mais importante – habitação – em queda, o consumidor americano não será levado a uma recuperação.

Um país que tivesse líderes inteligentes reconheceria suas aflições, travaria suas guerras gratuitas e cortaria seu orçamento militar maciço, o qual excede aquele de todo o resto do mundo somado. Mas um país cujo objetivo de política externa é hegemonia mundial continuará no caminho da destruição até que o resto do mundo cesse de financiar a sua existência.

A maior parte dos americanos, incluindo os candidatos presidenciais e os media, estão inconscientes de que o governo dos EUA hoje, agora neste minuto, é incapaz de financiar suas operações diárias e deve confiar em estrangeiros que comprem seus títulos. O governo paga os juros aos estrangeiros vendendo-lhes mais títulos, e quando os títulos têm de ser pagos, o governo resgata-os vendendo-lhes novos títulos. O dia em que os estrangeiros não comprarem será o dia em que o povo americano e o seu governo será trazido à realidade.
Isto não é a posição financeira de uma superpotência.

Será que aquilo que hoje aconteceu à Lehman Brothers será amanhã o destino da América?

[*] Ex-secretário assistente do Tesouro na administração Reagan. Foi Editor Associado da página editorial do Wall Street Journal e Editor Colaborador da National Review. É co-autor de The Tyranny of Good Intentions. Email: PaulCraigRoberts@yahoo.com
O original em inglês foi publicado em 16/09/2008 no Counter Punch.org