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segunda-feira, 17 de maio de 2010

"A Construção da Igualdade -- História da Resistência Negra no Brasil"

"A Construção da Igualdade -- História da Resistência Negra no Brasil": o vídeo contribui na aplicação da Lei nº 10.639, que torna obrigatória a inclusão, no currículo das escolas, o estudo da História da África e Cultura Afro-brasileira. Trás depoimentos de acadêmicos, escritores, artistas em geral e ações do movimento negro.

Parte 1:



Parte 2:

quinta-feira, 26 de junho de 2008

100 mil contra a ditadura


100 mil contra a ditadura


“Enquanto eu estiver aqui, não permitirei que o Rio se transforme numa nova Paris”
(General-presidente Costa e Silva)

“Não se repetirá aqui o que houve na França. Vai ser muito pior”.
(Luís Raul Machado, vice-presidente da UNE)


Augusto Buonicore
25.06.2008
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Depois das grandes manifestações que se seguiram ao assassinato do secundarista Edson Luís, o movimento estudantil se retirou para as escolas. Esta foi uma das decisões tomadas pelo Conselho Nacional de Entidades da UNE, ocorrido na Bahia em maio. Além de concentrar a ação nas lutas específicas foi decidido aceitar a proposta de diálogo com a ditadura, como meio de desmascará-la. Teses defendidas pelas chamadas Dissidências do PCB em aliança com militantes deste mesmo Partido.
A Ação Popular (AP), que detinha a presidência da UNE, havia sido derrotada por um ínfimo número de votos nestes dois pontos cruciais. Ela defendia manter as mobilizações de rua, priorizando as bandeiras gerais contra a ditadura e o imperialismo, e rejeitava categoricamente qualquer tipo de diálogo com o regime, pois induziria o povo a uma ilusão perigosa.

Mas, a truculência policial iria, novamente, retirar os estudantes de dentro das universidades e lançá-los às ruas em defesa das liberdades democráticas. Em 20 de junho ocorreu uma assembléia dos estudantes  da UFRJ. Nela se discutiu a situação do ensino e a democracia interna daquele estabelecimento de ensino. A reitoria e o corpo de professores, muitos a contragosto, foram obrigados a participar. Em um certo momento o prédio foi cercado por um forte esquema policial-militar. O clima ficou tenso.

O próprio reitor assumiu a negociação entre os estudantes e a polícia. Depois de horas de tensão, ficou acertado que os jovens desocupariam o local pacificamente e a polícia não os atacaria. O governador confirmou o acordo. Mas tudo não passou de uma armadilha policial. Na saída os estudantes foram agredidos e uma parte acabou sendo encurralada e aprisionada dentro do campo do Botafogo. Ali ocorreram inúmeros atos de selvageria. Os estudantes foram obrigados a se deitarem no chão com as mãos na cabeça e espancados covardemente. Soldados urinavam sobre eles. O pior aconteceria com as moças que foram humilhadas sexualmente pelos policiais. Mais de 300 estudantes acabaram sendo presos naquela noite sombria.

As fotos publicadas nos principais jornais estarreceram a população. Este foi mais um grande golpe na imagem da ditadura junto à classe média. A cidade se transformou num verdadeiro paiol de pólvora. Bastava uma faísca para que tudo fosse pelos ares. Premonitoriamente o editorial do jornal oposicionista Correio da Manhã afirmou “A nação está diante de uma explosão de irracionalismo político que, se não for imediatamente detido, nos levará a um Calabouço ampliado”. Referia-se a morte de Edson Luís durante o protesto ocorrido na restaurante Calabouço.

Uma pequena manifestação estudantil saiu às ruas para condenar o que havia ocorrido no dia anterior e cobrar o diálogo do regime. Ela ameaçou se aproximar da Embaixada dos Estados Unidos – símbolo da opressão imperialista. A resposta foi uma primeira saraivada de balas disparada pela polícia. Três garotas foram atingidas e uma delas, Maria Ângela Ribeiro, faleceu. Diante da truculência as principais lideranças estudantis buscaram dispersar a manifestação. Pensavam preparar novas mobilizações para os dias seguintes. Mas, mesmo sem direção, a luta continuou pelas ruas da cidade.

Agora não eram apenas os estudantes que lutavam. A eles se juntaram um grande número de pessoas, em geral jovens, que trabalhavam no centro do Rio de Janeiro. Eram bancários, comerciários, escriturários, ofice boys, vendedores ambulantes etc. Do alto dos edifícios eram atirados todos os tipos de objetos. Um deles, por sinal, iria matar um dos soldados que participavam da repressão. Os policiais acuados atiravam a esmo contra o alto dos prédios e as pessoas que se aglomeravam. Dezenas delas – manifestantes ou não - caíram baleadas.

Assim descreveu a cena o então vice-presidente da UNE, José Roberto Arantes: “Às duas horas da tarde, praticamente, não existia estudantes  nas ruas. A maioria fugira do centro da cidade à bomba e à bala. Mesmo assim a violência continuou (...) Das janelas dos prédios começavam a despencar, jogados por funcionários de escritórios e moradores de apartamentos, os objetos disponíveis em cada lugar: água, grampeadores, prendedores de papel, garrafas e até máquinas de escrever. Quando um PM foi morto por um desses objetos, era preciso ver a gritaria com que sua queda foi recebida (..) E o tiroteio continuou até às 8 horas da noite, quando os últimos grupos de populares deixaram de responder à polícia”. José Roberto Arantes seria assassinado pela ditadura pouco tempo depois.

Segundo Zuenir Ventura: “O balanço de alguns hospitais – nem todos divulgaram os totais, registrou: 23 pessoas baleadas, quatro mortas, inclusive um soldado da PM (...) 35 soldados feridos a pau e pedra, seis intoxicados e 15 espancados pela polícia. No DOPS, à noite, amontoavam-se cerca de mil presos”. Concluiu Ventura: “nos seis governos militares pós-1964, incluindo a Junta, foi o que mais se pareceu com uma insurreição popular”.

A sexta-feira sangrenta, como ficou conhecido este dia, foi uma demonstração evidente do grau que havia chegado o desgaste do regime militar junto à população dos grandes centros urbanos.

No enterro do soldado, o chefe da Casa Militar do governo do estado afirmou: “a Guanabara não verá mais manifestações nas ruas, mesmo que para evitá-las a PM tenha que agir ainda mais violentamente”. Mais violentamente?! Este seria o tom do discurso assumido pela cúpula militar. Mas, o governo Costa e Silva, desgastado pelos últimos acontecimentos, seria obrigado a fazer uma concessão aos grupos oposicionistas.

As lideranças estudantis já haviam decidido realizar uma nova manifestação. Esta iniciativa foi apoiada por representantes de amplos setores sociais, mas que não queriam confrontos com a polícia. Uma comissão de cerca de 300 intelectuais e artistas foi ao governador para solicitar autorização para realizar uma passeata pacífica no centro do Rio de Janeiro. Da comitiva participavam Hélio Pelegrino, Oscar Niemeyer, Ferreira Gullar, Clarice Lispector, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Nara Leão, Paulo Autran, Tônia Carreiro e Odete Lara entre outros. A permissão acabaria sendo concedida. Esta decisão, sem dúvida, contou com o aval do general Costa e Silva, que queria diminuir o desgaste sofrido com o massacre no campo do Botafogo e a Sexta-feira sangrenta.

E assim foi sendo construída a grande manifestação de 26 de junho. Neste dia cerca de 100 mil pessoas marcharam calmamente pelas ruas da “cidade maravilhosa”, na maior manifestação oposicionista desde a implantação da ditadura militar em março de 1964. Ali estavam os estudantes, os professores, os intelectuais, os artistas, o clero progressista e os assalariados urbanos, que tiveram grande papel nos conflitos da “sexta-feira sangrenta”.

A polícia desapareceu das ruas que passaram a ser controladas pela massa estudantil. Uma convocatória assinada pelas mães dos estudantes cariocas afirmava: “Não vamos continuar assistindo impassíveis às humilhações e ao massacre de que estão sendo vítimas nossos filhos. Queremos assim manifestar a mais viva repulsa às últimas violências e pedir ao povo brasileiro que nos apóie com sua compreensão e nos acompanhe em nosso protesto”.

O Correio da Manhã descreveu, assim, a manifestação: “Por dez horas, mais de 100 mil cariocas protestaram contra o governo, apoiando o movimento dos estudantes que, conforme previsto, foi sem incidentes, com dezenas de discursos de universitários, operários, professores e padres, que definiram ‘o compromisso histórico da igreja com o povo”. “Com perfeito dispositivo de segurança, os estudantes garantiram a realização da passeata, sem depredações, chegando a prender e soltar um policial que incitava a que fosse apedrejado o prédio do Conselho de Segurança Nacional. A concentração começou às 10 horas, com os primeiros grupos de padres e estudantes, sem qualquer policiamento”. O jornal, ironicamente, afirmou: “A primeira conclusão a retirar-se é a de que a repressão policial contra atividades legítimas é que gera os conflitos”.

Um dos destaques daquele ato foi Dom José de Castro Pinto, vigário-geral do Rio de Janeiro, e uma grande comitiva de clérigos. O presidente da Associação Católica da Guanabara, Padre Vicente Adamo, também se fez presente. Após o golpe parte importante do clero passou a apoiar a luta pela democratização da sociedade e se solidarizar com as lutas populares e estudantis. Por isso a “passeata dos cem mil” foi uma “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, com sinais trocados.

A quase totalidade dos artistas e intelectuais, excetuando os mais reacionários, que estavam no Rio, participou da manifestação. Podiam ser vistos Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Vianinha, Paulo Pontes, Nara Leão, Vinícius de Moraes, Tônia Carrero, Paulo Autran, Ferreira Gullar etc.etc. Era mais fácil citar os artistas que não passaram por lá naquele dia.

Vladimir Palmeira, como representante da União Metropolitana dos Estudantes (UME), comandou a passeata. O presidente da UNE, Luís Travassos, também estava presente. Não era possível deixar de sentir a divisão que existia no movimento estudantil e popular. De um lado ouvia-se a palavra de ordem “o povo organizado derruba a ditadura”, entoado pelos simpatizantes e militantes vinculados ao PCB, e, de outro, “o povo armado derruba a ditadura”, bradado pelos militantes das dissidências armadas e da AP.

Palmeira dava o tom do comício: “Pessoal: a gente é a favor da violência quando ela é aplicada para fins maiores. No momento, ninguém deve usar a força contra a polícia, pois a violência é própria das autoridades, que tentam, por todos os meios, calar o povo. Somos a favor da violência quando através de um processo longo, chegar a hora de pegar em armas. Aí, nem a polícia, nem qualquer outra força repressiva da ditadura poderá deter o avanço do povo”. Antes de encerrar o ato os manifestantes queimaram “ordeiramente” uma bandeira dos Estados Unidos.

A manifestação, convertida em assembléia popular e com o aval da direção da UME e do PCB, elegeu uma comissão que iria apresentar as reivindicações da “sociedade civil” ao governo de Costa e Silva. Desta comissão participavam Hélio Peregrino, representando os intelectuais; Irene Papi, as mães, o padre João Batista, o clero; José Américo Pessanha, os professores e Franklin Martins e Marcos Medeiros, os estudantes. Estranhamente nenhum operário – ou representante popular - foi incluído nela.

Da pauta que seria apresentada constava: libertação de todos os presos, reabertura do restaurante Calabouço, anulação da censura aos teatros e uma reforma universitária democrática. Foi estabelecido um prazo de uma semana para que o governo desse uma resposta às reivindicações. A Ação Popular e o PCdoB não aprovaram a proposta de formação da comissão de negociação, pois a considerava uma tentativa envergonhada de estabelecer diálogo com a ditadura. (Trataremos especificamente da atuação do PCdoB em 1968 num dos próximos artigos)

A reunião da comissão com o general-presidente foi um completo fracasso. Nenhum dos itens apresentados foi atendido. Costa e Silva começou a conversa impondo uma condição: “vocês tem que parar as passeatas (...) Se vocês garantem, vou tomar providências para libertar os cinco presos da alçada do Executivo e pedir que se estude a situação dos demais.” Os estudantes presentes reagiram: “Não aceitamos condição. Queremos a libertação de todos os companheiros imediatamente. Não viemos aqui barganhar.” Mais à frente os representantes dos estudantes voltaram a questionar desdenhosamente o ditador: “Escuta aqui, professor, eu quero saber o seguinte: o senhor vai ou não vai soltar nossos companheiros?!”.

“Eu não aceito ultimato, nem desrespeito. A dignidade da Presidência não admite ameaças. Está encerrada a reunião”, bradou o general Costa e Silva. Deste modo chegava ao fim o breve “diálogo” com o regime. Era claro que a margem de manobra dos dois lados era bem próxima à zero.

Diante do não atendimento de suas reivindicações, os estudantes realizariam uma grande manifestação em três de julho, que ficaria conhecida como a “passeata dos 50 mil”. Nela já se percebia o abandono de alguns setores sociais que haviam participado da passeata anterior. O tom dos protestos se tornava mais radical. A idéia do diálogo, alimentado por inúmeros setores oposicionistas, ruía sob o golpe de cassetetes e balas de fuzil. Podia se sentir um forte cheiro de pólvora no ar. As férias de julho pareciam ter adiado o confronto final. Uma sombra sinistra se projetava no horizonte.

Augusto Buonicore: historiador, mestre em ciência política pela Unicamp.

Bibliografia Dirceu , José. Palmeira, Vladimir – Abaixo a ditadura, Ed. Grammond, 1998.

Martins Filho, João Roberto – Movimento estudantil e ditadura militar (1964-1968), SP: Ed. Papirus, 1987.

Poerner, Artur J. – O poder jovem, Ed. Civilização brasileira, 1979.

Reis Filho, Daniel Aarão e Moraes, Pedro de – 68: a paixão de uma utopia, Ed. FGV, 1988.

Sanfelice, José Luís – Movimento estudantil: a UNE na resistência ao golpe de 64, Ed. Autores Associados, 1986.

Santos, N. e outros – História da UNE – depoimentos de ex-dirigentes, vol. 1 – Ed. Livramento, 1980.

Valle, Maria Ribeiro do – 1968: O diálogo é a violência, ed. Unicamp, 2008.

Ventura, Zuenir – 1968: O ano que não terminou, Ed. Nova Fronteira, 1988. Ver também o artigo “Assassinaram um estudante, poderia ser seu filho”

Fonte: www.vermelho.org.br




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terça-feira, 1 de abril de 2008

01/04/1964, alguns documentos

Quarenta e quatro anos após o golpe militar ainda estamos construindo nossa democracia.
Em postagens anteriores destacamos o importante livro Direito à verdade e à memória: comissão especial sobre mortos e desaparecidos políticos, publicado em 2007 pela Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, livro que resgata a memória dos mortos e desaparecidos, vítimas da ditadura.

Hoje indicamos o filme 'Que bom te ver viva' de Lucia Murat.
Trata-se de um filme bastante sensível que une a interpretação de Irene Ravache entrecortada pelos depoimentos de 8 presas políticas sobreviventes da repressão e cuja ação política, após a queda do regime militar, contribuiu para reconstrução da redemocratização e ampliação da cidadania em nosso país.

Em nossa biblioteca virtual destacamos um artigo em PDF que faz uma excelente análise deste filme, acesse aqui.

Como documentos de época, destacamos uma gravação telefônica de uma conversa entre George Ball e o presidente estadunidense Lyndon Johnson, disponível no youtube, traduzida pelo jornalista L.C. Azenha. Do Vi o mundo também destacamos o editoral do Jornal O Globo apoiando o golpe militar.
Do blog do Mello trouxemos o vídeo atual de Jair Bolsonaro e da Agência Carta Maior o artigo de Lungaretti.

Bom trabalho, professores!

Vídeo com a conversa entre George Ball e o presidente Lyndon Johnson sobre o apoio dos Estados Unidos ao golpe militar de 1964, no Brasil:



Como demonstra o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) , ex-militar, defensor da pena de morte, da tortura, com traços homofóbicos e que já quis fuzilar FHC, O Globo não esteve sozinho nas comemorações do golpe militar:


editorial de "O Globo", em 02/04/1964

Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas, que obedientes a seus chefes demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições.

Como dizíamos, no editorial de anteontem, a legalidade não poderia ser a garantia da subversão, a escora dos agitadores, o anteparo da desordem. Em nome da legalidade, não seria legítimo admitir o assassínio das instituições, como se vinha fazendo, diante da Nação horrorizada.

Agora, o Congresso dará o remédio constitucional à situação existente, para que o País continue sua marcha em direção a seu grande destino, sem que os direitos individuais sejam afetados, sem que as liberdades públicas desapareçam, sem que o poder do Estado volte a ser usado em favor da desordem, da indisciplina e de tudo aquilo que nos estava a levar à anarquia e ao comunismo.

Poderemos, desde hoje, encarar o futuro confiantemente, certos, enfim, de que todos os nossos problemas terão soluções, pois os negócios públicos não mais serão geridos com má-fé, demagogia e insensatez.

Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares, que os protegeram de seus inimigos. Devemos felicitar-nos porque as Forças Armadas, fiéis ao dispositivo constitucional que as obriga a defender a Pátria e a garantir os poderes constitucionais, a lei e a ordem, não confundiram a sua relevante missão com a servil obediência ao Chefe de apenas um daqueles poderes, o Executivo.

As Forças Armadas, diz o Art. 176 da Carta Magna, "são instituições permanentes, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade do Presidente da República E DENTRO DOS LIMITES DA LEI."

No momento em que o Sr. João Goulart ignorou a hierarquia e desprezou a disciplina de um dos ramos das Forças Armadas, a Marinha de Guerra, saiu dos limites da lei, perdendo, conseqüentemente, o direito a ser considerado como um símbolo da legalidade, assim como as condições indispensáveis à Chefia da Nação e ao Comando das corporações militares. Sua presença e suas palavras na reunião realizada no Automóvel Clube, vincularam-no, definitivamente, aos adversários da democracia e da lei.

Atendendo aos anseios nacionais, de paz, tranqüilidade e progresso, impossibilitados, nos últimos tempos, pela ação subversiva orientada pelo Palácio do Planalto, as Forças Armadas chamaram a si a tarefa de restaurar a Nação na integridade de seus direitos, livrando-os do amargo fim que lhe estava reservado pelos vermelhos que haviam envolvido o Executivo Federal.

Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais. Aliaram-se os mais ilustres líderes políticos, os mais respeitados Governadores, com o mesmo intuito redentor que animou as Forças Armadas. Era a sorte da democracia no Brasil que estava em jogo.

A esses líderes civis devemos, igualmente, externar a gratidão de nosso povo. Mas, por isto que nacional, na mais ampla acepção da palavra, o movimento vitorioso não pertence a ninguém. É da Pátria, do Povo e do Regime. Não foi contra qualquer reivindicação popular, contra qualquer idéia que, enquadrada dentro dos princípios constitucionais, objetive o bem do povo e o progresso do País.

Se os banidos, para intrigarem os brasileiros com seus líderes e com os chefes militares, afirmarem o contrário, estarão mentindo, estarão, como sempre, procurando engodar as massas trabalhadoras, que não lhes devem dar ouvidos. Confiamos em que o Congresso votará, rapidamente, as medidas reclamadas para que se inicie no Brasil uma época de justiça e harmonia social. Mais uma vez, o povo brasileiro foi socorrido pela Providência Divina, que lhe permitiu superar a grave crise, sem maiores sofrimentos e luto. Sejamos dignos de tão grande favor.

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DEBATE ABERTO (Agência Carta Maior)

Ditadura de 1964/85: fracassso e ignomínia

Inexistia em 1964 uma possibilidade real de revolução socialista. Não houve o alegado "contragolpe preventivo", mas, pura e simplesmente, um golpe para usurpação do poder, meticulosamente tramado e executado com apoio dos EUA.

Ao completarem-se 44 anos da quebra da normalidade institucional no Brasil, mergulhando o País nas trevas e na barbárie durante duas décadas, é oportuno evocarmos o que realmente foi essa ditadura, defendida hoje com tamanha desfaçatez pelos culpados inúteis e com tanta ingenuidade pelos inocentes úteis.

Como frisou a bela canção de Milton Nascimento e Fernando Brant, cabe a nós, sobreviventes do pesadelo, o papel de sentinelas do corpo e do sacrifício dos nossos irmãos que já se foram, assegurando-nos de que a memória não morra – mas, pelo contrário, sirva de vacina contra novos surtos da infestação virulenta do totalitarismo.

Nessa efeméride negativa, o primeiro ponto a destacar é que a quartelada de 1964 foi o coroamento de uma longa série de articulações e tentativas golpistas, nada tendo de espontâneo nem sendo decorrente de situações conjunturais; estas foram apenas pretextos, não causa.

Há controvérsias sobre se a articulação da UDN com setores das Forças Armadas para derrubar o presidente Getúlio em 1954 desembocaria numa ditadura, caso o suicídio e a carta de Vargas não tivessem virado o jogo. Mas, é incontestável que a ultra-direita vinha há muito tempo tentando usurpar o poder.

Em novembro/1955, uma conspiração de políticos udenistas e militares extremistas tentou contestar o triunfo eleitoral de Juscelino Kubitscheck, mas foi derrotada graças, principalmente, à posição legalista que Teixeira Lott, o ministro da Guerra, assumiu. Um dos golpistas presos: o então tenente-coronel Golbery do Couto e Silva, que viria a ser o formulador da doutrina de Segurança Nacional e eminência parda do ditador Geisel.

Em fevereiro de 1956, duas semanas após a posse de JK, os militares já se insubordinavam contra o governo constitucional, na revolta de Jacareacanga.

Os oficiais da FAB repetiram a dose em outubro de 1959, com a também fracassada revolta de Aragarças.

E, em agosto de 1961, quando da renúncia de Jânio Quadros, as Forças Armadas vetaram a posse do vice-presidente João Goulart, só voltando atrás diante da resistência do governador Leonel Brizola (RS) e do apoio por ele recebido do comandante do III Exército, gerando a ameaça de uma guerra civil.

Apesar das bravatas de Luiz Carlos Prestes e dos chamados grupos dos 11 brizolistas, inexistia em 1964 uma possibilidade real de revolução socialista. Não houve o alegado "contragolpe preventivo", mas, pura e simplesmente, um golpe para usurpação do poder, meticulosamente tramado e executado com apoio dos EUA. Derrubou-se um governo democraticamente constituído, fechou-se o Congresso Nacional, cassaram-se mandatos legítimos, extinguiram-se entidades da sociedade civil, prenderam-se e barbarizaram-se cidadãos.

A esquerda só voltou para valer às ruas em 1968, mas as manifestações de massa foram respondidas com o uso cada vez mais brutal da força, por parte de instâncias da ditadura e dos efetivos paramilitares que atuavam sem freios de nenhuma espécie, promovendo atentados e intimidações.

Até que, com a edição do dantesco AI-5 (que fez do Legislativo e o Judiciário Poderes-fantoches do Executivo, suprimindo os mais elementares direitos dos cidadãos), em dezembro de 1968, a resistência pacífica se tornou inviável. Foi quando a vanguarda armada, insignificante até então, ascendeu ao primeiro plano, acolhendo os militantes que antes se dedicavam aos movimentos de massa.

As organizações guerrilheiras conseguiram surpreender a ditadura no 1º semestre de 1969, mas já no 2º semestre as Forças Armadas começaram a levar vantagem no plano militar, introduzindo novos métodos repressivos e maximizando a prática da tortura, a partir de lições recebidas de oficiais estadunidenses.

Em 1970 os militares assumiram a dianteira também no plano político, aproveitando o boom econômico e a euforia da conquista do tricampeonato mundial de futebol, que lhes trouxeram o apoio da classe média.

Nos anos seguintes, com a guerrilha nos estertores, as Forças Armadas partiram para o extermínio sistemático dos militantes, que, mesmo quando capturados com vida, eram friamente executados.

A Casa da Morte de Petrópolis (RJ) e o assassinato sistemáticos dos combatentes do Araguaia estão entre as páginas mais vergonhosas da História brasileira – daí a obstinação dos carrascos envergonhados em darem sumiço nos restos mortais de suas vítimas, acrescentando ao genocídio a ocultação de cadáveres.

O milagre brasileiro, fruto da reorganização econômica empreendida pelos ministros Roberto Campos e Octávio Gouveia de Bulhões, bem como de uma enxurrada de investimentos estadunidenses em 1970 (quando aqui entraram tantos dólares quanto nos 10 anos anteriores somados), teve vida curta e em 1974 a maré já virou, ficando muitas contas para as gerações seguintes pagarem.

As ciências, as artes e o pensamento eram cerceados por meio de censura, perseguições policiais e administrativas, pressões políticas e econômicas, bem como dos atentados e espancamentos praticados pelos grupos paramilitares consentidos pela ditadura;

Corrupção, havia tanta quanto agora, mas a imprensa era impedida de noticiar o que acontecia, p. ex., nos projetos faraônicos como a Transamazônica, Ferrovia do Aço, Itaipu e Paulipetro (muitos dos quais malograram).

A arrogância e impunidade com que agiam as forças de segurança causou muitas vítimas inocentes, como o motorista baleado em 1969 apenas por estar passando em alta velocidade diante de um quartel, na madrugada paulistana (o comandante da unidade ainda elogiou o recruta assassino, por ter cumprido fielmente as ordens recebidas!).

Longe de garantirem a segurança da população, os integrantes dos efetivos policiais chegavam até a acumpliciar-se com traficantes, executando seus rivais a pretexto de justiçar bandidos (Esquadrões da Morte).

O aparato repressivo criado para combater a guerrilha propiciava a seus integrantes uma situação privilegiadíssima. Não só recebiam dos empresários extremistas vultosas recompensas por cada revolucionário preso ou morto, como se apossavam de tudo que encontravam de valor com os militantes. Acostumaram-se a um padrão de vida muito superior ao que sua remuneração normal lhes proporcionaria.

Daí terem resistido encarniçadamente à disposição do ditador Geisel, de desmontar essa engrenagem de terrorismo de estado, no momento em que ela se tornou desnecessária. Mataram pessoas inofensivas como Vladimir Herzog, promoveram atentados contra pessoas e instituições (inclusive o do Riocentro, que, se não tivesse falhado, provocaria um morticínio em larga escala) e chegaram a conspirar contra o próprio Geisel, que foi obrigado a destituir sucessivamente o comandante do II Exército e o ministro do Exército.

A ditadura terminou melancolicamente em 1985, com a economia marcando passo e os cidadãos cada vez mais avessos ao autoritarismo sufocante. Seu último espasmo foi frustrar a vontade popular, negando aos brasileiros o direito de elegerem livremente o presidente da República, ao conseguir evitar a aprovação da emenda das diretas-já

Celso Lungaretti é jornalista e escritor, ex-preso político e autor do livro "Náufrago da Utopia".