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domingo, 26 de julho de 2009

José Saramago fala sobre Twitter, Lula e seu novo livro

As frases longas e bem elaboradas a que os leitores de José Saramago estão acostumados continuam lá, mas o ambiente é outro, justamente um que costuma pedir frases curtas, sem a necessidade de muita elaboração. Desde setembro de 2007, o escritor português, prêmio Nobel de Literatura em 1998, mantém um blog (caderno.josesaramago.org), onde comenta temas relacionados a política, literatura, religião e sociedade ou simplesmente escreve relatos sobre suas viagens, muitas ao Brasil.

Os textos estão saindo da internet e ganhando o papel, numa coletânea de sete meses de posts lançada esta semana pela Companhia das Letras sob o título de “O caderno”. Em entrevista ao GLOBO (por e-mail, como é mais apropriado ao tema), Saramago explicou o que pensa sobre a rede, revelou que um dia deve se cansar do blog e exaltou a literatura de Chico Buarque.

O GLOBO: Seu livro “O caderno” é uma coletânea de textos de seu blog. Escritores mais velhos, porém, costumam manifestar certo descaso com a internet e os blogs. Como o senhor lida com a internet? O senhor lê outros blogs? Enxerga a internet como uma possibilidade de literatura ou apenas como fonte de informação?

JOSÉ SARAMAGO: Escrever num blog não difere em nada de escrever numa folha de papel. Salvo a extensão do texto em que, no caso do blog, se aconselha uma certa brevidade, os escritores não estão condicionados por normas ou regras que, supostamente, caracterizariam o blog. Não sou frequentador assíduo da internet. Consulto o Google com frequência, nada mais. Quanto a ler outros blogs, faço-a às vezes, mas não mantenho diálogo com eles. Para mim, a internet é uma fonte de informação rápida e em geral eficaz, porém não confundamos: a literatura ou é ou não é, não há meios termos. Muitas transformações teriam de dar-se (e eu não vejo como nem quais) para que a internet tomasse lugar no fazer literário.

O senhor acha que a experiência em escrever para um blog, onde teoricamente os textos são mais curtos e diretos, teve alguma influência na sua escrita?

SARAMAGO: Nenhuma. Continuo a utilizar frases longas, das que dão espaço e tempo para observações e análises quer considero necessárias. A tão louvada clareza das sínteses é, não raro, enganosa.

E como surgem os temas para o blog? A variedade é a regra? Qualquer pensamento que o senhor tenha pode motivar um post?

SARAMAGO: Não qualquer, evidentemente. Os temas surgem com naturalidade, embora uma vez ou outra haja que esforçar-se um pouco. A minha maior preocupação é não cair na monotonia nem na previsibilidade.

O senhor acompanha o fenômeno do Twitter? Acredita que a concisão de se expressar em 140 caracteres tem algum valor? Já pensou em abrir uma conta no site?

SARAMAGO: Nem sequer é para mim uma tentação de neófito. Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido.

No livro, no texto do dia 25 de novembro de 2008, o senhor revelou que jornalistas brasileiros, numa coletiva de imprensa, ficaram interessados em fazer perguntas sobre seu blog. Nele, o senhor escreve, sobre a internet: "Será que aqui, a bem dizer, nos assemelhamos todos? É isto o mais parecido com o poder dos cidadãos?". O senhor diz, ainda: "Não tenho respostas, apenas constato perguntas". Um ano depois, a resposta apareceu? O senhor considera a internet um espaço democrático e verdadeiramente livre?

SARAMAGO: Nada há que seja verdadeiramente livre nem suficientemente democrático. Não tenhamos ilusões, a internet não veio para salvar o mundo.

Já em 22 de outubro de 2008, o senhor escreveu sobre o romance “Budapeste”, de Chico Buarque: “Não creio enganar-me dizendo que algo novo aconteceu no Brasil com este livro”. Por que a literatura de Chico seria tão renovadora? O que o senhor pensa sobre o resto de sua obra E o senhor já leu o novo romance de Chico, "Leite derramado"?

SARAMAGO: Achei “Leite derramado” à altura do melhor que Chico Buarque tem escrito, embora, de todos os seus livros, continue a preferir “Budapeste”. A meu ver, a grande renovação operada por Chico Buarque deu-se ao nível da linguagem: o vernáculo toma o seu lugar ao lado do coloquial.

Em vários textos do livro, o senhor é crítico a figuras políticas: George Bush em 18 de setembro de 2008; Berlusconi em 19 de setembro de 2008 e em 13 de março de 2009; José Maria Aznar em 22 de setembro de 2008; o papa Bento XVI em 9 de outubro de 2008; Sarkozy em 6 de janeiro de 2009; e a própria "esquerda" é alvo de críticas em 1 de outubro de 2008. Mas há também textos esperançosos, sobretudo em relação à eleição de Barack Obama. Só que eu não me recordo de ter lido nada específico sobre o governo do Brasil. O que o senhor acha do presidente Lula?

SARAMAGO: Acho que o presidente Lula tem feito um excelente trabalho neste segundo mandato se aceitarmos como inevitáveis certas “infidelidades” ao seu programa inicial.

No dia 16 de novembro de 2008, o senhor escreveu, ao completar 86 anos: "Dizem-me que as entrevistas valeram a pena. Eu, como de costume, duvido, talvez porque já esteja cansado de me ouvir. O que para outros ainda lhes poderá parecer novidade, tonou-se para mim, com o decorrer do tempo, em caldo requentado". O senhor acha impossível ser surpreendido por alguma entrevista hoje? O jornalismo contemporâneo teria se tornado esse mar de obviedades? Existiria alguma pergunta que o senhor espere (e gostaria que) fosse feita, mas que nunca foi feita?

SARAMAGO: Creio que me fizeram todas as perguntas possíveis. Eu próprio, se fosse jornalista, não saberia o que perguntar-me. O mal está nas inúmeras entrevistas que tenho dado. Em todo o caso, tenho o cuidado de responder seriamente ao que se me pergunta, o que me dá o direito de protestar contra a frivolidade de certos jornalistas a quem só interessa o escândalo ou a polêmica gratuita.

Mesmo após a publicação do livro, o senhor segue atualizando seu blog. O senhor tomou gosto pela coisa? Pretende seguir ocupando esse espaço indefinidamente? Podemos esperar um “O caderno II” para breve?

SARAMAGO: Haverá um “O caderno II” ainda este ano, mas não me vejo a escrever blogs indefinidamente. Tem sido uma boa experiência, chego a mais leitores com mais rapidez, mas tudo acaba por cansar.

Ainda nos textos recentes do blog, no dia 13 de julho o senhor escreveu um post muito afetuoso sobre sua alegria em ser escolhido acadêmico correspondente da Academia Brasileira de Letras. Por que o Brasil é tão importante para o senhor? Qual sua memória mais antiga do país?

SARAMAGO: O Brasil é importante para qualquer português. Gostaria de nos ver mais unidos a trabalhar em assuntos de interesse comum, mas as políticas nacionais nem sempre se inspiram nas melhores razões. É uma pena que assim seja. As minhas memórias mais antigas são as da literatura, os nomes e as obras de Machado de Assis, Manuel Bandeira, Jorge Amado, João Cabral de Mello Neto, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos — tantos e tão grandes escritores, estes e outros, que fizeram da literatura brasileira um tesouro inesgotável.

Um documentário sobre sua relação com sua mulher, Pilar del Río, está sendo realizado, não? Em que fase está a produção? O senhor sempre me pareceu uma pessoa reservada em relação a sua intimidade, então por que aceitar que filmassem parte de sua rotina conjugal? Como foi abrir sua intimidade para uma equipe de filmagem? A proximidade com a câmera incomodou, provocou constrangimentos?

SARAMAGO: O documentário está na última fase da produção, é mesmo possível que o filme possa ser visto ainda este ano. Quanto ao resto, continuo a ser uma pessoa reservada. É certo que a abordagem escolhida aflora o delicado território dos sentimentos, mas sempre com discrição, a mesma que carateriza a nossa forma de viver. Quanto a isso da “rotina conjugal”, confesso que não sei exactamente de que se trata...

Fonte: O Globo-

terça-feira, 4 de novembro de 2008

O CAPITALISMO COMUNITÁRIO E A REPRESSÃO INTELECTUAL

(Luiz Carlos Azenha em seu site)


Estamos ingressando em uma nova fase da economia mundial. Um novo mundo. Você é testemunha. Qual é o nexo entre a fusão dos bancos Itaú e Unibanco, a crise econômica e o governo Lula?

A queda do muro de Berlim pôs fim à hegemonia soviética em um terço do planeta. A queda do muro de Wall Street pôs fim simbólico ao domínio unilateral dos Estados Unidos sobre o mundo.

Porém, a marcha para um super-capitalismo vem ininterrupta desde a ascensão de Ronald Reagan e Margaret Tatcher. O capitalismo dos monopólios e oligopólios que acumulam capital sob proteção estatal e com uma progressiva "flexibilização" dos direitos relativos ao trabalho. É óbvio que o governo Lula não é igual ao governo FHC. Mas a tendência central da precarização do mundo do trabalho segue adiante. Ela se deu nos países ricos e continua firme e forte nos países pobres.

O "socialismo do século 21", de Hugo Chávez; o capitalismo comunitário, na versão de inspiração jesuíta do bispo Fernando Lugo, no Paraguai; o "comunitarianismo" de Barack Obama apontam na mesma direção: o estado terá um papel importante para resolver as demandas entre o capital e o trabalho.

Em crise, haverá mais gente disputando menos recursos. A luta política se agudizará em todo o planeta. A criminalização dos movimentos sociais vai se aprofundar. O Jornalismo como atividade fim está em vias de extinção. Em países como o Brasil isso já está demonstrado: a mídia corporativa se tornou, acima de tudo, instrumento de luta política e comercial.

À repressão física, pura e simples, se juntará a "repressão intelectual". Os assassinatos de caráter são um exemplo extremado do modelo que veremos mais e mais. A condenação ao "ostracismo intelectual" será a pena mais grave imposta a gente que pensa. "Rotular e excluir" será o procedimento operacional padrão.

Usando como instrumento principal a internet, o You Tube e os vídeos capturados através de telefones celulares, os novos ativistas sociais deverão se organizar de forma não hierárquica e não centralizada em torno de plataformas políticas suficientemente amplas para atrair gente de todas as idades e origens ideológicas. Em defesa da liberdade de informação, de pensamento, de organização, de manifestação, contra o controle estatal da informação e pelo aprofundamento da democracia. A briga vai ser boa.

internet, democracia e eleições- Obama o candidato pós-rede

QUEM GANHOU? A INTERNET, DE GOLEADA

(Luiz Carlos Azenha em seu site)

Muitos de vocês, caros leitores, não acreditam quando eu escrevo alguma coisa sobre os Estados Unidos. Normal. Aceitável. Vocês precisam de confirmação externa para cair na real e dizer: pois é, o Viomundo acertou.

Escrevi um texto dizendo que uma vitória de Barack Obama representa a passagem do bastão de uma geração para a seguinte na política dos Estados Unidos. Você imagina o José Serra vendo um vídeo no You Tube? Imagina o Lula lendo os comentários em um blog? É lógico que se ambos não entendem nada de internet, nem de tecnologia, jamais vão tirar proveito real das novas mídias.

Enquanto isso, o mundo mudou. Você, que me lê, não perde a viagem. Se está aqui é por um motivo muito simples: é uma pessoa do seu tempo. Pois, para confirmar o que escrevi, lá vai a tradução de um texto publicado hoje pelo New York Times, na versão digital, já que não leio mais jornal de papel, não ouço rádio, nem assisto televisão:

"Penso que analisaremos esta eleição como uma disputa transformadora", disse Mark McKinnon, um assessor das campanhas do presidente Bush em 2000 e 2004. "O ano em que as campanhas usaram a internet como nunca se imaginou. O ano em que adotamos a velocidade da luz. O ano em que o paradigma foi virado de cabeça para baixo, que a política foi de baixo para cima em vez de cima para baixo".

De uma forma considerável, dizem republicanos e democratas, isso é resultado de como a campanha de Obama buscou entender e tirar proveito da internet (e outras formas da assim chamada nova mídia) para organizar militantes e atingir eleitores que não se informam primariamente através de jornais e da televisão. As plataformas incluem o You Tube, que não existia em 2004, e as mensagens de texto nos celulares que a campanha disparou na segunda-feira lembrando os eleitores de que deveriam comparecer para votar.

"Fizemos algumas coisas inovadoras, inclusive na internet", disse Sara Taylor, que foi diretora política da Casa Branca durante a campanha de reeleição de Bush. "Mas apenas 40% do país tinham internet banda larga então. Agora você tem gente que não tem mais telefone fixo em casa. E Obama fez um ótimo trabalho através da nova mídia".

"Não sei quanto a você, mas eu vejo um anúncio do Obama na internet todo dia. Fiz isso nos últimos seis meses".

Mais crucial ainda para demonstrar como a campanha deste ano transformou a política foi o uso que Obama fez da internet para construir uma grande rede de arrecadação financeira que permitiu a ele acumular dinheiro -- depois de rejeitar o financiamento público da campanha -- para expandir o mapa eleitoral e competir mesmo em estados republicanos tradicionais.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Tv Cultura transmitirá ao vivo o Prêmio jabuti 2008


Em projeto inédito, TV Cultura transmite Prêmio Jabuti 2008 ao vivo pela intenet

Além da transmissão ao vivo, hotsite vai oferecer sala de bate-papo para os internautas e galeria de fotos e vídeos das edições anteriores do Jabuti.

Pela primeira vez em 50 anos, a cerimônia de premiação do Jabuti será transmitida ao vivo pela internet. Numa parceria com a CBL - Câmara Brasileira do Livro, a TV Cultura desenvolveu um hotsite especial para a transmissão do evento na íntegra, desde a abertura, às 19h30 do dia 31 de
outubro, até o encerramento da festa. O internauta poderá acompanhar a festa por meio de link www.tvcultura.com.br/premiojabuti.

Além da transmissão, com cenas dos bastidores e entrevistas com os vencedores e convidados especiais, o hotsite terá uma sala de bate-papo, onde os internautas poderão fazer perguntas a autores e personalidades presentes ao evento. A página eletrônica vai oferecer, ainda, uma galeria de vídeos das edições anteriores, pertencentes ao acervo da TV Cultura, mostrando entrevistas com escritores, editores e personagens famosos que fazem parte da história do prêmio.

Na galeria de fotos, compostas por imagens do acervo da CBL, será possível contemplar os melhores momentos do Jabuti nesses 50 anos, desde quando a cerimônia era realizada na antiga sede da entidade, na avenida Ipiranga, até os anos mais recentes, já na Sala São Paulo. São fotos dos vencedores como Ziraldo, Lygia Fagundes Telles e João Ubaldo Ribeiro e registros históricos
como o encontro de Tatiana Belinky com Caio Fernando Abreu.
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Nos seus 50 anos, Jabuti registra sua história em livro





Nas últimas cinco décadas, o Prêmio Jabuti promoveu o que há de melhor na produção editorial brasileira, premiando escritores, editores, tradutores, ilustradores e designers. Agora, no ano em que completa 50 anos, o Jabuti terá sua história registrada em livro, com a lista dos vencedores nestas cinco décadas, encabeçada por Jorge Amado, premiado em 1958, na categoria romance, por Gabriela Cravo e Canela. O lançamento tem data marcada: 31 de outubro, às 19h30, na Sala São Paulo, em festa na qual os vencedores do Jabuti 2008 receberão suas estatuetas.

“Prêmio Jabuti – 50 anos” é uma co-edição da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e registra, em mais de 200 páginas de textos e fotos, a história completa do Jabuti. Com coordenação editorial da Memória e Identidade, o livro contextualiza o ambiente político e cultural no qual o prêmio foi criado, revela as motivações do prêmio que se tornou o mais importante da literatura brasileira, conta os bastidores da escolha do nome, acompanha as mudanças de formato e as premiações e traz depoimentos de presidentes e diretores que comandaram a CBL, além de alguns vencedores do Prêmio nesses 50 anos, como Eva Furnari e Zuenir Ventura.

Respeitado por autores, editores e livreiro, o Jabuti é sempre associado à qualidade. Como comenta seu curador, José Luiz Goldfarb, “o Prêmio projeta nossa língua-mãe, o português, com arte, criatividade, inspiração e recolhe ano a ano o ‘biscoito fino’ de nossa produção editorial”.

A história do Jabuti começa em 1957, em um período repleto de desafios para o mercado editorial, com recursos escassos e baixa articulação do segmento livreiro. Apesar das adversidades, não faltava entusiasmo aos dirigentes da Câmara naquela época. As discussões foram comandadas pelo então presidente da entidade, Edgar Cavalheiro e pelo secretário Mário da Silva Brito – dois intelectuais e estudiosos da literatura brasileira – e outros membros da diretoria do biênio 1955-1957 interessados em premiar autores, editores, ilustradores, gráficos e livreiros que mais se destacassem a cada ano.

Essas discussões em torno de uma “láurea” ou “galardão”, como se dizia na época, ganharam forma na diretoria seguinte, de 1957-1959, presidida por Diaulas Riedel, a quem coube a confirmação da escolha da figura do jabuti para nomear o prêmio e a realização de concurso para a confecção da estatueta, vencido pelo escultor Bernardo Cid de Souza Pinto.

A primeira premiação ocorreu também na gestão do presidente Diaulas Riedel. No final do ano de 1959, em solenidade simples e despretensiosa realizada no auditório da antiga sede da CBL na avenida Ipiranga, foi feita a entrega do primeiro Prêmio Jabuti. Foram laureados autores como Jorge Amado, na categoria Romance, pela obra “Gabriela, Cravo e Canela”. A Saraiva ganhou o prêmio de Editor do Ano.
O NOME
Mas por que um jabuti para nomear um prêmio do livro? A resposta, ainda que incerta, tem explicação no ambiente cultural e político da época, influenciado, sobretudo, pelo modernismo e nacionalismo, pela valorização da cultura popular brasileira, nas raízes indígenas e africanas, nas suas figuras míticas, símbolos seculares carregados de sabedoria e experiência de vida e legados de uma geração à outra. Sílvio Romero, Mário de Andrade, Monteiro Lobato e Luís da Câmara Cascudo, entre o final do século XIX e o início do século XX, foram pioneiros na pesquisa, no estudo e na divulgação dessa rica cultura popular.

E foi Monteiro Lobato, provavelmente, o mais prolífico na recriação literária das histórias desses personagens meio enigmáticos, meio reveladores e sempre sedutores do folclore nacional. Um desses personagens da literatura infantil de Lobato é, como se sabe, o jabuti. O pequeno quelônio, já familiar no imaginário das culturas indígenas tupi, ganhou vida e personalidade nas fabulações do autor das “Reinações de Narizinho”, como uma tartaruga vagarosa, mas obstinada e esperta, cheia de truques para vencer obstáculos, para enganar concorrentes mais bem dotados e chegar na frente ao fim da jornada. Com essas credenciais, ganhou também a simpatia e a preferência dos dirigentes da CBL. Eles o elegeram para inspirar e patrocinar um prêmio para homenagear e promover o livro.
JABUTI REVISITADO

Ao longo dos seus 50 anos o Jabuti passou transformações. No início, a cerimônia de entrega do Prêmio era feita na antiga sede da entidade, na avenida Ipiranga, depois passou a ser realizada durante as Bienais do Livro. Mas o Jabuti ganhou vida própria, e os diretores da CBL sentiram a necessidade de criar um evento proporcional à credibilidade que o Prêmio ganhou junto ao mercado editorial e à própria sociedade. Em 2003, ocorreu a primeira grande cerimônia de entrega das estatuetas, realizada no Memorial da América Latina. Nos últimos dois anos, a maior festa do livro do Brasil ganhou um dos espaços mais nobres da capital paulista – a Sala São Paulo.

O Prêmio Jabuti foi se transformando aos poucos. No Regimento Interno do Prêmio, criado em 1959, constam apenas sete categorias de premiação: Literatura, Capa e Ilustração, Editor do Ano, Gráfico do Ano, Livreiro do Ano e Personalidade Literária. Atualmente, são contempladas todas as esferas envolvidas na criação e produção de um livro, em um total de 20 categorias, passando pela tradução, ilustração, capa e projeto gráfico, além das categorias tradicionais como Romance, Contos e Crônicas, Poesia, Reportagem, Biografia e Livro Infantil. Por sua abrangência, o Jabuti é considerado o maior e mais completo prêmio do livro no Brasil.

Outra iniciativa que trouxe ainda mais glamour ao Prêmio foi a criação das categorias Livro do Ano de Ficção, em 1991, e Livro do Ano de Não-Ficção, dois anos depois, em 1993. Esses prêmios são revelados somente na noite da entrega das estatuetas e são o ponto alto do evento, em um momento de grande expectativa por todos os agentes do mercado editorial.
FATOS CURIOSOS



O livro de 50 anos do Jabuti traz ainda curiosidades. Em 2004, por exemplo, ano que registrou o maior número de obras inscritas (2.374), o vencedor do Livro do Ano de Ficção foi “Budapeste”, de Chico Buarque. A obra, no entanto, ganhou Menção Honrosa (3o lugar) na categoria Romance. “Houve um silêncio na platéia”, conta José Luiz Goldfarb, curador do Prêmio Jabuti. No dia seguinte, a mídia impressa também abriu espaço nas suas páginas para questionar o episódio. Como um livro que ficou em terceiro na sua categoria poderia levar o prêmio de Melhor Livro do Ano? “O que ocorreu, na verdade, é que os vencedores das 20 categorias são escolhidos somente pelos jurados e os Livros do Ano recebem também os votos do mercado editorial, sendo que o grande vencedor não necessariamente é o 1o colocado de uma categoria”, explica.

Polêmicas à parte, o fato é que o Jabuti tornou-se, nas palavras de Rosely Boschini, presidente da CBL, um “patrimônio nacional”. “Com obstinação e argúcia, à maneira do seu inspirador, o Prêmio Jabuti avançou sem esmorecer, ganhou agilidade e encarou uma longa jornada. Avançou, ganhou densidade e respeito, conquistou o reconhecimento de todos os que, no Brasil, produzem informação, conhecimento e arte, de todos os que escrevem, publicam e lêem livros. Tornou-se, ele próprio, um personagem vivo da cultura brasileira contemporânea”, destaca Rosely Boschini. Na maior festa do livro no Brasil, ganhar ou não o Prêmio, já não faz diferença. O importante é participar.


FICHA TÉCNICA
Coordenação de Pesquisa e Texto - Memória e Identidade Consultoria Ltda.
Supervisão - Beth Totini
Pesquisa - Cintia S. N. Berlini
Texto - Francisco Maria Pires Teixeira
Coordenação Editorial - Cecília Scarlach
Assistência Editorial - Viviane Vilela
Projeto Gráfico e Diagramação - Negrito Produção Editorial
Tratamento de Imagens - José Carlos Gomes da Silva e Leonídio Gomes
CTP, Impressão e Acabamento - Imprensa Oficial do Estado de São Paulo
Formato - 15,5 x 20 cm





Mais informações com Nora Ferreira / Marcelo de Andrade - Lu Fernandes Escritório de Comunicação - (11) 3814-4600

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

O que é pedagógico?

SOCIEDADE EM REDE

A revolução que a internet promove nas relações sociais afetará radicalmente as trocas de informações e conhecimentos. Como a pegadogia está lidando com estas mudanças? De que modo se dispõe a lidar com modos de aprender e ferramentas que estão se tornando universais?

Hernani Dimantas*

(02/08/2008)

O que é pedagógico? Não sou educador. Logo, não estou habilitado para falar sobre pedagogia. Por outro lado, quando penso na internet, mais especificamente nas redes sociais que emergem no espaço informacional, ou quando penso em inteligência coletiva, em capital social, em produção de subjetividade, enxergo as possibilidades que a cultura digital vem desvelar. Um impacto que atravessa toda a organização da civilização. E transforma radicalmente todas as áreas do pensamento humano.

A pedagogia também foi atingida. Assim, posso não entender de pedagogia. Mas, com certeza, a internet impacta absurdamente na forma de as pessoas aprenderem e ensinarem.

Neste sentido, parto das idéias que costumamos debater no MetaReciclagem [1]. Principalmente o processo de apropriação da tecnologia social. As redes sociais, sua topologia e conexões, ou aquilo que costumamos chamar de conectazes, em que a impermanência tem ação inequívoca na transformação social. Este processo tem sido inspirador de muitos projetos de inclusão digital no Brasil.

Essa apropriação tem mais a ver com a forma como as pessoas conversam na rede. Pessoas que conversam com outras pessoas. Uns que ensinam os outros. Uns que aprendem com os outros. Numa dinâmica que só é possível quando temos as redes sociais como plataforma pública.

Aprendizado e conhecimento são, como diz Seely Brown, resultados do "entrelaçamento de múltiplas forças: conteúdo, contexto e comunidade". Nas redes sociais, essa ecologia está sempre presente.

Bem, pelo menos para mim esta é a maneira por meio da qual nos alimentamos da conectividade. Aprendo muito navegando pelo conhecimento livre que encontro pelo meu caminho. John Seely Brown diz: "o que sabemos agora que não sabíamos há dez anos? O aprendizado e o conhecimento são resultados do entrelaçamento de múltiplas forças: conteúdo, contexto e comunidade". Nas redes sociais encontramos essa ecologia da aprendizagem.

Minhas dúvidas são reveladas na rede. Nos fóruns, em listas, encontro aquilo que outras pessoas estão fazendo. Pessoas postam dúvidas. Outros postam soluções. As pessoas blogam sobre diversos temas. Já li coisas lindas em blogs. As conversas das multidões hiperconectadas.

Logo, ensinar nessa realidade pressupõe conhecer as entranhas da rede. Pois quando as pessoas estão conectadas elas procuram outras pessoas para conversar. Querem estar no Orkut, bater papo no MSN, buscar aquilo que é relevante para cada um.

Não sei como a pedagogia está lidando com essas novas variáveis. Este é um grande desafio. Entretanto, como afirmei, nada entendo de pedagogia. Mas fui conferir no dicionário, e ele me diz que pedagogia "é a ciência que estuda os problemas relacionados com o seu desenvolvimento como um todo; é o conjunto de métodos que asseguram a adaptação recíproca do conteúdo informativo aos indivíduos que se deseja formar".

E mesmo a ortodoxia dicionarística só explicita o que fazemos na prática: o "desenvolvimento como um todo", a "adaptação recíproca do conteúdo informativo". Ou seja: não entendo de pedagogia, mas entendo desse fuzuê cibernético. E nessa composição estamos prontos para conversar.

Mais:

Hernani Dimantas assina, no Caderno Brasil, a coluna Sociedade em Rede. Edições anteriores:

Diferentes platôs
Nossa sociedade vive em diferentes platôs. São muitas redes que se interconectam. Formam as redes de informação. O que é físico torna-se virtual e, catalisado, retorna ao físico gerando ações interligadas. O desafio é entender a rede como um movimento múltiplo

Sobre conversas e revoluções
Longe das baboseiras impostas como grandes verdades, estamos rompendo paradigmas, modificando a economia e o trabalho, mostrando que, fora do capitalismo selvagem, existe inteligência. Tem gente que acha isso utopia. A nossa utopia! Eu creio, tu crês ser realidade... só por prazer

O paradoxo do real
Somados os percursos, teremos reconstituído uma pluralidade de mundos dentro de um mesmo e único mundo. Ou como escreveu Borges: "... sentia que o mundo é um labirinto, do qual era impossível fugir, pois todos os caminhos, ainda que fingissem ir ao norte ou ao sul, iam realmente a Roma"

A era das trocas par-a-par
Na virada do século, o desenho das redes na internet passou por uma grande transformação. Ao invés da subordinados a um servidor, os computadores e seus usuários passaram a falar uns com os outros. A mudança abriria um leque de possibilidades — inclusive no terreno da Educação

A cultura hacker
Confundidos propositalmente, pelo pensamento conservador, com invasores de rede, hackers somos todos os que agimos para que informações, cultura e conhecimento circulem livremente. E esta ética de cooperação, pós-capitalista, vai transbordando do software livre para toda a sociedade

Em busca da ativação
Desenvolvido desde 2002, método simples e instigante quebra barreiras em relação às redes sociais on-line e cria, em comunidades e instituições, ambientes de colaboração e compartilhamento. Prática revela como é tênue a diferença entre a presença "virtual" e a que se dá "em carne e osso"

Caminhos da revolução digital
Apesar de dominante, o capitalismo não consegue mais sustentar a lógica de acumulação e trabalho. Seus principais alicerces — a economia, a ética burocrática e a cultura de massas — estão em crise. Com a internet florescem, em rede, novas formas de produzir riquezas, diálogos e relações sociais

O desafio do Open Social
Em nova iniciativa supreendente, o Google sugere interconectar as redes sociais como Orkut, Facebook e Ning. Proposta realça sucesso dos sistemas que promovem inteligência coletiva e convida a refletir sobre o papel da individualidade, na era da colaboração e autorias múltiplas

Multidões inteligentes e transformação do mundo
Esquecidas na era industrial, mas renascidas com a internet, as redes sociais desafiam a fusão entre o poder e o saber, permitem que colaboração e generosidade sejam lógicas naturais e podem fazer da emancipação um ato quotidiano

Por trás dos links, as pessoas
Há dois séculos, a ciência descobriu e passou a analisar as redes. Há vinte anos, elas estão revolucionando o jeito de a sociedade se relacionar consigo mesma

[1] Para saber mais sobre MetaReciclagem, visite http://rede.metareciclagem.org/ (site em fase de reorganização

domingo, 27 de abril de 2008

Internet: fatos e boatos

Em setembro do ano passado li um artigo que me deixou preocupada.

Grosso modo, ele afirmava que a geração atual acredita mais em informações repassadas por mails ou lidas em blogs pessoais (especialmente de amigos) do que em sites institucionais e/ou mídia impressa corporativa. Pode ser interessante por um lado na medida em que não é porque um veículo de comunicação é institucional que ele é portador da verdade, mas é perigoso por outro lado na medida em que se acredita na informação porque foi repassada por um/a amigo, pondo-se de lado o espírito crítico e contribuindo para ampliar a crença e o aumento da disseminação de hoax. O último que vi circulando e repassado por vários amigos, inclusive professores foi um que dizia que o governo inglês, por pressão dos muçulmanos, havia eliminado do currículo da educação básica a temática do Holocausto.

Nem sempre temos temos para fazer uma pesquisa e checar se a informação que recebemos é verdadeira ou não, um bom conselho nesses casos é não ajudar a disseminar o que pode ser falso.

A geração de nossos alunos é uma geração que pela tecnologia disponível fala menos e escreve mais (mesmo que seja o internetês) via torpedo, msn, scrapbooks, comunidades virtuais e blogs.


A Internet é uma realidade para essa geração especialmente nas áreas urbanas e cada vez mais até mesmo nos pequenos municípios por meio dos telecentros ou das lanhouses.

Minha filha de 12 anos até desenhos aprende a fazer usando tutoriais disponíveis no youtube e domina muito mais o uso de softwares que eu. Os educadores pesquisadores já estão estudando mudanças cognitivas expressivas nessa geração da era da Internet.


Acredito que o mundo adulto, que como diz Hannah Arendt, é responsável (queira ou não) pela educação dos jovens, especialmente o mundo adulto da rede e, em especial, o da blogosfera contribuiria muito se moderasse o 'denuncismo', o linguajar virulento e muitas vezes estereotipado contra seus inimigos políticos e ideológicos, enfim, se criasse uma ética e uma etiqueta na rede que fosse capaz de servir como um modelo de comunicação de maior civilidade para a juventude. Queiramos ou não, muito de nós, especialmente os jornalistas e blogueiros mais atuantes, viraram referências e deveriam dobrar seus cuidados ao transmitir seus discursos.

A propósito, sobre essas problematizações, reproduzo um artigo de opinião do jornalista Luiz Carlos Azenha que, a meu ver, com o seu trabalho jornalístico vem contribuindo para manter um espírito crítico em relação à mídia corporativa e no mundo da blogosfera:

Internet: quando a crença se sobrepõe aos fatos
(27/04/2008- 12:48)

Luiz Carlos Azenha


aeroporto de Mariscal Estigarribia, Paraguai.


WASHINGTON - De acordo com o Washington Post deste domingo, o site Urban-Dicitionary.com acrescentou recentemente um verbete: "desinformação colateral." E explicou: "Quando alguém altera um artigo da Wikipedia para vencer um argumento específico, quem quer que tenha lido o artigo falsificado antes que o 'erro' tenha sido corrigido sofre de desinformação colateral."

A Wikipedia é a enciclopédia digital que qualquer internauta pode ajudar a escrever ou editar. De acordo com o jornal, quando um estudioso da Hoover Institution fez uma busca no Google sobre 100 temas da História dos Estados Unidos, os tópicos da Wikipedia apareceram em primeiro lugar 87 vezes. A confirmação de que existe uma geração de americanos que trocou a biblioteca pelas consultas na internet.

A reportagem vem acompanhada de uma tabela de fatos: a versão em inglês da Wikipedia tem 2.340.000 verbetes, contra 120.000 da Enciclopédia Britânica online. Pessoas que usaram a busca para resolver problemas relacionados ao governo: 57%. Pessoas que contataram o governo: 34%. Adultos que usam a Wikipedia como fonte regular de informação: 36%. Entrevistados que acreditam mais no conteúdo online do que em outras fontes: 13%. Número de vezes que o verbete "verdade" foi alterado na Wikipedia em uma semana: 11. Resultados da busca "HIV não causa AIDS" no Google: 16.000.

A reportagem do Washington Post fala do lançamento do livro "True Enough: Learning to Live in a Post-Fact Society", em que o autor diz que estamos vivendo o período da "ascendência cultural da crença sobre o fato."

O fato de que um texto esteja impresso no papel não faz dele fonte mais confiável, digo eu. Porém, é importante considerar que o processo de produção de informação foi acelerado pela internet. O copy and paste reina e a internet permite que um boato circule o mundo com uma rapidez inimaginável no século 20.

Hoje, intelectuais, escritores, historiadores e jornalistas de todas as cepas acreditam que existe, no Chaco paraguaio, uma base militar dos Estados Unidos, no aeroporto de Mariscal Estigarribia. Quem se baseia em consultas na internet pode obter, em inglês, espanhol e outros idiomas, mais do que duas fontes para sustentar esse "fato". Porém, como pude constatar pessoalmente, a pedido da revista Carta Capital, a base não existe, nem instalações capazes de receber milhares de soldados estadunidenses. Trata-se de um gigantesco aeroporto, sim, mas vazio. Podemos especular à vontade a respeito do futuro uso dele, mas o fato é que, atualmente, não abriga militares dos Estados Unidos.

Neste caso específico podemos dizer que a crença se sobrepôs aos fatos.