Bem-vindo/a ao blog da coleção de História nota 10 no PNLD-2008 e Prêmio Jabuti 2008.

Bem-vindos, professores!
Este é o nosso espaço para promover o diálogo entre as autoras da coleção HISTÓRIA EM PROJETOS e os professores que apostam no nosso trabalho.
É também um espaço reservado para a expressão dos professores que desejam publicizar suas produções e projetos desenvolvidos em sala de aula.
Clique aqui, conheça nossos objetivos e saiba como contribuir.
Mostrando postagens com marcador continente africano. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador continente africano. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A emersão da África

28/10/2009

por Mauro Santayana, no JB Online

Como tudo começou na África, é provável que na África se complete o destino humano. Os primeiros seres humanos surgiram ali. As alterações em sua aparência foram provocadas pela graduação da latitude terrestre, para onde migraram os grupos nômades. No Norte da África nasceram os assentamentos agrícolas e uma singular e pioneira civilização, a dos egípcios, no Vale do Nilo.

Durante muitos séculos, com o desenvolvimento da civilização hindu e chinesa na Ásia, e a do Mediterrâneo, que construiria o que chamamos Ocidente, a África Negra ficou isolada. Os europeus a redescobriram durante as grandes navegações, mas dela se aproveitaram na crueldade da exploração colonialista e no comércio de escravos.

Em Roma, no último fim de semana, os 247 bispos e 14 cardeais católicos da África falaram ao papa em uma linguagem nova. Durante as três semanas de deliberações, no Sínodo que os reuniu, os prelados negros assumiram o discurso antiglobalizador e atacaram claramente a política financeira mundial. O documento final aponta as consequências dessa situação, ou seja, as guerras e os conflitos, crises e caos. E critica, com vigor, “as decisões e atos de pessoas que não têm qualquer consideração pelo bem comum na cumplicidade trágica entre os responsáveis locais e os interesses estrangeiros”.

O arcebispo Onaiyekan, de Abuja, na Nigéria, foi firme e conciso: “Não posso imaginar que a British Petroleum, a Shell ou a Mobil façam, no Mar do Norte ou no Texas, o que fazem no delta do Rio Níger”. Os prelados acusaram também a Organização Mundial do Comércio, que sufoca a agricultura e a indústria locais, impedindo a autossubsistência. Os participantes defenderam a versão africana da Teologia da Libertação, elaborada por dois teólogos da República dos Camarões, o jesuíta Engelbert Mweng e seu discípulo Jean Marc Ela.

A esperança da Igreja se encontra nos países africanos e asiáticos, onde o catolicismo cresce, enquanto míngua na Europa e nos Estados Unidos, enquanto as seitas pentecostais crescem na América Latina. De acordo com o Vaticano, nos últimos dez anos, o catolicismo africano cresceu sete vezes mais. Inverte-se o fluxo histórico de sacerdotes. Hoje, na Itália, sede do Vaticano, 30% das paróquias contam com sacerdotes extracomunitários, na maioria procedentes dos países ao sul do Saara. A Igreja está enviando também ao Brasil sacerdotes asiáticos e africanos. Dentro de dez anos, segundo se calcula, um quarto dos habitantes da África será de batizados, enquanto na Europa não passam de 20% os que receberam o sacramento.

Há novo avanço estrangeiro sobre a África, sobretudo dos chineses. Mas se desenha, no tempo, nova aliança atlântica, bem distinta da que se formou ao norte, para a defesa do capitalismo ocidental, com a Otan. Essa aliança do Atlântico Sul, reunindo a África e a América Latina, se institucionaliza, em primeiro lugar, com a ação diplomática do governo brasileiro. O Atlântico sempre foi, mesmo nos tempos coloniais, o nosso mar comum, quando Luanda era o espelho de Salvador. Nosso entendimento com os africanos é favorecido por uma história compartilhada, a partir da fatalidade do colonialismo. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, iniciativa de José Aparecido de Oliveira, é hoje o instrumento para a intensificação de nossas relações econômicas e culturais com o continente, a partir de Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Essa é a grande oportunidade para uma associação que pode afastar preconceitos antigos e contribuir para nova idade histórica.

O catolicismo romano se fez no sincretismo da teologia pagã com a mensagem do Evangelho. Nós temos, no Brasil, o rico amálgama do animismo africano com o catolicismo, ainda que a hierarquia se esforce em desconhecê-lo, quando não em condená-lo. Ver Deus em todas as suas criaturas – e, por que não, em todas as manifestações da transcendência – é um bom caminho para a paz. Os fariseus tinham uma pergunta para desdenhar a pregação de Cristo: “Pode alguma coisa boa vir de Nazaré?”.

É provável que alguém pense a mesma coisa da corajosa palavra dos bispos negros em Roma, embora o racismo seja o mais anticristão dos sentimentos.

A sobrevivência da Igreja Católica depende da Teologia da Libertação, na África e na América Latina, única forma de devolver os pobres a Cristo, e Cristo aos pobres.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Luiz Carlos Azenha, diretor de Nova África fala sobre a série

Nova África: série da TV Brasil dá voz aos africanos e retrata diversidade do continente

Publicado em 18 de setembro de 2009

A série Nova África, incluída na nova programação da TV Brasil, mostra imagens e histórias do continente africano que pouca gente viu ou ouviu. “Falar em África como um todo é tão impróprio quanto falar em América Latina desconhecendo que ela inclui desde o Uruguai até Barbados. Por isso o nome: Nova África. Uma nova forma de ver a África”, define Luiz Carlos Azenha, jornalista responsável pela série de 26 episódios que será exibida toda sexta-feira a partir de 25 de setembro, às 22h, na TV Brasil. “A cada semana, uma surpresa”, promete o jornalista, para acrescentar: “ Tentamos romper com o tom condescendente ou folclórico que é comum nas reportagens de brasileiros sobre a África”.

Confira a entrevista que Azenha concedeu à equipe da TV Brasil.

TV Brasil - A ideia do Nova África é mostrar uma África diferente. O que isso quer dizer?
Luiz Carlos Azenha - A África que conhecemos foi "inventada" pelos europeus. A ocupação física do continente se deu num quadro de disputa entre as potências européias e da expansão da evangelização cristã. "Comércio, cristianismo e civilização" eram os 3 cês conjugados pelos colonizadores. Nasceu daí a idéia da África "bárbara", "selvagem", do "continente negro" como lugar da perdição. Foi preciso apagar a história da África para inventar um continente à imagem e semelhança da Europa, mas para poucos. Muito embora essa visão racista da África tenha desaparecido do discurso oficial, os preconceitos persistem em pleno século 21. A África "não dá certo", é vista como símbolo do atraso, da decadência e da corrupção. Nós pretendemos romper com esse paradigma de ver a África através de lentes européias. Em primeiro lugar, deixando que os próprios africanos falem sobre si, não "especialistas" que nunca puseram o pé no continente. Em segundo lugar mostrando que o continente é bastante complexo e que falar em África como um todo é tão impróprio quanto falar em América Latina desconhecendo que ela inclui desde o Uruguai até Barbados. Por isso o nome: Nova África. Uma nova forma de ver a África.


TVB - Como será a estrutura do programa?
LCA - Cada programa tem 26 minutos, grosseiramente divididos em dois blocos. Fazemos roteiros terrestres, viagens de descoberta, especialmente por regiões remotas dos países que visitamos. Começamos em Moçambique, passamos pela África do Sul, Botsuana e Namíbia. Em seguida, Ruanda e Congo. Existem fios condutores em cada um dos programas. Em Moçambique, mostramos a força da cultura dos macua, que mantiveram suas tradições apesar da escravidão, do colonialismo e da guerra civil. Na África do Sul, mostramos como pouco mudou no campo desde o fim do apartheid: as terras continuam concentradas na mão de 60 mil fazendeiros brancos e os negros que migraram para as cidades entram em conflito com imigrantes negros que vem de países da região.Em Botsuana mostramos a disputa entre homens e elefantes pelo uso da água e das terras.

TVB - Quais temas serão tratados nos episódios?
LCA - Nos programas temáticos falaremos, por exemplo, de como o português do Brasil - que chega pela TV, especialmente pelas novelas - foi incorporado ao cotidiano dos países de língua portuguesa; da disputa pelos recursos naturais à qual se incorporaram mais recentemente chineses, indianos e brasileiros; discutiremos até que ponto a "ajuda externa" à África é, de fato, ajuda.

TVB - Que histórias dos programas já gravados você destacaria?
LCA - Fomos ao famoso Grande Hotel da Beira, em Moçambique, que já foi um símbolo do império colonial português na África, hoje ocupado por cerca de 800 famílias. Fomos ao parque nacional do Chobe, em Botsuana, onde a maior concentração de elefantes no planeta disputa terras com os fazendeiros. Fomos às cachoeiras de Epupa, no rio Cunene, fronteira de Angola e Namíbia, mostrar a tradição ameaçada do povo himba. Apenas na primeira viagem fizemos 6 mil km de jipe atravessando quatro países, o que resultou num material riquíssimo. A segunda viagem começamos em Bruxelas, na Bélgica, país que enriqueceu graças à borracha extraída do Congo. Ou seja, fazemos reportagens historicamente contextualizadas, que estamos certos terão grande serventia para estudantes e professores que quiserem ensinar sobre a África.

TVB - O que o telespectador da TV Brasil pode esperar do Nova África?
LCA - Estamos prometendo uma surpresa por semana. Os programas estão bem diferentes uns dos outros. Não é por acaso. Tentamos romper com o tom condescendente ou folclórico que é comum nas reportagens de brasileiros sobre a África. Os montadores fazem um trabalho muito mais próximo do cinema que da TV. E a repórter Aline Midlej faz uma viagem de descoberta pessoal em busca das raízes da família dela no continente. A gente espera que o telespectador se surpreenda tanto quanto a Aline se surpreendeu até agora.

Nova África estreia no dia 25 de setembro, às 22h.

domingo, 20 de setembro de 2009

Maurício Caleiro: analisa a série Nova África

Abaixo, reproduzo a leitura acurada do jornalista, cineasta e professor da UFF (Universidade Federal Fluminense) Maurício Caleiro sobre a série Nova África.

Tomei a liberdade de 'roubar' seu post inteiro para cá.

Visitem o blog do Caleiro é uma viagem à parte: Cinema e outras artes

E deixo aqui meus agradecimento ao Maurício pela sensibilidade e delicadeza ao analisar o nosso trabalho, grande abraço.

Conceição Oliveira

Domingo, 20 de Setembro de 2009

"Nova África" mostra excelência da TV pública

Internacionalmente, a imagem da África oscila entre estereótipos como “o continente perdido” e metáforas como o “coração das trevas” de que fala Joseph Conrad – uma região alijada do chamado desenvolvimento capitalista, devastada pela peste, miséria e demais efeitos dos séculos de exploração colonial, habitada por populações cuja sobrevivência dependeria de campanhas humanitárias.

Para o Brasil, apesar de toda a imensa herança que, como elemento formador - e a partir do legado cruel da escravidão -, nos deixou, ela continua sendo um grande enigma. É precisamente esse enigma que a série Nova África, em exibição a partir do próximo dia 25, todas as sextas-feiras, às 22hs, na TV Brasil, tenta desvelar.

Dirigida pelo jornalista e blogueiro Luiz Carlos Azenha e por Henry Daniel Ajl, a série se propõe a empreender uma “jornada de descoberta”, inédita na TV brasileira, pelo continente africano, revelando-o em sua diversidade, para além dos tais estereótipos imperialistas, com uma atenção especial a seus povos e culturas e à capilaridade de suas relações com o Brasil.


Primeiro programa enfoca Moçambique

Essa jornada começa em pleno mar, que a um tempo une e separa Brasil e África e ocupa um lugar central no imaginário artístico de boa parte da produção desses dois gigantes periféricos tão perto e tão longe entre si. Um barco navega no Oceano índico, que separa o continente africano da ilha de Moçambique, tema do primeiro programa da série de 26 episódios produzida pela Baboon Filmes, que venceu edital público da TV Brasil.

A estratégia narrativa desenhada pelo roteiro permite, a um tempo, retratar a África a partir da perspectiva dos africanos – evitando abordagens condicionadas por um vício imperialista que, como aponta o escritor moçambicano Mia Couto, tem produzido uma imagem falsa do continente – e garimpar os veios de ligação da cultura africana com a brasileira. A primeira operação é propiciada não apenas por entrevistas que evitam as fontes oficiais e interagem da forma mais espontânea possível com o interlocutor, mas por um olhar atento, cúmplice (imerso, e não de fora) ao modo de vida nos países percorridos.

Já a ligação do continente com o Brasil é uma teia tecida de forma sutil e intermitente, num primeiro nível através da repórter Aline Midlej, que já no episódio inicial, em solo africano, declara: “Como muitos brasileiros, tenho dúvidas sobre minhas raízes. Sei que alguns de meus antepassados familiares saíram daqui, e é tudo. É como se minha história familiar se perdesse na imensidão do continente”. E, enquanto imagens em sucessão mostram cenas de um cotidiano que bem poderíamos reconhecer como o de muitas pessoas no Brasil – mas que não deixam de ter um quê especial - a ligação com o continente deixa de se dar a partir da subjetividade da repórter e se anuncia coletiva: “mas qualquer um é capaz de reconhecer esse ritmo, esses sorrisos, esse jeito de ser”.

Num segundo e mais explícito nível, a ligação África-Brasil é objetivamente tematizada pela abordagem narrativa. No primeiro episódio, por exemplo, isso se dá tanto através de uma reconstituição "subjetiva" da chegada à Ilha de Moçambique do navio Nossa Senhora da Conceição, que em 1792 levou sete dos "inconfidentes" mineiros - cujas penas capitais foram comutadas por degredo em colônias portuguesas. Entre eles, Tomás Antônio Gonzaga, o autor de Marília de Dirceu, que prosperaria em terras africanas. Por vezes, o dualismo África-Brasil é superado pela evidência de uma cultura pan-portuguesa, como na ligação entre Camões (que morou em Moçambique, numa casa semi-arruinada visitada pelo documentário) e a poética luso-brasileira. Mas o momento climático do primeiro episódio se dá através do relato emocionado de uma moçambicana de sua relação com as novelas brasileiras.

Assim, evidencia-se que mais do que o continente em si, são as mulheres e os homens africanos e a cultura – na acepção ampla do termo – que produzem o centro do interesse de Nova África. O documentário, desse modo, não apenas possibilita o contato com uma realidade sócio-cultural da qual a grande mídia nos mantém afastados, mas o faz em grande estilo: com imagens belas mas jamais folclóricas, conteúdo rico em sua diversidade e curiosidade antropológica. Como o demonstra o relato de Conceição Oliveira, que prestou consultora de História à produção:

“No segundo programa, no interior de Moçambique, encontramos a professora Diamantina embaixo de um cajueiro. Era sábado, dia de entrega de material. A cena é fabulosa, passávamos pela estrada e vimos uma roda imensa de crianças ao redor do cajueiro, protegidas do sol pela copa da árvore. Ela dá aula sozinha para 360 alunos em condições distantes da ideal - e não precisa dar um grito para ter atenção. Foi uma lição de vida para todos... Você vai se emocionar, as crianças cantaram lindamente para nós, chorei. Aliás, as crianças de Moçambique me emocionaram sempre”.

Excelência técnica e imersão emocional

A direção de fotografia da série (Markus Bruno) não pode ser considerada menos do que primorosa: gravações tecnicamente bem-resolvidas, mas feitas no calor da hora, no melhor estilo jornalístico, combinam-se a tomadas que evidenciam um cuidado extremo não apenas com angulações, movimentos de câmera e composições de quadro, mas em trabalhar a luz – no mais das vezes intensa e natural – de modo a realçar o universo multicolorido do continente sem folclorizá-lo.

Tais imagens são trabalhadas por uma montagem que é ágil sem jamais ser neurótica e “videoclipada”, como ora em voga: respira, tem ritmo; não se furta a compor mosaicos com imagens em profusão, mas respeita a relação com o objeto retratado, não hesitando em se deter em determinada tomada por um tempo mais longo, se conveniente. E, embora a ficha técnica não elenque sound design ou montagem de som entre seus quesitos, o som é tratado com especial atenção, seja em relação à imagem, como elemento de condução da narrativa ou exercendo a função de realçar à riqueza musical da África. Trata-se de um aspecto técnico tratado com um apuro raro de se observar em produções jornalístico/documentais da TV brasileira.

Desnecessário dizer que as manifestações sonoras retratadas são, literalmente, um show à parte – valorizado, no caso, pela trilha sonora e pela mixagem de Rafael Gallo. É na música e na dança, mais do que em qualquer outra arte, que a excepcional aptidão artística dos africanos se evidencializa, como manifestação de uma alegria que não sem frequência contrasta com a escassez material em volta:

“Voltei com a sensação de que se há um continente onde seus povos são sinônimo de resistência é o africano. Foi uma das experiências mais marcantes da minha vida como pessoa, estudiosa do assunto, como mulher – afirma Conceição, que promete postar em seu blog algumas histórias sobre a empreitada e “pôr no ar algumas fotos dos sorrisos mais lindos que vi na vida” (o primeiro texto já esta lá, confira).
Um tema tão raras vezes visto nas telas brasileiras, tratado com tamanha sensibilidade e alto grau de excelência técnica, prova a que veio uma TV pública que foi injusta e impiedosamente combatida por certos setores da mídia e pelas penas de aluguel a seu serviço. Pois, caro(a) leitor(a), não se deixe iludir: nenhum canal comercial ousaria produzir uma série com tamanha qualidade, que se estendesse por tanto tempo e sobre um assunto sem apelo comercial para os grandes anunciantes - porém, como a própria série demonstra, essencial para uma melhor compreensão não apenas da África e dos africanos, mas, através dela, do que somos nós: é a TV pública brasileira dizendo a que veio.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

NOVA ÁFRICA: Com pés, olhos, mentes e corações na África

Sexta-feira, 25 de setembro, às 22 hs estréia na TV Brasil a série Nova África

por: Conceição Oliveira


Compreender a África é sumamente um exercício crítico. Uma das suas metas aponta para o desvendamento de realidades encobertas por mitos, ficções e imagens fantasiosas. Indiscutivelmente, ainda que existam visões estereotipadas cultivadas contra outros povos e regiões, a África, mais do que qualquer outro continente, terminou encoberta por um véu de preconceitos que ainda hoje marcam a percepção da sua realidade. (Maurício Waldman, 2006)



Na minha África moçambicana a esperança nos olhos dos pequeninos: crianças de Beira, província de Sofala, Moçambique, voltando da escola, junho de 2009.


Desde a graduação, estimulada e sob orientação da professora Maria Odila e depois da professora Siívia Lara, professor Bob Slenes, professor Sidney Chalhoub, professora Clementina Cunha e, mais recentemente, professor Carlos Serrano, professora Anita Morais, professora Rejane Vecchia a importância dos negros na história de nosso território, assim como a história do continente africano despertaram e ainda muito me interessam.

Ao longo desses mais de 20 anos, às reflexões acadêmicas somaram-se o ativismo na luta contra o racismo e na luta pela inclusão plena à cidadania da população negra brasileira. Por meio do trabalho de formação dos professores, do trabalho de pesquisa e escrita das coleções didáticas de história, por meio dos blogs sempre focando a educação pautada na igualdade étnico-racial e, principalmente para que a 10639/03 se torne realidade em nossas academias e na Educação Básica.

Por isso, foi com imenso prazer e, ao mesmo tempo, ciente do enorme desafio que nos cabia que aceitei o convite do meu amigo, mas antes de tudo, do jornalista sério e responsável que é Luiz Carlos Azenha, para compor esta pequena equipe, formada pela produtora Baboon Filmes, para disputar o Edital da TV Brasil (leia-o aqui e aqui veja a apresentação da equipe no site do Vi o mundo).

Meninas Macua da Ilha de Moçambique fazem graça, chamam a atenção e posam para as minhas lentes. Deixei a ilha chorando. Um misto de emoção, saudades, encantamento e solidariedade invadiu-me.


Não é um trabalho fácil desconstruir inúmeros estereótipos sobre o continente africano reafirmados ao longo de séculos e vencer os inúmeros silêncios aos quais os próprios africanos foram submetidos. Nossa tarefa será dar conta em 26 programas de 26 minutos cada, divididos em dois blocos, de alguns aspectos que nos foram revelados durante as viagens.

Nova África é acima de tudo uma série jornalística que dá voz e vez aos africanos para que eles próprios falem de seus problemas e soluções. Tocaremos em feridas, problemas de diferentes ordens serão tratados ao longo da série, mas sem perdermos a perspectiva de que os africanos são sujeitos da história, não formam um bloco único e homogêneo nem em termos étnico-culturais, nem políticos, nem econômicos.

Acredito que ao conhecer um pouco mais sobre os diferentes países que visitamos e ainda iremos visitar, o público brasileiro também se impressionará com a enorme capacidade de resistência dos povos africanos.

Na ilha de Moçambique eu, a jovem Maconde Ana com suas irmãs menores e a repórter da série Nova África, Aline Midlej.

Aos ver os programas da série vocês conhecerão diferentes atores sociais deste continente: homens e mulheres trabalhadores, ativistas, artistas plásticos, políticos, escritores, cantores etc.

Em minha opinião, temos muito a aprender com a professora Diamantina que vive no Alto Ligonha, na província da Zambézia, Moçambique. Ela dá aulas, em salas rurais com teto de palha e bancos de madeira quase na altura do chão e, muitas vezes, debaixo do cajueiro para 360 alunos! Ela consegue ensiná-los com uma doçura que nos comove.


Alunos da professora Diamantina, Alto Ligonha, Zambézia, Moçambique, junho 2009.

Temos muito a aprender com a adolescente Belquiça, uma garota Macua da Ilha de Moçambique, que além de ótima aluna, neta carinhosa, dedica parte de seu tempo a tocar um projeto de rádio comunitária e educativa falando dos principais problemas que afetam a população da Ilha.

Seu Germano de Quelimane, cidade nascida em um dos braços do delta do rio Zambeze, por onde passou Vasco da Gama a caminho para as Índias, lembra-me a famosa frase de Euclides da Cunha, mas revisitada: “O africano é antes de tudo um forte”. É preciso ser portador de uma resistência hercúlea para tocar a vida em um país que foi sangrado por séculos por um colonialismo predador, depois achacado por 16 anos de guerra civil violenta e ainda assim tocar a vida, fazendo a diferença.

Nesta nova série eu espero que você aprenda o tanto que aprendi ao visitar e conhecer de perto homens e mulheres como eu e você, crianças e adolescentes como nossos filhos e alunos que, na “África Contemporânea, independentemente da frágil legitimidade de muitos Estados africanos, das suas subvalorizadas economias formais e dos seus simulacros de autoridade institucional, agarram-se à vida e à esperança, ignorando prognósticos negativos e sobrevivendo à margem de instituições, organismos e poderes que procuram acorrentá-los.” (Serrano, 2007:35)

Beleza teu nome é infância. Crianças Macua da Ilha de Moçambique, indo para a escola, junho 2009.

Espero que a série Nova África consiga despertar em você a vontade de ler, estudar e conhecer mais sobre este continente que nos é tão próximo, mas ao mesmo tempo tão desconhecido. Lembrando ainda o cuidado que devemos tomar neste esforço de conhecimento/reconhecimento do continente africano, como nos alerta o professor angolano Carlos Serrano: “para além de mero ato de vontade, a desconstrução das imagens negativas do continente faz-se com estudo, conhecimento e compreensão atentos à sua personalidade histórica, geográfica e cultural específica. (Serrano, idem, ibidem)


Assista o clip do programa de abertura da série e aqui conheça a equipe que faz a Nova África.



Veja a chamada da TV-Brasil para a série: