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sábado, 29 de maio de 2010

Qual a melhor saída para o desenvolvimento da África?

De acordo com o secretário-geral da comunidade que envolve 14 países do continente, é criar condições internas deixando de depender tanto da ajuda dos países mais desenvolvidos. Uma das referências dele é o Brasil.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

NOVA ÁFRICA: Com pés, olhos, mentes e corações na África

Sexta-feira, 25 de setembro, às 22 hs estréia na TV Brasil a série Nova África

por: Conceição Oliveira


Compreender a África é sumamente um exercício crítico. Uma das suas metas aponta para o desvendamento de realidades encobertas por mitos, ficções e imagens fantasiosas. Indiscutivelmente, ainda que existam visões estereotipadas cultivadas contra outros povos e regiões, a África, mais do que qualquer outro continente, terminou encoberta por um véu de preconceitos que ainda hoje marcam a percepção da sua realidade. (Maurício Waldman, 2006)



Na minha África moçambicana a esperança nos olhos dos pequeninos: crianças de Beira, província de Sofala, Moçambique, voltando da escola, junho de 2009.


Desde a graduação, estimulada e sob orientação da professora Maria Odila e depois da professora Siívia Lara, professor Bob Slenes, professor Sidney Chalhoub, professora Clementina Cunha e, mais recentemente, professor Carlos Serrano, professora Anita Morais, professora Rejane Vecchia a importância dos negros na história de nosso território, assim como a história do continente africano despertaram e ainda muito me interessam.

Ao longo desses mais de 20 anos, às reflexões acadêmicas somaram-se o ativismo na luta contra o racismo e na luta pela inclusão plena à cidadania da população negra brasileira. Por meio do trabalho de formação dos professores, do trabalho de pesquisa e escrita das coleções didáticas de história, por meio dos blogs sempre focando a educação pautada na igualdade étnico-racial e, principalmente para que a 10639/03 se torne realidade em nossas academias e na Educação Básica.

Por isso, foi com imenso prazer e, ao mesmo tempo, ciente do enorme desafio que nos cabia que aceitei o convite do meu amigo, mas antes de tudo, do jornalista sério e responsável que é Luiz Carlos Azenha, para compor esta pequena equipe, formada pela produtora Baboon Filmes, para disputar o Edital da TV Brasil (leia-o aqui e aqui veja a apresentação da equipe no site do Vi o mundo).

Meninas Macua da Ilha de Moçambique fazem graça, chamam a atenção e posam para as minhas lentes. Deixei a ilha chorando. Um misto de emoção, saudades, encantamento e solidariedade invadiu-me.


Não é um trabalho fácil desconstruir inúmeros estereótipos sobre o continente africano reafirmados ao longo de séculos e vencer os inúmeros silêncios aos quais os próprios africanos foram submetidos. Nossa tarefa será dar conta em 26 programas de 26 minutos cada, divididos em dois blocos, de alguns aspectos que nos foram revelados durante as viagens.

Nova África é acima de tudo uma série jornalística que dá voz e vez aos africanos para que eles próprios falem de seus problemas e soluções. Tocaremos em feridas, problemas de diferentes ordens serão tratados ao longo da série, mas sem perdermos a perspectiva de que os africanos são sujeitos da história, não formam um bloco único e homogêneo nem em termos étnico-culturais, nem políticos, nem econômicos.

Acredito que ao conhecer um pouco mais sobre os diferentes países que visitamos e ainda iremos visitar, o público brasileiro também se impressionará com a enorme capacidade de resistência dos povos africanos.

Na ilha de Moçambique eu, a jovem Maconde Ana com suas irmãs menores e a repórter da série Nova África, Aline Midlej.

Aos ver os programas da série vocês conhecerão diferentes atores sociais deste continente: homens e mulheres trabalhadores, ativistas, artistas plásticos, políticos, escritores, cantores etc.

Em minha opinião, temos muito a aprender com a professora Diamantina que vive no Alto Ligonha, na província da Zambézia, Moçambique. Ela dá aulas, em salas rurais com teto de palha e bancos de madeira quase na altura do chão e, muitas vezes, debaixo do cajueiro para 360 alunos! Ela consegue ensiná-los com uma doçura que nos comove.


Alunos da professora Diamantina, Alto Ligonha, Zambézia, Moçambique, junho 2009.

Temos muito a aprender com a adolescente Belquiça, uma garota Macua da Ilha de Moçambique, que além de ótima aluna, neta carinhosa, dedica parte de seu tempo a tocar um projeto de rádio comunitária e educativa falando dos principais problemas que afetam a população da Ilha.

Seu Germano de Quelimane, cidade nascida em um dos braços do delta do rio Zambeze, por onde passou Vasco da Gama a caminho para as Índias, lembra-me a famosa frase de Euclides da Cunha, mas revisitada: “O africano é antes de tudo um forte”. É preciso ser portador de uma resistência hercúlea para tocar a vida em um país que foi sangrado por séculos por um colonialismo predador, depois achacado por 16 anos de guerra civil violenta e ainda assim tocar a vida, fazendo a diferença.

Nesta nova série eu espero que você aprenda o tanto que aprendi ao visitar e conhecer de perto homens e mulheres como eu e você, crianças e adolescentes como nossos filhos e alunos que, na “África Contemporânea, independentemente da frágil legitimidade de muitos Estados africanos, das suas subvalorizadas economias formais e dos seus simulacros de autoridade institucional, agarram-se à vida e à esperança, ignorando prognósticos negativos e sobrevivendo à margem de instituições, organismos e poderes que procuram acorrentá-los.” (Serrano, 2007:35)

Beleza teu nome é infância. Crianças Macua da Ilha de Moçambique, indo para a escola, junho 2009.

Espero que a série Nova África consiga despertar em você a vontade de ler, estudar e conhecer mais sobre este continente que nos é tão próximo, mas ao mesmo tempo tão desconhecido. Lembrando ainda o cuidado que devemos tomar neste esforço de conhecimento/reconhecimento do continente africano, como nos alerta o professor angolano Carlos Serrano: “para além de mero ato de vontade, a desconstrução das imagens negativas do continente faz-se com estudo, conhecimento e compreensão atentos à sua personalidade histórica, geográfica e cultural específica. (Serrano, idem, ibidem)


Assista o clip do programa de abertura da série e aqui conheça a equipe que faz a Nova África.



Veja a chamada da TV-Brasil para a série:

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Resenha: Memórias em vôo rasante

Recebi hoje este carinhoso e-mail do professor Wilson G. de Almeida:

Prezada Profa. Conceição Oliveira
Envio-lhe matéria com o título Resenhando Memórias em Vôo Rasante (sobre livro editado em Moçambique), por mim publicada no site Pambazuka News, na expectativa de que a mesma venha a representar interesse para o blog da História em Projetos.
Aproveito para externar os meus entusiastas parabéns pelo belo trabalho.
Wilson

Resenhas tem a função de despertar nosso interesse para a leitura dos livros resenhados e creio que neste objetivo o professor foi bem sucedido.
Ainda não li a autobiografia de Jacinto Veloso, mas fiquei com vontade de ler, Memórias em voo rasante que foi resenhado pelo professor Wilson já se encontra na terceira edição e vem criando acirrados debates desde que foi lançado.

Entre os que o admiram a atuação de Jacinto Veloso na história recente de Moçambique e os que a criticam, a biografia desse aviador que fez parte de Frelimo certamente é um olhar sobre a o processo de independência moçambicano, as lutas anticoloniais, enfim uma representação de um dos sujeitos da história recente do continente africano.
Veja também:
Site oficial do autor da autobriografia
Outras resenhas sobre o mesmo livro aqui e aqui


Livros & Arte

Resenhando memórias em vôo rasante

Wilson Gomes de Almeida (2008-05-07)


Resenhando memórias em vôo rasante

Esgotaram-se rapidamente as duas primeiras edições do livro autobiográfico de Jacinto Veloso que já se encontra na terceira edição. Tratando-se de quem é, mas, sobretudo das importantes missões, funções e cargos que desempenhou antes da independência (1964-1974), durante o Governo de Transição (1974-1975), e ao longo de quase toda a trajetória do Moçambique pós-colonial, a curiosidade que desperta e o grande interesse pelo que esse homem tem a dizer, são plenamente justificáveis. Jacinto Veloso, homem branco por dentro e por fora, porquanto francamente identificado com o ideário do mundo ocidental e cristão no qual foi educado, mas moçambicano por opção, teve por assim dizer, a oportunidade ímpar de participar, em posição privilegiada, de uma epopéia libertária, reservada a pouquíssimos. E é exatamente disso, mas não só, que o livro Memórias em Vôo Rasante (JVCI, Ltda, Maputo, 2007) trata ao longo das suas 290 páginas.

Memórias em Vôo Rasante abarca importantes momentos da trajetória pessoal de Jacinto Veloso, e com ela do seu percurso, digamos assim, histórico-social. Nela são largamente tratados: (a) o seu périplo forçado, sobretudo por algumas capitais africanas, na busca de uma inserção à luta pela libertação de Moçambique do jugo colonial português; (b) as tensões que friccionaram o movimento moçambicano de libertação sediado na diáspora e que resultaram no assassinato de Eduardo Mondlane, presidente da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO); (c) a transição atribulada, a proclamação da independência nacional e as vicissitudes dos primeiros anos de governação do Partido Frelimo sob o cerco maldito da aliança trilateral constituída pela Rodésia racista, o regime do apartheid da África do Sul e o beneplácito dos governos ocidentais que lhes emprestavam apoio e com eles colaboravam ativamente no intento de inviabilizar a jovem República; d) os bastidores do que resultou na assinatura dos acordos de paz com a racista África do Sul e dissensões provocadas pelos Acordos de Nkomati na arena externa, posto que no âmbito doméstico aparentava ter prevalecido uma espécie de unanimidade silenciosa; e) as experiências do que designa o autor o “Caso SOCIMO” (Sociedade Comercial e Industrial de Moçambique, Ltda.) empresa vocacionada a combinar negócios, “intelligence econômica” e atividades de segurança no interesse do Estado moçambicano.

A diversidade de temas, situações e personagens visitados pelo autor, ao mesmo tempo em que torna o livro rico em informações, muitas delas desconhecidas pelo grande público, requer do leitor atenção redobrada, porque é, sobretudo, nas entrelinhas, nos subentendidos que estão as mais relevantes e também as armadilhas imbricadas no texto. Não se pode negligenciar o fato de que, militar de formação, Jacinto Veloso foi o primeiro titular da segurança estatal, na condição de chefe do SNASP (Serviço Nacional de Segurança Popular) e, que por injunção, antes e depois da independência de Moçambique, esteve na maior parte do tempo dedicado às tarefas de inteligência e contra-inteligência. Esta é, aliás, umas das razões, senão a principal, porque Memórias em Vôo Rasante vem suscitando tanto interesse.

Sem a pretensão de proceder à análise, até porque não é esta a função de uma resenha, parece interessante colocar em relevo alguns aspectos do livro de Jacinto Veloso. O primeiro se refere à natureza auto centrada da obra, que como a maior parte dos textos ditos pós-modernos desse penhor carrega uma forte marca de culto à própria personalidade. Nesse aspecto, Veloso não foge à regra. Repete por vias transversas o mesmo itinerário do médico Helder Martins, no seu livro de memórias, Por que Sakrani? A diferença reside fundamentalmente que o Dr. Helder Martins é mais explícito e frontal, reivindicando para si, quando o julga procedente, o protagonismo de grande parte dos feitos sobre os quais discorre. Já Jacinto Veloso transita entre o implícito e o subreptício. Embandeira-se e se agiganta na mais das vezes à sombra de Samora Machel, a quem servia diretamente, pelo menos é a idéia que perpassa, independentemente dos méritos próprios e das qualidades pessoais de que inegavelmente é dotado.

Por oportuno, e já que o tema é memórias emergentes em Moçambique, vale acrescentar: também nessa vertente da história do cotidiano, que é a história construída a partir da experiência pessoal, inscreve-se o percurso de vida de Janet Mondlane, O Meu Coração Está nas Mãos de Um Negro, forma que encontrou como ela mesma escreve no prefácio do livro redigido por Nadja Manguezi, para rememorar Eduardo Mondlane. Embora calcada preponderantemente na exposição de melindres represados, não deixa de ser como de todo o são as memórias de Jacinto Veloso e de Helder Martins, uma contribuição valiosa e fonte de consulta obrigatória para o conhecimento da história recente de Moçambique.

Outro aspecto que chama a atenção nas memórias de Jacinto Veloso é a nítida dicotomia que opõe o narrador ao analista dos acontecimentos e fatos históricos. No papel de narrador Veloso discorre sobre uma significativa massa de fatos e acontecimentos, ao mesmo tempo em que desfila um invejável colar de episódios e personagens, evidentemente segundo critérios próprios de seletividade prévia e hierarquização consciente, como preceitua a história tradicional. Destacam-se, sobretudo, as narrativas de sucesso tendo o próprio memorialista como patrono. É o caso da chamada “Operação Zero”, quando Moçambique substituiu o velho escudo português pelo metical, moeda em curso no país desde 1980. Dez gordos parágrafos explicam a bem sucedida “Operação Zero”, enquanto apenas dois mirrados e lacônicos parágrafos lançam nas profundezas o malfadado metica – moeda que deveria substituir o escudo português, antes da implantação do metical, mas cuja operação foi abortada pelas autoridades. Vale recordar que muito se falou e especulou a “boca pequena” à época sobre o desterro do natimorto metica, mas de verdade até hoje nada relevante foi ventilado ou esclarecido publicamente sobre o assunto. Este é apenas um exemplo, mas há muitos outros silenciamentos!

Considerando-se o horizonte temporal abrangido pelas “Memórias” e o sem-número de acontecimentos e personagens envolvidos, parece que algo não “bate”, no que concerne aos nomes mencionados ou até pela omissão de muitos deles. Fogem à regra as alusões ao próprio autor, algo perfeitamente previsível, e a Samora Machel, este referenciado cerca de cem vezes. Em lugar muito distante, mas ainda em relevo, emergem os nomes de João Ferreira, seu amigo e camarada de exílio, Eduardo Mondlane, primeiro presidente da FRELIMO, Joaquim Chissano e Aquino de Bragança, todos com uma pontuação expressiva, chegando alguns deles a serem mencionados uma, duas ou até três dezenas de vezes. Num terceiro plano, nomes como os de Óscar Monteiro e Fernando Howana, Fernando Ganhão e Helder Martins, Sebastião Marcos Mabote e Prakahs Ratilal, Armando Panguene, Jorge Rebelo e Alcântara Santos, são referenciados pelo menos em três ocasiões. Tal não acontece com vultos da revolução moçambicana da estatura de Marcelino dos Santos militante da primeira hora da FRELIMO e por longos anos considerado o “número dois” na hierarquia partidária e estatal, como membro do politburo, secretário para a Política Econômica do Partido, Ministro do Planejamento, Governador Residente de Sofala e presidente do Parlamento. Em toda obra é citado duas vezes apenas, mesmo assim an passant. Em ambos os casosk, se trata de alusões a períodos que antecederam o desencadear da luta armada quando em transito pelo Egito. Uma delas segundo conta foi quando Marcelino dos Santos, no Cairo, desancou Jacinto Veloso e João Ferreira por estarem eventualmente se prestando ao papel de inocentes úteis na produção e disseminação de panfleto de interesse dos inimigos da revolução moçambicana em gestação. Há uma terceira aparição, é verdade, apresentada pelo autor como um quase casuísmo, em que dirige uma reunião partidária para decidir os destinos da todo-poderosa SOCIMO.

Fica a sensação que Marcelino dos Santos não é parte crucial de Moçambique no imaginário velosiano. Nem durante a luta armada, nem no governo de transição e menos ainda no percurso republicano do país. Sérgio Vieira, nome respeitado e quadro histórico da FRELIMO que como Veloso ocupou a pasta da segurança além de outros importantes cargos-chave como governador do Banco de Moçambique e Ministro da Agricultura, é referenciado em dois momentos apenas, um durante a luta e outro por ocasião dos Acordos de Nkomati. Armando Gebuza, Mário Muchungo, Joaquim de Carvalho, Graça Machel, apenas para reter alguns nomes aqui colocados arbitrariamente, são referenciados uma única vez. Há, contudo nomes de proa da hierarquia partidária, estatal e governamental que sequer são tocados, pelo menos diretamente, contrariamente ao que acontece com uma interminável lista de notáveis de países vizinhos (vg. Kito Rodrigues, Frederik de Klerk) e de personalidades ocidentais amigos ou inimigos confessos como Jean-Batiste Doumeng, chief Fernandez, Frank Wisner, Pik Bhota, Van der Westhuizen entre outros, referenciados à exaustão. Sob essa perspectiva observa-se uma lealdade lassa, com velhos camaradas de caminhada.

Depreende-se desse fato que verdadeiramente a história pessoal narrada na primeira pessoa propicia a leitura dos acontecimentos e das realidades e a própria interpretação da história nacional e do mundo numa perspectiva meramente individual. Aliás, nisso guarda coerência com o que o autor anuncia ao iniciar seu livro: “... vários camaradas, familiares, jovens e amigos, tanto nacionais como estrangeiros, têm vindo a sugerir que eu escreva contando um pouco da minha experiência de vida dos últimos quarenta ou cinqüenta anos, em particular a minha vivência na Frelimo”.

Deriva daí que o problema reside não na narrativa em si, mas na escolha do método, na vertente da micro-história utilizada pelo autor. Nele Veloso recupera sua imagem do passado através da reiteração da marca unipessoal do governo do Partido Frelimo, na pessoa do seu máximo líder, o presidente Samora Machel tomado como petromax e ponto único e universal de convergência nacional. Segue-se dessa constatação que muitas memórias precisarão ser escritas para se poder chegar à composição por inteiro, ou quase isso do complexo mosaico que conforma a experiência moçambicana dos últimos cinqüenta anos.

Jacinto Veloso verdadeiramente se supera quando transita do dissertativo para o valorativo, abrindo alma e coração para o leitor e fazendo jorrar através de veias e poros sua profissão de fé pública a favor da “mão invisível” do mercado. Abdicando de uma análise mais rigorosa dos fatos e acontecimentos, faz em tom de mea culpa vigorosa autocrítica acerca do que considera as infelizes escolhas que mantiveram Moçambique por tanto tempo excluído do bafejo e benfazejo, na sua perspectiva, receituário do FMI e do Banco Mundial. Em abono à razoabilidade de sua tese argumenta: “Acho que Eduardo Mondlane teria defendido a adesão de Moçambique ao FMI e Banco Mundial, mantendo contatos equilibrados com o Ocidente, designadamente com os EUA, onde estudara e que conhecia bem e onde vivera alguns anos”. Inimigo acérrimo do planejamento estatal, e adepto fervoroso da economia de mercado, aqui e acolá alfineta com aversão e desprezo temperados de picardia e até zomba cáustica e implacável a efêmera experiência moçambicana. E o faz com a autoridade de ex-ministro na presidência para Assuntos Econômicos, com elevadas responsabilidades na condução da economia moçambicana pela senda do capitalismo.

Embora, é verdade, as críticas mais contundentes à economia centralmente planificada Veloso o faz pela boca de seu guru, Jean-Batiste Doumeng, o “milionário vermelho” empresário francês, como era conhecido e dono de frases como as por ele reproduzidas no livro:
“Tovarish Brejnev acabo de verificar que as únicas foices que existem na URSS são as que estão desenhadas na vossa bandeira”.
“A verdade é que ninguém inscrevera esse item (a foice) na lista dos produtos da Comissão Nacional do Plano e o que não estava no Plano Estatal Central, simplesmente não se podia produzir nem importar”.
“[...] Sei que seguem o modelo russo, modelo esse que não vos vai levar muito longe. Daqui a pouco, vocês terão que pedir ajuda ao FMI e ao Banco Mundial e serão obrigados a fazer de joelhos aquilo que ainda têm tempo de fazer de cabeça bem erguida, por decisão própria. [...]”.

Dessa forma, se distancia olímpica e solenemente das opções econômicas do Partido, do Estado e do Governo a quem sempre serviu e sugere que seus antigos camaradas se expliquem pelo que classifica de escolhas equivocadas.
Veloso esnoba e se diverte gostosamente confidenciando para o leitor como trapaceou o planejamento estatal moçambicano para fazer vingar seu projeto de escola de formação de pilotos-aviadores, fazendo passar e aprovar a importação em divisas de simulador de vôos e aviões de treino por livros escolares e materiais congêneres. Aliás, não é de modo distinto que ele trata a questão do conflito Leste-Oeste; sintetizada na conhecida alegoria, na verdade um velho provérbio africano: “Numa luta entre elefantes, o prejudicado é o capim", ao se referir às conseqüências da bipolaridade para países como Moçambique e Angola.

Na forma em que essa questão é abordada pelo autor, fica-se com a sensação de que o grau de percepção do Partido Frelimo, dos seus principais dirigentes e do próprio escriba em matéria de conjuntura internacional, e da natureza, amplitude e implicações do conflito leste-oeste transitava entre o romântico e a mais cândida ingenuidade.

Veloso em nenhum momento de suas memórias arriscou confrontar quais teriam sido os ganhos reais das largas massas populares moçambicanas nos 24 anos em que o país passou a integrar as duas organizações multilaterais, comparativamente aos 9 anos precedentes, abstraídos os efeitos e conseqüências decorrentes da guerra de desestabilização e das calamidades naturais que fizeram Moçambique retroceder 50 anos no tempo, em termo de Produto Interno Bruto! Um iniludível exercício que certamente faria o historiador anglo-saxônico Robert William Fogel, na busca de caminhos explicativos diferenciados para um e só passado do Moçambique independente.

Mas é no capítulo sobre as concertações que antecederam à proclamação da independência do Zimbabwe, onde o autor explora com mais acuidade sua verve prosaica. Sem dúvida é a parte do livro que mais empolga, onde os fatos estão mais bem encadeados e os acontecimentos compreensivamente caracterizados, mesmo que se tenha que assumir, depois da sua leitura, que verdadeiramente a arquitetura da independência do Zimbabwe foi engendrada a partir de Maputo numa ponte direta com Londres. Nela os patriotas zimbabweanos foram postos em segundo plano por se tratar de questão que concernia a “interesse vital” do estado moçambicano. Quem não se recorda da exigência dos países da “Linha de Frente”, onde Moçambique desempenhava papel destacado, encampada pouco a pouco por outros atores internacionais influentes, da necessidade de reassumo pela Inglaterra da sua condição de potência colonial no concernente à questão rodesiana, como pré-requisito incontornável para o sucesso das negociações de Lancaster House? Tratou-se, sem dúvida, de um feito histórico transcendental para o qual a contribuição de Moçambique foi imprescindível, e sobre o que o depoimento de Veloso muito esclarece.

Outro assunto sobre o qual a contribuição de Jacinto Veloso é assinalável, refere-se à guerra de desestabilização de Moçambique independente engendrada pela perversa aliança formada pelo regime do apartheid da África do Sul, a Rodésia de Iam Smith, o Malawi de Hastings Kamuzu Banda, Portugal e seus aliados da OTAN. Neste capítulo Veloso além de fazer uma honesta autocrítica sobre os erros de subestimação do inimigo por parte da liderança partidária da Frelimo, trás a lume elementos fulcrais que ajudam a melhor compreender a natureza da guerra de 16 anos a que seu país foi submetido. Tem o cuidado, como conhecedor da teoria da guerra e das circunstâncias reais da desestabilização, em não conceituá-la como “guerra civil”, contrariamente ao que muitos o fazem, movidos por motivações diversas.

Por detrás da aparente sisudez que costuma ostentar em público, Veloso, encontra meios para levar ao leitor episódios hilários vividos em momentos penosos de sua saga política. Um deles é o caso do bôer que se dirigindo ao barman num hotel local, pediu diferentes marcas de whisky, sempre recebendo respostas negativas de que os mesmos estavam em falta. Irritado o sul-africano pergunta ao barman, afinal que marca de whisky tem para servir. “Black and White”, respondeu o barman, no que o farmeiro sul-africano retrucou resignado: “Ok! Está Bem”! “Mas serve-me isso em dois copos separados”.

Por fim, fica a nítida sensação de que neste primeiro opúsculo o autor preferiu ser econômico para reservar munição para os próximos, que de certo hão de vir. Assim, passando do vôo rasante para o mergulho em profundidade, grande parte da dívida com o leitor ficaria saldada. Porque de uma coisa ninguém tem dúvida: o major-general Jacinto Veloso, como se depreende, uma espécie de generalfeldmarschall de Samora Machel, mas, sobretudo da FRELIMO pragmática que se impôs, amainado o fervor revolucionário dos primeiros anos da proclamação da independência nacional, sabe das coisas e, ainda tem muita história para contar.
Mas justiça seja feita, o autor bem que se esforça por cumprir com o prometido, no itinerário traçado à partida ao justificar a escolha do título do livro: “’Memórias em Vôo Rasante’, por quê? Porque é mesmo rasante, rasando a terra, as árvores, os postes, as pontes, rasando as verdades e as mentiras da história recente, para verificar, ver, reconhecer e talvez surpreender”.

*Wilson Gomes é Engenheiro Agrônomo pela Universidade de Sofia/Bulgária e foi docente em Moçambique


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