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quarta-feira, 15 de julho de 2009

O encontro de Maria Rita Kehl com o MST

por Patrícia Rocha, no jornal Zero Hora

Reproduzido do Site Viomundo

Há três anos, um integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) perguntou à psicanalista Maria Rita Kehl como a psicanálise poderia ajudar a militância. Não era a primeira vez que Maria Rita estava palestrando para uma turma de alunos da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), centro de formação e ensino idealizado pelo MST. Ela respondeu que a psicanálise não é uma prática militante, mas que muitos militantes precisariam fazer análise por razões particulares. E explicou:

– A neurose interfere na relação dos sujeitos com o laço social, o que vale para a militância.

Ao contar o episódio, Maria Rita, nome de referência da psicanálise no Brasil, diz que eles entenderam imediatamente o que estava implícito naquelas palavras. E, na saída, dois administradores da escola perguntaram:

– Quando você pode começar?

Na semana seguinte, Maria Rita deu início à experiência que já dura três anos e meio.

Doutora em Psicanálise, a campineira Maria Rita trilhou uma trajetória singular. Cursou Psicologia na USP em tempos de ditadura, trabalhou sete anos como jornalista, fez mestrado sobre televisão, teve um filho quando morava em uma comunidade e só em 1981 começou a atuar como psicanalista – e logo mais poeta e ensaísta. Suas palestras e seus livros transitam por diferentes temas – TV, juvenilização, ressentimento, feminino, ética na psicanálise... – o lançamento mais recente, O Tempo e o Cão – Atualidade das Depressões, teve início a partir de um pequeno incidente a caminho da ENFF, quando, premida pelo tráfego na Via Dutra, Maria Rita viu um cão atravessar a pista mas não pôde evitar bater no animal (que sobreviveu) – travestido de metáfora, o episódio a fez refletir sobre a aceleração da vida e seus efeitos subjetivos.

Neste longo percurso, analisar integrantes do MST e transitar no seio do movimento surge como a oportunidade de descobrir um universo fundado no coletivo e, como ela conta na entrevista a seguir, um privilégio.

Zero Hora -- Gostaria que a senhora contasse como se aproximou do MST e tornou-se psicanalista de membros do movimento, detalhando como esses atendimentos funcionam hoje. Quantos pacientes do MST tem no momento e com quem frequencia os atende? Com base na premissa de que o pagamento, por menor que seja, é importante como forma de registrar o investimento do paciente nas sessões de psicanálise, a senhora cobra a sessão, um preço simbólico que seja?

Maria Rita Khel -- O MST tem uma escola nacional de formação de lideranças, a Escola Nacional Florestan Fernandes, a 60 km de SPaulo. Em 2005 e 2006 fui algumas vezes lá, dar aulas sobre temas de interesse deles em um curso sobre a compreensão da realidade brasileira organizado pelo professor Paulo Arantes. Nas duas vezes, alguns alunos mostraram curiosidade sobre a psicanálise. Da segunda vez, ao me perguntarem "como a psicanálise pode ajudar a militância?" eu respondi que a psicanálise não é uma prática militante, mas muitos militantes precisariam fazer análise por motivos particulares; expliquei tb que a neurose interfere sempre na relação dos sujeitos com o laço social, o que vale para a militância também. Eles me entenderam imediatamente. Quando saí da sala, dois administradores da escola me perguntaram: "quando você pode começar?" .

Na semana seguinte estava lá, não para fazer conferência mas para atender pacientes. Me arrumaram um dos quartos do alojamento e os pacientes começaram a chegar - alguns dos trabalhadores fixos da escola, outros de outros Estados, que estavam lá de passagem fazendo cursos. Desde aquela época, ou seja, há 3 anos e meio, vou quinzenalmente à ENFF e atendo quem estiver lá. Há pacientes fixos, outros que estão de passagem e vêm falar, duas ou três vezes, o que já é suficiente para acionar neles um início de intimidade com o inconsciente que eles aproveitam muito.

Não cobro nada pelas sessões feitas na Escola, mas se algum deles vem a SP, fazer uma sessão extra em meu consultório, cobro 15 reais. Até hoje isso não foi motivo para eles não se responsabilizarem pela análise. Eles sabem que meu trabalho lá não é por caridade nem por amor pessoal a cada um deles - é a "minha militância". Este é o valor que eles me dão em troca do trabalho. Mas levam suas análises muito a sério, como aliás levam a sério quase todas as escolhas que fizeram.

Zero Hora -- Para alguém que chega de fora e depara com o movimento em ação, nas atividades e eventos coletivos de que a senhora participou, e individualmente, nas pessoas que analisa, o que mais lhe chamou atenção neste universo? É possível comparar questões, dores e valores que predominam entre os pacientes de seu consultório particular, em São Paulo, e os pacientes que atende na Escola Florestan Fernandes?

Maria Rita Khel -- As formações do inconsciente não variam muito; lá existem neuróticos como em toda parte. Recebi alguns alcoólatras também, pois este é um dos sintomas mais frequentes, sobretudo entre homens, na sociedade brasileira - e nas classes pobres, mais ainda. O que é muito diverso da minha clínica em SP são as histórias de vida, evidentemente. 100% dos analisandos do MST têm origem pobre, a maioria do meio rural; alguns, os mais jovens sobretudo, já vieram das periferias das cidades, onde além da pobreza conheceram muita violência. São histórias de vida que implicam em maior sofrimento real, mas os sintomas que se formam a partir da experiência traumática não variam muito. Trata-se, sempre, de tentar escutar as pistas que indiquem o que está recalcado e fazer com que a pessoa também se escute e questione o que diz, de modo a encontrar pistas que a orientem na via de seu desejo.

O que mais diverge da minha experiência com a clínica em São Paulo é que no MST não percebo, entre as queixas e indagações dos sujeitos, a prevalência do imaginário romântico-sentimental (inclusive no que diz respeito à demanda de amor, na transferência). Não é no amor que eles buscam indicadores de seu valor para o Outro - é na "luta". As histórias de sofrimento familiar, ou conjugal, raramente se centram nas demandas de amor não correspondidas, endereçadas ao pai, mãe, esposa/esposo. Não escuto essa queixa de que o pai, ou a mãe, gostava mais do irmão/da irmã/ se me ama/ se não me ama, etc. Não que a questão do valor do sujeito para o Outro não exista, mas curiosamente, ela não passa tanto pelas relações amorosas e familiares, nem pela demanda de amor ao analista.

Zero Hora -- Os movimentos sociais se fundam na noção do coletivo. Esta questão transparece de alguma forma quando um membro do MST está no divã?

Maria Rita Khel -- Aparece sim, nas queixas frequentes de que o trabalho grupal, muito exigente, deixa pouca margem para os chamados "cuidados de si" - lazer, namoro, leituras, passeios, descanso. Mas não é difícil fazer com que eles percebam que o excesso de dedicação à "causa" coletiva pode ser um meio de escapar das questões singulares de cada um. Claro que estou generalizando, alguns permanecem muito mais aferrados a cumprir "o que o Outro quer de mim" do que outros, etc. Ao longo de algumas análises, emergem muitos conflitos com as normas coletivas da Escola - o sujeito, ao entrar em sintonia com o desejo, torna-se rebelde. Mas essa rebeldia raramente é da ordem do individualismo, mais frequente nas classes média e alta urbanas. Eles se rebelam contra a rigidez das normas coletivas, mas não perdem de vista o fato de que estão no movimento por escolha política e têm uma responsabilidade para com ele.

Zero Hora -- A senhora sempre demonstrou uma posição de esquerda, uma postura crítica acerca da sociedade de consumo e seus valores. Como isso se reflete na realização deste projeto junto ao MST e até mesmo em sua atividade como psicanalista?

Maria Rita Kehl -- Posso te dizer que sempre que saio de lá, penso que sou uma privilegiada por ter encontrado o MST e ter sido acolhida por eles como pessoa de confiança. Também me acho uma pessoa de sorte por ter sido convidada a exercer a psicanálise, sem nenhuma concessão, em meio a este que é hoje o maior movimento social do mundo, com 600 mil militantes e 2 milhões de pessoas afiliadas a ele (incluindo famílias já assentadas, que às vezes não militam mais, mas reconhecem sua filiação ao MST). Não é preciso fazer concessões para exercer a psicanálise entre eles porque, apesar da origem católica e rural, o movimento é legitimamente progressista - assim como a psicanálise, aliás.

Zero Hora -- Ao passar a frequentar um universo diferente do seu, marcado por bandeiras de luta e o sentido coletivo, em algum momento a senhora temeu a possibilidade de idealizar o movimento ou seus membros? Ou já se sentiu cobrada por membros do MST a agir de forma militante?

Nunca fui cobrada a agir como eles, seja isso o que for; mesmo porque, entre eles as diferenças de modos de agir também são muito grandes. Sinto-me respeitada, inclusive em meu estilo mais aburguesado de ser: vou de carro, volto para SP depois dos atendimentos porque quero aproveitar o sábado, raramente fico lá para dormir, etc. Agora, não há dúvidas de que, para mim, é fácil idealizar o movimento. Não tanto pelo modo como eles conduzem suas lutas - tenho sérias divergências sobre algumas estratégias e falo sobre elas com pessoas que não são meus pacientes, quando os encontro no almoço, ou nos debates de que ainda participo. O que eu sinto que idealizo, no MST, é a formação humana que eles conseguem obter. ]

A maior parte dos militantes veio de meios sociais violentos, com pouca escolarização, pouca noção de dignidade e respeito, tanto do sujeito quantona relação com o outro. No movimento, o valor da leitura, do conhecimento, da lealdade e da solidariedade, são imensos. Mesmo na clínica, onde os problemas mais profundos vêm à tona, não deixo de sentir admiração pela maioria de meus pacientes da ENFF. Para você ter uma idéia, sabe qual é a maior demanda de "ascensão social" entre eles? Não é ganhar mais ou subir para uma posição de poder: é ser incluído entre os que podem estudar mais, entre os que têm direito a frequentar os cursos, etc. Eles são seríssimos quanto a este aspecto; e quanto à solidariedade também, apesar de todos os defeitos humanos, que são os mesmos que os de todos nós.

Mas isto não significa que eu não tenha admiração pelas pessoas que atendo em minha clínica particular, em São Paulo Tenho sim, por quase todos eles, pela coragem em enfrentar seus fantasmas, em buscar sua via. Talvez a diferença não se coloque em relação ao valor de cada sujeito, um por um, mas em relação ao "caldo de cultura" em que se vive, lá e cá.

Zero Hora -- Houve um momento de maior condescendência -- mesmo idealização -- dos movimentos sociais no Brasil. Na sua opinião, que imagem esses movimentos têm hoje no país?

Maria Rita Kehl -- Não sei responder.

Zero Hora -- E como a psicanálise compreende os movimentos sociais?

Não sei grande coisa as respeito. Só aponto que existe, entre alguns psicanalistas, um preconceito de que a participação num movimento social seria uma forma de alienação. Como se a adesão quase religiosa à psicanálise e às instituições psicanalíticas não fosse!

Zero Hora -- As questões do feminino e do feminismo figuram entre os temas sobre os quais a senhora já escreveu. Como avalia a posição das mulheres e as relações entre os sexos dentro do MST?

Maria Rita Khel -- É uma posição muito interessante, a das mulheres. Até agora não encontrei, entre as mulheres que atendo no MST, nenhuma que não seja autenticamente feminista, no sentido mais profundo do termo. Ou seja: são mulheres bastante livres em suas escolhas sexuais e amorosas - até mesmo as que vieram de movimentos da Igreja, mas que na análise, lutam para superar os entraves da moral católica. Ao mesmo tempo, são tão decididas e dedicadas quanto os homens.

É interessante a posição das mulheres no movimento: muitas delas, por exemplo, têm cargos mais altos do que seus maridos. Provavelmente, nos acampamentos, entre pessoas que vieram de outros lugares e acabam de ingressar no MST, deve haver muito machismo; este é o perfil da sociedade brasileira. Mas não o encontrei entre os "compas", como eles se chamam, que transitam no nível da ENFF. O outro detalhe interessante é que as mulheres que atendo lá, nunca submeteram a vida da militância às conveniências do casamento. Viajam prá lá e prá cá, estudam nos cursos em módulos que o MST oferece em convênios com universidades - 3 meses na faculdade, 3 meses no movimento, durante toda a duração do curso - e os maridos seguram a onda, cuidam das crianças quando elas estão fora, etc. O amor não é o centro da vida delas, o que é muito difícil de encontrar. E também não medem seu valor pelo olhar de um homem; nunca ouvi uma moça que não namora dizer que se sente inferior às outras por isso.

Zero Hora -- A senhora conta em "O tempo e o cão: a atualidade das depressõe", como um incidente a caminho da Escola Florestan Fernandes alavancou reflexões que culminaram neste livro que traz a depressão como sintoma social. Esse seu trânsito dentro de um movimento social e suas questões contribuiu de alguma forma para essa análise?

Maria Rita Kehl -- Talvez sim, no que diz respeito ao modo de viver o tempo. Por mais tarefas que eles tenham lá, a relação com o tempo numa perspectiva não capitalista é diferente da velocidade maluca que rege a vida de quase todos nós. A relação que faço entre aceleração da vivência temporal e depressão, certamente tem um pouco a ver com minha experiência no MST.

Zero Hora -- A escolha de objetos e temas de trabalho sempre revelam algo do pesquisador em questão, pelo menos uma afinidade. Na sua trajetória acadêmica e profissional, a senhora já passou pela televisão, as questões do feminino, a ditadura do corpo e a juvenilização da cultura ocidental, ética, política, depressão -- além deste projeto no MST. O que este percurso revela a seu respeito?

Maria Rita Kehl -- Se eu soubesse, não continuaria buscando. Deixo essa resposta prá depois da minha morte.

terça-feira, 3 de março de 2009

Nota de repúdio ao presidente do STF Gilmar Mendes

Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo - FNRA Repudia declarações do Ministro Gilmar Mendes

O Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo - FNRA, vem contestar as declarações carregadas de preconceito e rancor de classe do presidente do Supremo Tribunal Federal - STF, Gilmar Mendes, e apoiadas pelos Presidentes do Senado Federal, e da Câmara dos Deputados, contra os movimentos sociais e sindicais do campo. Ao longo da historia da luta pela terra no Brasil, a atuação dos movimentos tem sido inspirada pela garantia dos direitos humanos, em especial o direito à vida, à dignidade dos homens e mulheres do campo e o direito e a necessidade de realização de uma reforma agrária massiva, que contemple uma ampla e justa distribuição de terras.

Lastimamos que o Presidente do STF, que é o guardião da Constituição Federal, não tenha incorporado à história de luta das classes populares nacionais. Em declaração recente a imprensa, o Ministro, em uma atitude revoltosa, coloca no mesmo patamar diferentes situações como as ocupações de terras, convênios e contratos assinados entre organizações e governo, questiona as autoridades responsáveis pelo repasse de verbas e pede a punição por crime de responsabilidade. Nunca a sociedade brasileira ouviu do Ministro uma condenação aos grupos de latifundiários armados no campo ou a concessão de financiamentos públicos aos grandes grupos econômicos, que tem provocado o trabalho escravo, chacinas contra populações tradicionais e crimes ambientais. Dessa forma, o senhor Ministro Gilmar Mendes, estimula o processo de criminalização dos movimentos sociais e sindicais, unindo e fortalecendo politicamente os setores que atuam no sentido contrario à consolidação de uma sociedade livre, organizada e democrática.
A luta pela reforma agrária não vai recuar diante de declarações imponderadas como esta do ministro Gilmar Mendes. Ao contrario, fortalece a luta do FNRA contra as legislações que institucionalizam a criminalização das organizações, contra as leis que impedem as legitimas ocupações e A FAVOR da emenda constitucional que limita o tamanho da propriedade rural e pela assinatura da Portaria que atualiza os índices de produtividade.

Atualmente existem cerca de 250 mil famílias de sem-terras acampadas nas beiras das estradas. Os recursos orçamentários da União destinados para a reforma agrária não dão conta desta demanda, apesar de estar comprovado que o Estado possui recursos suficientes para realizar a reforma agrária em menos de três anos. Adiar este processo significa promover e estimular a violência no campo, colocando em risco a vida de milhares de famílias brasileiras.

E lamentável quando lemos e ouvimos o Presidente do Supremo Tribunal Federal apelar para Medidas Provisórias e legislações recentes sobre a reforma agrária, quando a Constituição Federal assegura aos cidadãos e cidadãs o direito à terra aos que nela trabalham, a moradia e a uma vida digna. O papel do FNRA é exigir do Estado o efetivo cumprimento da função social da propriedade da terra, para que dela os brasileiros e brasileiras tirem seu sustento.

As lideranças dos diferentes movimentos reunidos em Salvador durante o Seminário Nacional pela Campanha do Limite da Propriedade da Terra não se sentem ameaçadas pelas palavras do Ministro Gilmar Mendes. Pelo contrario, se sentem desafiadas e estimuladas a renovar suas alianças e dar continuidade à luta histórica em nome dos companheiros e companheiras que tombaram nesta caminhada.

Pela Reforma Agrária e Justiça no Campo, já!

ENTIDADES QUE COMPÕEM O FNRA:

CONTAG - MST - FETRAF Brasil - CUT - CPT - CÁRITAS BRASILEIRA - MMC - MPA - MAB - CMP - CONIC - CONDSEF - Pastorais Sociais da CNBB - MNDH - MTL - ABRA - ABONG - APR - ASPTA - ANDES - Centro de Justiça Global - CESE - CIMI - CNASI - DESER - ESPLAR - FASE - FASER - FEAB - FIAN-Brasil - FISENGE - IBASE - IBRADES - IDACO - IECLB - IFAS - INESC - MLST - PJR - REDE BRASIL sobre Instituições Financeiras Multilaterais - Rede Social de Justiça e Direitos Humanos - RENAP - SINPAF - TERRA DE DIREITOS - EMPÓRIO DO CERRADO - COIABE - ABRANDH - ABEEF - Comissão de Justiça e PAZ - Grito dos Excluídos - Jubileu Sul/Brasil - Mutirão Nacional pela Superação da Miséria e da Fome.

Fonte: Pátria Latina


O MST e a Constituição


Retomando idéias já defendidas antes de 1964 por Miguel Arraes, por sua irmã Violeta Arraes (retornada da França ao Brasil com seu marido economista Pierre Gervaiseau em 1963, infelizmente por pouco tempo, pois teve que se exilar), Paulo Freire, Dom Helder Câmara, o MST luta por uma Reforma Agrária que é MUITO MAIS do que uma tomada de terras.

Nos dizeres de constitucionalistas como a advogada Delze dos Santos Laureano, a Reforma Agrária é um direito constitucional de terceira geração, um direito difuso, pois a reforma Agrária beneficiaria a sociedade como um todo e não grupos de indivíduos em particular. Isto é, uma melhor distribuição da terra (propriedades não maiores do que 200 a 250 hectares) e a retomada da agricultura familiar, com métodos agro-ecológicos compatíveis com o desenvolvimento sustentável, permitiria igualmente aos habitantes das cidades não somente desfrutar de uma melhor alimentação, como também não ser confrontado ao atual problema da violência entre outros tantos benefícios.

O MST não é partido político, não pretende ser partido político, mas ele quer a retomada da modernidade após sua interrupção pelo capitalismo, em suma, o MST produz gente (com milhares de escolas e também universidades formando engenheiros, juristas etc.) para retomar o movimento do Humanismo que foi interrompido pelo capitalismo exacerbado. Este Humanismo que surgiu para suplantar o jugo do teocentrismo deve agora se fortalecer para oferecer alternativas ao que eu chamaria de “capitalocentrismo”. O MST, neste sentido, parece ser a prova que a “Era de Aquário”, felizmente, está bem próxima.


Entrevista: Delze dos Santos Laureano, advogada, também professora de Direito Constitucional e Direito Agrário na Escola Superior Dom Hélder Câmara e membro da RENAP – Rede Nacional de Advogados Populares, a Reforma Agrária

Programa "Opinião Minas" - TV Minas 27.07.2007

Fonte: Tita Ferreira

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O MST e a Constituição - 1ª parte

O MST e a Constituição - 2ª parte

O MST e a Constituição - Última parte





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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

BOAL: a política é a arte de tornar possível o que é necessário fazer!"


Boal e o mundo

extraído do blog do Gadelha



Discurso de Augusto Boal, diretor artístico do Centro de Teatro do Oprimido, para o Fórum Social Mundial 2009.





"Devemos, muito cordialmente, lembrar aos nossos presidentes que a Política não é a arte de fazer o que é possível fazer, mas sim a arte de tornar possível o que é necessário fazer!"
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A mídia costuma publicar só o que é espetacular, sensacional, mesmo que tenha que esconder a verdade. Hoje, fala-se mais da cor da pele de Barack Obama do que do seu projeto político, como ontem falou-se mais dos seios da Carla Bruni do que das idéias direitistas do seu marido Sarkozy.
A mídia tem dono, e reflete as opiniões do seu proprietário: o Fórum Social Mundial não tem dono, e deve refletir as nossas.
Foro, Fórum, significa etimologicamente a praça pública, onde se pode discutir livremente. Este nosso Foro é mundial e deve, portanto, discutir os assuntos do mundo.
Temos que saudar o fim da era Bush e seus parceiros, mas ficar atentos à nova era que começa. Aplaudir os primeiros atos de Barack Obama, mas analisá-los com cuidado. Aplaudir sua decisão de fechar Guantânamo, mas lembrar que isso não basta: é necessário restituir Guantânamo ao seu legítimo dono, que é o povo cubano. Aplaudir a ordem de acabar com a tortura, mas lamentar que os torturadores não sejam punidos por esse crime de lesa-humanidade e continuem nos seus postos de comando. Aplaudir o desejo do novo presidente em dialogar com todos os países, mas explicar que não queremos, como ele promete ou ameaça, não queremos ver o seu país liderando o mundo - essa tarefa não compete nem aos Estados Unidos nem ao Paraguai, mas sim à Organização das Nações Unidas que para isso foi criada e tantas vezes tem sido desrespeitada pelo país de Barack Obama.
O Fórum é social, e temos que falar do genocídio dos palestinos. Temos que separar, de um lado, o cruel governo de Israel e, de outro, as centenas de milhares de judeus que com ele não concordam. Não devemos cometer a injustiça que se fez com os alemães, pensando que todos fossem nazistas, quando muitos morreram lutando contra Hitler e seus asseclas.
Milhares de judeus, dentro e fora de Israel, condenam e se envergonham do que fez e faz o seu governo, que representa tão somente aqueles que o elegeram, mas não o judaísmo. Dentro de Israel existem organizações como a dos Combatentes Pela Paz, de Chen Allon, que condenam a invasão e denunciam seus crimes. Tenho orgulho em dizer que, para isso, usam o Teatro do Oprimido entre outras formas de combate.
No Oriente Médio já se inverteu a distribuição de papéis: se, ontem, Israel foi o pequenino David, hoje é o gigante Golias, filisteu. O novo Golias, apoiado pelos Estados Unidos, em 22 dias matou mais de 300 crianças e centenas de mulheres e homens, civis ou combatentes. Eu chorei vendo a fotografia de um menino, um pequenino David palestino, jogando pedras contra um tanque de guerra. Se a lenda de David e Golias, ontem, foi apenas lenda, a história de Golias e David, hoje, é triste realidade: os 1.300 mortos ainda estão sendo retirados dos escombros, sem as solenes pompas fúnebres dos 13 soldados israelenses. O Fórum e o mundo não podem esquecer esse crime antes mesmo que sejam enterradas suas vítimas.
Nosso Fórum é pluralista, e deve se manifestar contra o colonialismo italiano que ofende a nossa soberania, que tenta interferir nas decisões da nossa Justiça, como está sendo o caso da concessão de asilo a Cesare Battisti. Existe uma lei brasileira que proíbe a extradição de pessoas condenadas em seus países à pena de morte ou à prisão perpétua. É este o caso, é esta a lei! O ministro Tarso Genro apenas cumpriu a lei – a lei brasileira. O presidente Lula foi claro explicando aos italianos as sólidas bases da nossa decisão, mas parece que eles não entenderam, nem disso são capazes. Por quê?
A Itália, que foi o berço do fascismo e deveria ser também a sua sepultura, mostra agora que a ideologia colonialista ainda está viva e pretende anular decisões soberanas do Brasil, invadindo o nosso Judiciário e querendo nos ensinar a diplomacia da obediência e da submissão. Temos que repudiar essa ofensa e libertar o prisioneiro!
Nosso Fórum é social, e a economia também. A maioria dos países que estão em crise, ou dela se aproximam, sempre disse não ter dinheiro para melhorar a Educação, a Saúde, a Previdência Social. De repente, para socorrer seguradoras, bancos e montadoras, esses governos descobriram que tinham bilhões e trilhões de dólares, euros, iens e libras. Nosso Fórum tem a obrigação moral de interrogar os senhores da Davos: de onde veio esse dinheiro? Quem os escondia? Quanto sobrou? Onde estão?
O nosso Fórum Social também é brasileiro e é camponês: devemos saudar o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, MST, que é o mais democrático e bem organizado movimento de massas que o Brasil já teve, e que completa agora 25 anos de luta pela terra, luta que continua.
O Fórum Social Mundial não é daqueles que dizem Hay Gobierno? Soy Contra, e, porque assim não é, deve se alegrar em receber tantos presidentes de tantas Repúblicas sulamericanas juntos neste evento: Evo, Correa, Kirchner, Chavez, Lugo e Lula. Nunca se viu fraternidade igual. Queremos agora ver os resultados concretos dessa irmandade.
Devemos, muito cordialmente, lembrar aos nossos presidentes que a Política não é a arte de fazer o que é possível fazer, mas sim a arte de tornar possível o que é necessário fazer!
Caminhar não é fácil! As sociedades se movem pelo confronto de forças, não pelo bom senso e justiça. Temos que avançar e, a cada avanço, avançar mais, na tentativa de humanizar a Humanidade. Não existe porto seguro neste mundo, porque todos os portos estão em alto mar e o nosso navio tem leme, não tem âncoras. Navegar é preciso, e viver ainda mais preciso é, porque navegar é viver, viver é navegar!
Eu sou homem de teatro e não posso deixar de falar de Arte e Cultura quando falo de Política, porque a Política é uma Arte que a Cultura produz.
Temo que, mesmo entre nós, muita gente ainda pense em arte como adorno, e nós dizemos: não é! A Palavra não é absoluta, Som não é ruído, e as Imagens falam. São esses os três caminhos reais da Estética para o entendimento: a palavra, o som e a imagem. São também os canais de dominação, pois estão os três nas mãos dos opressores, não dos oprimidos: a Palavra dos jornais, o Som das rádios, as Imagens da TV e do cinema estadunidense, dominam nossos meios de comunicação e invadem nossos cérebros com seu pensamente único, seus projetos imperiais e suas mercadorias.
Acabou-se o tempo da inocência... o tempo da contemplação já não é mais. Temos que agir!
Palavra, imagem e som, que hoje são canais de opressão, devem ser conquistados pelos oprimidos como formas de libertação. Não basta consumir Cultura: é necessário produzi-la. Não basta gozar arte: necessário é ser artista! Não basta produzir idéias: necessário é transformá-las em atos sociais, concretos e continuados.
A Estética é um instrumento de libertação.
Eu felicito o nosso Ministério da Cultura pela criação de mais de mil Pontos de Cultura no Brasil inteiro, onde o povo tem acesso não só à Cultura alheia, mas aos meios de produzir sua própria Cultura sem servilismos, sua Arte sem modismos, porque entendemos que Arte e Cultura são formas de combate tão importantes como a ocupação de terras improdutivas e a organização política solidária.
Sonho com o dia em que no Brasil inteiro, e no inteiro mundo, haverá em cada cidade, em cada povoado ou vilarejo, um Ponto de Cultura onde a cidadania possa criar e se expressar pela arte, a fim de compreender melhor a realidade que deve transformar. Nesse dia, finalmente, terá nascido a Democracia que, hoje, só existe em Fóruns como este!
Ser cidadão, meus companheiros, não é viver em sociedade: é transformar a sociedade em que se vive!
Com a cabeça nas alturas, os pés no chão, e mãos à obra!
Muito obrigado.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

AOS DE HOJE E AOS QUE VIRÃO

Por Stela Guedes Caputo (*)

07.08.2007

Extraído de Fazendo Media

MSTEu ainda vivo em tempos sombrios. Um tempo em que os pobres continuam sendo massacrados e não há punição para esses crimes. Há 12 anos, 155 policiais mataram 19 trabalhadores rurais, fizeram centenas de feridos e 69 pessoas mutiladas. Dos 144 incriminados, apenas dois foram condenados e aguardam em liberdade a análise do recurso da sentença. Em 2007, foram 25 assassinatos no campo e a “matadeira” que mata lá, é a mesma que mata na cidade. Carandiru... Candelária... favelas. Em cada grupo de dez jovens de 15 a 18 anos assassinados no Brasil, sete são negros. A violência escolhe cor, escolhe classe.


Por isso, a inocência continua sendo loucura e uma testa sem rugas, sinal de indiferença. E aquele que ri ainda não recebeu a terrível notícia. Mas é só uma questão de tempo. Que tempos são esses quando falar sobre flores é quase um crime porque significa silenciar sobre tanta injustiça? Recentemente, a Justiça Federal brasileira condenou a Veracel (Stora-Enso e Aracruz), que possui cerca de 205 mil hectares de terras no Extremo Sul da Bahia, sendo cerca de 96 mil hectares de monocultura de eucalipto a restaurar, com vegetação nativa, todas suas áreas compreendidas nas licenças de plantio de eucalipto que foram liberadas entre 1993 e 1996. Mas a empresa já recorreu, como de outras vezes.


Em 2007 ela foi multada por usar ilegalmente substância tóxica em área de preservação permanente e por impedir a regeneração natural de mata atlântica com projetos de plantio de eucalipto. A empresa tem 7.428 hectares de plantios em torno dos Parques Nacionais de Monte Pascoal e Pau Brasil, mesmo que uma Lei Federal determine que não se plante mais eucalipto num raio de 10 km no entorno dos Parques Nacionais na região. Mas a Veracel Celulose ganhou em março deste ano, da SGS/Qualifor o certificado FSC para o bom manejo florestal ambientalmente adequado para suas plantações de monocultura de eucalipto.


Enquanto isso, o Ministério Público do RS pediu a dissolução do MST. Nós, os criminosos? Eu queria ser um sábio. Nos livros antigos está escrito o que é sabedoria: manter-se afastado dos problemas do mundo e sem medo passar o tempo que se tem para viver na terra; seguir seu caminho sem violência. Não, eu não queria ser um sábio. Eu estou no campo e na cidade no tempo da desordem, quando a fome e a violência reinam. Convivo com homens e mulheres de revolta e me revolto ao lado deles e delas. É assim que quero passar o tempo que viverei na terra. Nós existimos através da luta de classes. Dizem que o socialismo é utopia e fracasso. Utopia é imaginar possível um projeto humano dentro do capitalismo. Isso sim é fracasso.


Também dizem que um dia os pobres herdarão a terra. Já esperamos demais e queremos a terra agora, antes que o agronegócio privatize toda terra, toda água, toda biodiversidade. A mídia esconde que a alta da inflação também é conseqüência do incentivo à produção de etanol para exportação o que amplia a monocultura da cana-de-açúcar e aumenta o preço dos alimentos e a concentração da propriedade da terra por empresas estrangeiras. O ódio contra toda essa injustiça endurece o rosto, enrouquece a voz.


Ah, infelizmente, nós que desejamos preparar terreno para a bondade não pudemos ser bons. Vós, porém, quando chegar o momento em que o ser humano seja bom para o ser humano e forem falar do que fizemos... não, não pensem em nós com compreensão. Julguem, sem qualquer indulgência aqueles que, entre nós, traíram a nossa classe e se associaram aos que nos perseguem e massacram.


(*) Stela Guedes Caputo é jornalista (texto e foto da autora). Texto adaptado do poema de Brecht com dados da página do MST.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Agronegócio: dois olhares para o mesmo conceito

O alerta dos camponeses contra o agronegócio


1 – AGRONEGÓCIO não significa apenas uma operação comercial com produtos agrícolas, como diz o dicionário e como alguns articulistas da imprensa corporativa querem usar. No Brasil, esse é um modelo específico de organizar a produção e o comércio na agricultura e que se transformou numa categoria socioeconômica.

Ele representa a aliança que se produziu a partir do neoliberalismo entre os grandes proprietários de terra com as empresas estrangeiras. Essas grandes transnacionais, como Monsanto, Bunge, Cargill, ADM, Syngenta, Bayer, Basf, Dreyfus, Unilever, Nestlé e Danone, dominam todo o comércio mundial e os preços dos insumos e dos produtos agrícolas.

Esse modelo impõe o monocultivo especializado com uma só planta em grandes extensões de terra. E, para se viabilizar, precisa de mecanização intensiva, muito veneno agrícola (os agrotóxicos) e pouca mão-de-obra. Basicamente toda a produção é voltada para o comércio exterior. Exportam a maior parte da soja, milho, algodão, café, açúcar, etanol e laranja que fabricam. Tudo isso financiado com dinheiro público, com juros subsidiados.

E, apesar de estarem ganhando muito dinheiro, o governo renegociou com os grandes ruralistas uma dívida de R$ 75 bilhões, por 20 anos! Além disso, desde os tempos do governo de FHC, foi aprovada a Lei Kandir, que isenta de ICMS todas as exportações de matérias-primas agrícolas e minerais. Ou seja, o agronegócio não paga nada de imposto nas exportações. Isso representa um grande subsídio. Então, alguém precisa avisar o Lula, quando reclama dos benefícios agrícolas dados pelos governos dos Estados Unidos e Europa aos seus fazendeiros, que aqui no Brasil o subsídio em termos percentuais é até maior.

O fato é que o Brasil está virando uma nova colônia dos capitalistas estrangeiros, que querem apenas nossa natureza para produzir o que eles precisam e enriquecer ainda mais. E nós ficamos com a degradação do meio ambiente, com a transferência da água, que vai dentro dos produtos, com a destruição da biodiversidade imposta pela monocultura e com os alimentos contaminados, que geram muitas enfermidades para a população.

Por isso, as elites se protegem comendo apenas produtos orgânicos, cada vez mais caros nas gôndolas de supermercados. Enquanto isso, o povo fica com o desemprego, a pobreza e o êxodo rural, que expulsa a mão-de-obra do campo para as favelas da cidade.

Portanto, o agronegócio só interessa às empresas estrangeiras e aos grandes proprietários – que, aliás, vivem nas cidades sem trabalhar – e não ao povo brasileiro, que apenas paga a conta.

2 – Mas há alternativas. É possível produzir em larga escala, com técnicas da agroecologia, que protegem o meio ambiente e garantem a biodiversidade através da policultura e da combinação de plantas. É possível e necessário produzir alimentos saudáveis e baratos.

Essa alternativa significa organizar a produção agrícola na forma de pequenas e médias unidades, com mão-de-obra familiar e na forma camponesa, combinando essa produção com agroindústrias cooperativadas e fixando a juventude e as pessoas no meio rural. Ou seja, é possível produzir muito mais alimentos, em vez de etanol e eucalipto, e com menos recursos. A grande propriedade usa muito mais crédito, e de maneira irresponsável, do que os agricultores familiares.

Por isso, na primeira quinzena desse mês, em todo o Brasil, os trabalhadores rurais da Via Campesina estão se mobilizando para denunciar o modelo do agronegócio. Para que o povo da cidade saiba que está comendo alimentos envenenados e pagando a conta. Para que o povo saiba qual o motivo do preço dos alimentos terem aumentado. A sociedade precisa saber por que o clima anda cada vez mais descontrolado. Por que falta água em tantas regiões do país e por que há aquecimento global, enquanto meia dúzia de empresas estão acumulando muito dinheiro.

Por tudo isso, os camponeses se mobilizaram em locais símbolos do agronegócio, como as sedes das grandes empresas – campeãs na multiplicação de sementes transgênicas, no monocultivo de eucalipto de exportação –, nos portos e ferrovias utilizados para exportação de nossas riquezas.

por peruanoÚltima modificação 26/06/2008 22:29


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Em defesa da agricultura familiar

Miguel do Rosário

A agricultura familiar é responsável por 70% da produção de alimentos no país e representa a esmagadora maioria numérica dos produtores. Não temos "pouquíssimos" nesta situação.

Temos milhões de pequenos agricultores no país, e sua situação melhorou muito nos últimos anos. No Espírito Santo, por exemplo, 95% das propriedades são pequenas. Estive lá recentemente, no norte, para fazer uma reportagem, e verifiquei, in loco, que os pequenos estavam conseguindo produtividade recorde, mais que os grandes: em primeiro lugar por sua bravura e talento pessoais, e depois pela maior disponibilidade de recursos do Banco do Brasil e maior assistência técnica - no caso, por extensionistas do governo estadual do ES, através do Incaper.

O Brasil tem uma produção agrícola muito superior e mais variada que a Argentina. O plano federal em prol da agricultura familiar prevê aumento de verbas e de assistência técnica. Os número de extensionistas subirá de 20 mil para 30 mil.

Reforma agrária não é distribuir terra. Isso é uma grande bobagem. Reforma agrária é possuir uma política agrária inteligente.

Não há deslumbramento com o agronegócio empresarial. Há sim, por parte de segmentos esquerdistas, um preconceito irracional contra o agronegócio, que responde por quase 40% das exportações nacionais e gera milhões de empregos.

A maioria dos empresários agrícolas são de médio porte, que trabalham muito, pagam os trabalhadores de acordo com a lei e contribuem decisivamente para o desenvolvimento do país.

A desapropriação de terras, que é o que muita gente entende como sendo a única verdadeira reforma agrária, depende da Justiça brasileira e de entendimentos no Congresso Nacional, fatores que fogem totalmente ao controle do governo. O mais importante é que as desapropriações e a legalização dos assentamentos sejam feitas com qualidade. O FHC legalizou alguns assentamentos mas não deu condições para a viabilidade econômica dos mesmos.

Por fim, não estou seguro de que a Cristina (a quem admiro e apoio) tomou a melhor decisão em taxar as exportações de soja e milho. Entendo que isso não tem nada a ver com guerra contra o latifúndio e sim forma de aumentar a receita do Estado e, talvez, desestimular o plantio desses produtores, em prol de maior investimento em trigo, por exemplo. Mas acho uma medida repressiva contra-producente que, além de antipática politicamente, pode desacelerar os investimentos produtivos no país, num momento em que o mundo precisa produzir mais alimentos - e soja, ao cabo, é um produto fundamental para a produção alimentar, visto que é a base principal das rações para aves, suínos e bovinos, etc.

Quanto à estrangeirização (compra de terras por estrangeiros no Brasil), o governo agora está iniciando medidas bastante severas para evitar distorções, mas não devemos cair em xenofobia barata. Investimento estrangeiro produtivo sempre é bem vindo, porque paga imposto aqui, gera emprego aqui e produz alimento aqui.

Por fim, a produção de soja e cana exigem unidades grandes de produção. Não se pode confundir, porém, grandes unidades de produção com latifúndios improdutivos. O inimigo é o latifúndio IMPRODUTIVO, as terras degradadas, a pecuária indecentemente extensiva.

Os fazendeiros não são os adversários da reforma agrária. São seus maiores aliados. A reforma agrária tem que ser feita para beneficiar os fazendeiros, e o imaginário esquerdista contra o fazendeiro é totalmente reacionário.

Um fazendeiro ganha menos dinheiro que jogador de futebol ou celebridade, tem mais riscos, trabalha mais, e tem uma importância vital para o país. A lógica da agricultura é diferente do trabalho urbano, onde o sujeito ganha seu dinheiro mensalmente, tem garantias trabalhistas, não se arrisca. Um produtor agrícola ganha muito hoje e perde muito no ano seguinte. Vive numa tensão constante se vai chover na época da floração. As chuvas não apenas tem que vir regularmente, como tem que cair na hora certa. Enfim, é uma atividade muito ingrata, que além do apoio governamental, merece ser mais respeitada pela sociedade, e não demonizada vulgarmente por esquerdistas urbanóides.

Segundo o IBGE, o Brasil tem 3,6 milhões de proprietários agrícolas. Isso oficialmente. Na prática deve ser o dobro, porque muitas terras que estão em nome de uma pessoa já estão divididas para seus diversos filhos.

Quanto à Raposa do Sol, acho que tem que ser homologada e a terra ficar mesmo com os índios. O problema do Brasil não é apenas a concentração de terra. Em algumas áreas, há problema também de pulverização de terras, de micro-fúndios que, por serem tão pequenos, inviabilizam a atividade agrícola sustentável.

O MST é importante, mas não podemos esquecer que o número de pequenos agricultores familiares no Brasil é muito superior ao número de filiados ao MST. Com todo o respeito ao MST, é uma questão de justiça priorizar o pequeno agricultor familiar já estabelecido, que está labutando na terra. Quanto à criminalização do MST pelo MP gaúcho, é coisa de nazista sulista que, espero eu, não deve prosperar.

(Miguel do Rosário é jornalista e este texto é uma resposta aos meus comentários a esse outro texto aqui)

A perseguição aos trabalhadores organizados na História do Brasil

Recentemente alguns promoteres do MP-gaúcho compararam o MST aos 'guerrilheiros' e fizeram um relatório que propunha tornar o MST um movimento criminoso (acompanhe o caso aqui).

Diante dessa ação sem precedentes no Ministério Público, órgão cuja principal função é dar acesso à Justiça a quem a Justiça é negada, houve manifestações de apoio ao movimento social dos Sem terra de lideranças, intelectuais do Brasil e de várias partes do mundo.

No relatório do MP-gaúcho as obras de Paulo Freire, Makarenko, Florestan Fernandes e até Saramago foram descritas como leituras 'subversivas'. Tais alusões manifestou repúdio da esposa de Paulo Freire, Nita Freire (ouça aqui) e inúmeros textos escritos por acadêmicos e intelectuais.

Até mesmo um movimento dentro do Ministério Público escreveu um texto condenando a ação de seus pares (leia-o aqui) e o procurador federal Flávio Santanna Xavier também, leia-o aqui. Finalmente, Mauro Henrique Renner- Procurador Geral de Justiça - respondeu os apelos da sociedade civil clique aqui.

Em nosso país tratar questões sociais e a organização dos trabalhadores 'como caso de polícia' não é recente. O Texto destacado abaixo da historiadora Virgínia Fontes faz uma síntese da repressão aos setores populares quando eles resolvem se organizar politicamente. Boa Leitura e boas reflexões.

A História do Brasil tem um matiz doloroso: a perversidade seletiva praticada contra a organização social dos setores populares

08/07/2008

Virgínia Fontes*

A História do Brasil tem um matiz doloroso: a perversidade seletiva praticada contra a organização social dos setores populares. Para os grupos endinheirados ou empresariais, abrem-se todas as facilidades – além de contarem com enormes recursos. Enquanto isso, as iniciativas dos setores populares, que enfrentam sempre maiores dificuldades, costumam ser duramente perseguidas.

Na longa lista dessa repressão seletiva sobre a sociedade civil, quando originada em setores populares, algumas situações foram dramáticas e merecem ser relembradas, pela semelhança com a truculência das falsas acusações contra o MST no Rio Grande do Sul e pelo uso cínico de dois pesos e duas medidas. Eis algumas das arbitrariedades profundamente anti-democráticas, que carregavam marcas sinistras de ditaduras:

1. Na década de 1930, a ditadura de Getúlio Vargas implantou um sistema corporativo obrigatório para a representação sindical. A lei deveria aplicar-se para trabalhadores e empresários. Aos primeiros, a repressão foi rigorosa e brutal, desmantelando todas as formas de organização que não se enquadravam no novo sistema. Para os empresários, entretanto, fez-se vista grossa, permitindo que mantivessem sistema dual, no qual conviviam o regime corporativo e centros privados, não apenas sem serem incomodados pela polícia que reprimia os trabalhadores, mas se convertendo em “interlocutores legítimos do governo”.

2. Em 1947, foi cassado o registro do PCB, falsamente acusado de ser dirigido pela União Soviética. Todas as análises sociológicas ou políticas e toda a historiografia brasileira desde então provaram exaustivamente o contrário, o que já era sabido na ocasião e que, aliás, ficou claramente expresso pelos votos (vencidos) de dois ministros que participaram da votação. A atuação do PCB na Constituinte de 1946 – na qual se destacou – primara pela defesa de uma efetiva democratização, que assegurasse as liberdades democráticas, o direito de greve, a luta contra a censura e as arbitrariedades policiais. O crescimento de partido político que não nascera das entranhas do poder e que procurava organizar os setores populares foi podado na origem, levando-o a cair em duríssima clandestinidade e dificultando enormemente a participação popular no período. Em contrapartida, em 1949, o mesmo tribunal aceitaria o registro do Partido da Representação Popular, continuador da Ação Integralista Brasileira, partido pró-fascista e golpista, que prosseguiu impunemente sua atuação na política brasileira, até ser ultrapassado pela ditadura militar, na qual se diluiu.

3. Entre 1961 e 1964, grande variedade de organizações (chegavam a 500 em 1963), em sua maioria com base empresarial, foi criada e apoiada a partir dos institutos de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes) e Brasileiro de Ação Democrática (Ibad). Contaram com apoios governamentais, com favores da mídia, com recursos empresariais, com extensa rede de associações internacionais, contatos com governos exteriores – em especial, dos Estados Unidos. Em documentadíssima e jamais contestada pesquisa, René Dreifuss demonstra como se articulavam com setores militares, construindo as bases do golpe civil-militar que lançaria o país em longa ditadura. Criminalizavam e satanizavam todos os movimentos de cunho popular, a começar pelos trabalhadores rurais, então organizados sobretudo nas Ligas Camponesas. Imediatamente após o golpe, enquanto os integrantes dessas entidades refestelavam-se nas macias poltronas do poder, desencadearam truculenta repressão sobre todas as formas de organização popular, contando, inclusive, com arquivos que passariam a integrar o Serviço Nacional de Informação (SNI).

O MST é uma organização popular modelo em nosso país, reconhecida na América Latina e no mundo. Apesar dos obstáculos derivados da própria condição de vida de seus integrantes, estes se mobilizam, educam e formam seus militantes e familiares, os quais permaneceriam esquecidos, esbulhados e sem direitos caso não se organizassem para exigi-los. No entanto, o MST enfrenta corriqueiramente a violência seletiva, visível na longa lista de mortos e torturados dentre seus militantes. A truculência atual, exibida pela documentação forjada para incriminá-lo deixa supor, a julgar pela nossa trajetória histórica, a existência de organizações empresariais e policiais cujo intuito é criminalizar a voz popular, mantendo a segregação social que ainda persiste em nosso país.

Virgínia Fontes, historiadora, é professora da Pós-Graduação em História da UFF, da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio/Fiocruz e da Escola Nacional Florestan Fernandes-MST.