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segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

“ÀS FAVAS, SENHOR PRESIDENTE, COM OS ESCRÚPULOS DE CONSCIÊNCIA”

Retomo o tema AI 5 reproduzindo o post a seguir e o link para a reportagem sobre o mesmo tema, ambos de autoria de Rodrigo Vianna.
Vale a pena ler e ver, Rodrigo Vianna é um excelente jornalista e tem formação em História.


“ÀS FAVAS, SENHOR PRESIDENTE, COM OS ESCRÚPULOS DE CONSCIÊNCIA”

sábado, 13 de dezembro de 2008 às 16:24

Não sei se você já ouviu esta frase aí em cima. Neste sábado, dia 13 de dezembro, faz 40 anos que o governo dos generais mandou às favas os escrúpulos, e decretou o AI-5 no Brasil: um decreto que permitia fechar o Congresso, acabava com habeas corpus. Foi o golpe dentro do golpe. A ditadura sem pudor, escancarada. Sem escrúpulos.

A frase foi dita por Jarbas Passarinho (na época, Ministro do Trabalho de Costa e Silva), durante a reunião que decretou o Ato Institucional, em 13 de dezembro de 68. Eu já tinha lido sobre a frase algumas vezes. Mas, uma coisa é ler, outra é ouvir, da boca de quem a proferiu. Seis meses atrás, eu fui entrevistar o Passarinho, pra uma série de reportagens que fizemos no Jornal da Record, sobre “1968 – O Ano que Mudou o Mundo.”

Você assiste à reportagem aqui: clique aqui para assistir

O ex-ministro é hoje um senhor alquebrado, que anda com dificuldade. Atencioso, camarada, Passarinho não faz o estilo militar durão. A gente acaba simpatizando com ele. Enquanto Passarinho descrevia o clima da época, eu refletia sobre a fragilidade de todos nós: o homem poderoso, capaz de mandar às favas os escrúpulos, hoje é um velhinho de quem a gente quase sente pena.

Na conversa, ele repetiu a frase. Nós botamos isso na edição da matéria. E reproduzimos o áudio da reunião em que Costa e Silva e os ministros mergulharam o Brasil em noite profunda e duradoura. Não sei se o impacto é grande para o telespectador. Pra mim, foi enorme. Na hora em que Passarinho repetiu a frase de 40 anos atrás, esqueci que ele está velho, esqueci que o tempo passou, e quase tive vontade de gritar: “Não, não!” Tive vontade de voar no pescoço dele...

Mas, meus “escrúpulos de consciência” falaram mais alto. Disfarcei a raiva, controlei-me e segui a entrevista.

Esse tumulto todo me atordoou um pouco. Tumulto provocado pelo fato de, num primeiro momento, simpatizar pessoalmente com aquele homem que ajudou a construir uma ditadura perversa no Brasil. Tumulto aumentado pelo fato de, no minuto seguinte, sentir raiva dele. Tudo bem, o Passarinho, pelo que se sabe, não foi torturador, não é um assassino cruel. Mas, abriu caminho para que outros assassinos fizessem o serviço. Isso tudo passou pela minha cabeça em 30 segundos, enquanto Passarinho falava, e a câmera registrava tudo.

Esse pequeno tumulto interior, minhas emoções contraditórias: nada disso entrou na reportagem. Ou melhor, não entrou explicitamente. Porque, na edição final, ficou claro o que o AI-5 significou para o país.

Se o jornalista deve – sempre – fazer um esforço para escutar as várias partes envolvidas num acontecimento, não pode se iludir com o discurso da “neutralidade” que muitos tentam vender como a marca da profissão. Neutralidade não existe. Isso é besteira. É uma forma ideológica de mascarar os intereses envolvidos na produção e reprodução das notícias (depois, voltarei a esse tema, lembrando reflexões do grande Cláudio Abramo sobre o assunto).

Como ser “neutro” diante do AI-5?

Posso – e devo - ouvir personagens como Passarinho e Delfim Neto (outro que assinou o AI-5), abrindo espaço para que eles expliquem suas razões ao público. Mas, não posso aceitar o que eles fizeram. Tenho posições claras, como cidadão e como jornalista (espero que na reportagem sobre o AI-5 isso tenha ficado claro).

Por isso, não tenho problema nenhum em afirmar com todas as letras:

“às favas, senhores leitores e jornalistas, com qualquer escrúpulo de neutralidade”.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

1968 - 2008: 40 ANOS DA INSTITUIÇÃO DO AI-5

Neste e nas próximos postagens vamos falar um pouco de uma data redonda: 1968.
Comecemos pelo AI-5:

AI-5 Ato Institucional nº 5




Capa do jornal O Globo toruxe estampada a medida


Durante o governo de Arthur da Costa e Silva - 15 de março de 1967 à 31 de agosto de 1969 - o país conheceu o mais cruel de seus Atos Institucionais. O Ato Institucional Nº 5, ou simplesmente AI 5, que entrou em vigor em 13 de dezembro de 1968, era o mais abrangente e autoritário de todos os outros atos institucionais, e na prática revogou os dispositivos constitucionais de 67, além de reforçar os poderes discricionários do regime militar. O Ato vigorou até 31 de dezembro de 1978.

CONHEÇA NA ÍNTEGRA o AI-5:

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL , ouvido o Conselho de Segurança Nacional, e

CONSIDERANDO que a Revolução brasileira de 31 de março de 1964 teve, conforme decorre dos Atos com os quais se institucionalizou, fundamentos e propósitos que visavam a dar ao País um regime que, atendendo às exigências de um sistema jurídico e político, assegurasse autêntica ordem democrática, baseada na liberdade, no respeito à dignidade da pessoa humana, no combate à subversão e às ideologias contrárias às tradições de nosso povo, na luta contra a corrupção, buscando, deste modo, "os. meios indispensáveis à obra de reconstrução econômica, financeira, política e moral do Brasil, de maneira a poder enfrentar, de modo direito e imediato, os graves e urgentes problemas de que depende a restauração da ordem interna e do prestígio internacional da nossa pátria" (Preâmbulo do Ato Institucional nº 1, de 9 de abril de 1964);

CONSIDERANDO que o Governo da República, responsável pela execução daqueles objetivos e pela ordem e segurança internas, não só não pode permitir que pessoas ou grupos anti-revolucionários contra ela trabalhem, tramem ou ajam, sob pena de estar faltando a compromissos que assumiu com o povo brasileiro, bem como porque o Poder Revolucionário, ao editar o Ato Institucional nº 2, afirmou, categoricamente, que "não se disse que a Resolução foi, mas que é e continuará" e, portanto, o processo revolucionário em desenvolvimento não pode ser detido;

CONSIDERANDO que esse mesmo Poder Revolucionário, exercido pelo Presidente da República, ao convocar o Congresso Nacional para discutir, votar e promulgar a nova Constituição, estabeleceu que esta, além de representar "a institucionalização dos ideais e princípios da Revolução", deveria "assegurar a continuidade da obra revolucionária" (Ato Institucional nº 4, de 7 de dezembro de 1966);

CONSIDERANDO, no entanto, que atos nitidamente subversivos, oriundos dos mais distintos setores políticos e culturais, comprovam que os instrumentos jurídicos, que a Revolução vitoriosa outorgou à Nação para sua defesa, desenvolvimento e bem-estar de seu povo, estão servindo de meios para combatê-la e destruí-la;

CONSIDERANDO que, assim, se torna imperiosa a adoção de medidas que impeçam sejam frustrados os ideais superiores da Revolução, preservando a ordem, a segurança, a tranqüilidade, o desenvolvimento econômico e cultural e a harmonia política e social do País comprometidos por processos subversivos e de guerra revolucionária;

CONSIDERANDO que todos esses fatos perturbadores, da ordem são contrários aos ideais e à consolidação do Movimento de março de 1964, obrigando os que por ele se responsabilizaram e juraram defendê-lo, a adotarem as providências necessárias, que evitem sua destruição,

Resolve editar o seguinte

ATO INSTITUCIONAL

Art 1º - São mantidas a Constituição de 24 de janeiro de 1967 e as Constituições estaduais, com as modificações constantes deste Ato Institucional.

Art 2º - O Presidente da República poderá decretar o recesso do Congresso Nacional, das Assembléias Legislativas e das Câmaras de Vereadores, por Ato Complementar, em estado de sitio ou fora dele, só voltando os mesmos a funcionar quando convocados pelo Presidente da República.

§ 1º - Decretado o recesso parlamentar, o Poder Executivo correspondente fica autorizado a legislar em todas as matérias e exercer as atribuições previstas nas Constituições ou na Lei Orgânica dos Municípios.

§ 2º - Durante o período de recesso, os Senadores, os Deputados federais, estaduais e os Vereadores só perceberão a parte fixa de seus subsídios.

§ 3º - Em caso de recesso da Câmara Municipal, a fiscalização financeira e orçamentária dos Municípios que não possuam Tribunal de Contas, será exercida pelo do respectivo Estado, estendendo sua ação às funções de auditoria, julgamento das contas dos administradores e demais responsáveis por bens e valores públicos.

Art 3º - O Presidente da República, no interesse nacional, poderá decretar a intervenção nos Estados e Municípios, sem as limitações previstas na Constituição.

Parágrafo único - Os interventores nos Estados e Municípios serão nomeados pelo Presidente da República e exercerão todas as funções e atribuições que caibam, respectivamente, aos Governadores ou Prefeitos, e gozarão das prerrogativas, vencimentos e vantagens fixados em lei.

Art 4º - No interesse de preservar a Revolução, o Presidente da República, ouvido o Conselho de Segurança Nacional, e sem as limitações previstas na Constituição, poderá suspender os direitos políticos de quaisquer cidadãos pelo prazo de 10 anos e cassar mandatos eletivos federais, estaduais e municipais.

Parágrafo único - Aos membros dos Legislativos federal, estaduais e municipais, que tiverem seus mandatos cassados, não serão dados substitutos, determinando-se o quorum parlamentar em função dos lugares efetivamente preenchidos.

Art 5º - A suspensão dos direitos políticos, com base neste Ato, importa, simultaneamente, em:

I - cessação de privilégio de foro por prerrogativa de função;

II - suspensão do direito de votar e de ser votado nas eleições sindicais;

III - proibição de atividades ou manifestação sobre assunto de natureza política;

IV - aplicação, quando necessária, das seguintes medidas de segurança:

a) liberdade vigiada;

b) proibição de freqüentar determinados lugares;

c) domicílio determinado,

§ 1º - o ato que decretar a suspensão dos direitos políticos poderá fixar restrições ou proibições relativamente ao exercício de quaisquer outros direitos públicos ou privados.

§ 2º - As medidas de segurança de que trata o item IV deste artigo serão aplicadas pelo Ministro de Estado da Justiça, defesa a apreciação de seu ato pelo Poder Judiciário.

Art 6º - Ficam suspensas as garantias constitucionais ou legais de: vitaliciedade, mamovibilidade e estabilidade, bem como a de exercício em funções por prazo certo.

§ 1º - O Presidente da República poderá mediante decreto, demitir, remover, aposentar ou pôr em disponibilidade quaisquer titulares das garantias referidas neste artigo, assim como empregado de autarquias, empresas públicas ou sociedades de economia mista, e demitir, transferir para a reserva ou reformar militares ou membros das polícias militares, assegurados, quando for o caso, os vencimentos e vantagens proporcionais ao tempo de serviço.

§ 2º - O disposto neste artigo e seu § 1º aplica-se, também, nos Estados, Municípios, Distrito Federal e Territórios.

Art 7º - O Presidente da República, em qualquer dos casos previstos na Constituição, poderá decretar o estado de sítio e prorrogá-lo, fixando o respectivo prazo.

Art 8º - O Presidente da República poderá, após investigação, decretar o confisco de bens de todos quantos tenham enriquecido, ilicitamente, no exercício de cargo ou função pública, inclusive de autarquias, empresas públicas e sociedades de economia mista, sem prejuízo das sanções penais cabíveis.

Parágrafo único - Provada a legitimidade da aquisição dos bens, far-se-á sua restituição.

Art 9º - O Presidente da República poderá baixar Atos Complementares para a execução deste Ato Institucional, bem como adotar, se necessário à defesa da Revolução, as medidas previstas nas alíneas d e e do § 2º do art. 152 da Constituição.

Art 10 - Fica suspensa a garantia de habeas corpus , nos casos de crimes políticos, contra a segurança nacional, a ordem econômica e social e a economia popular.

Art 11 - Excluem-se de qualquer apreciação judicial todos os atos praticados de acordo com este Ato institucional e seus Atos Complementares, bem como os respectivos efeitos.

Art 12 - O presente Ato Institucional entra em vigor nesta data, revogadas as disposições em contrário.

Brasília, 13 de dezembro de 1968; 147º da Independência e 80º da República.

A. COSTA E SILVA
Luís Antônio da Gama e Silva
Augusto Hamann Rademaker Grünewald
Aurélio de Lyra Tavares
José de Magalhães Pinto
Antônio Delfim Netto
Mário David Andreazza
Ivo Arzua Pereira
Tarso Dutra
Jarbas G. Passarinho
Márcio de Souza e Mello
Leonel Miranda
José Costa Cavalcanti
Edmundo de Macedo Soares
Hélio Beltrão
Afonso A. Lima
Carlos F. de Simas

Fonte: Acervoditadura.rs.gov.br