A história e seus ardis: O lulismo posto à prova em 2010
Por André Singer via google docs
RESUMO
"O mundo é um mosaico de pontos de vista. Aprendemos muito com os pontos de vista dos outros, e perder nem que seja um pedaço desse mosaico é uma perda para todos nós. David Crystal (A revolução da linguagem,2004:69).
O objetivo de uma economia não é o ganho, mas sim o bem-estar de toda a população. O crescimento econômico não é um fim, mas um meio para dar vida a sociedades boas, humanas e justas. Não importa como chamamos os regimes que buscam essa finalidade. Importa unicamente como e com quais prioridades saberemos combinar as potencialidades do setor público e do setor privado nas nossas economias mistas. Essa é a prioridade política mais importante do século XXI. ( Eric Hobsbawm).
Segundo Hobsbawn, todos os países do Leste, assim como os do Oeste, devem sair da ortodoxia do crescimento econômico a todo custo e dar mais atenção à equidade social. Os países ex-soviéticos, afirma, ainda não superaram as dificuldades da transição para o novo sistema.
Por Eric Hobsbawm*
O "século breve", o XX, foi um período marcado por um conflito religioso entre ideologias laicas. Por razões mais históricas do que lógicas, ele foi dominado pela contraposição de dois modelos econômicos – e apenas dois modelos exclusivos entre si – o "Socialismo", identificado com economias de planejamento central de tipo soviético, e o "Capitalismo", que cobria todo o resto.
Essa contraposição aparentemente fundamental entre um sistema que ambiciona tirar do meio do caminho as empresas privadas interessadas nos lucros (o mercado, por exemplo) e um que pretendia libertar o mercado de toda restrição oficial ou de outro tipo nunca foi realista. Todas as economias modernas devem combinar público e privado de vários modos e em vários graus, e de fato fazem isso. Ambas as tentativas de viver à altura dessa lógica totalmente binária dessas definições de "capitalismo" e "socialismo" faliram. As economias de tipo soviético e as organizações e gestões estatais sobreviveram aos anos 80. O "fundamentalismo de mercado" anglo-americano quebrou em 2008, no momento do seu apogeu. O século XXI deverá reconsiderar, portanto, os seus próprios problemas em termos muito mais realistas.
Como tudo isso influi sobre países que no passado eram devotados ao modelo "socialista"? Sob o socialismo, haviam reencontrado a impossibilidade de reformar os seus sistemas administrativos de planejamento estatal, mesmo que os seus técnicos e os seus economistas estivessem plenamente conscientes das suas principais carências. Os sistemas – não competitivos em nível internacional – foram capazes de sobreviver até que pudessem continuar completamente isolados do resto da economia mundial.
Esse isolamento, porém, não pôde ser mantido no tempo, e, quando o socialismo foi abandonado – seja em seguida à queda dos regimes políticos como na Europa, seja pelo próprio regime, como na China ou no Vietnã – estes, sem nenhum pré-aviso, se encontraram imersos naquela que para muitos pareceu ser a única alternativa disponível: o capitalismo globalizado, na sua forma então predominante de capitalismo de livre mercado.
As consequências diretas na Europa foram catastróficas. Os países da ex-União Soviética ainda não superaram as suas repercussões. A China, para sua sorte, escolheu um modelo capitalista diferente do neoliberalismo anglo-americano, preferindo o modelo muito mais dirigista das "economias tigres" ou de assalto da Ásia oriental, mas abriu caminho para o seu "gigantesco salto econômico para frente" com muito pouca preocupação e consideração pelas implicações sociais e humanas.
Esse período está quase às nossas costas, assim como o predomínio global do liberalismo econômico extremo de matriz anglo-americana, mesmo que não saibamos ainda quais mudanças a crise econômica mundial em curso implicará – a mais grave desde os anos 30 –, quando os impressionantes acontecimentos dos últimos dois anos conseguirão se superar. Uma coisa, porém, é desde já muito clara: está em curso uma alternância de enormes proporções das velhas economias do Atlântico Norte ao Sul do planeta e principalmente à Ásia oriental.
Nessas circunstâncias, os ex-Estados soviéticos (incluindo aqueles ainda governados por partidos comunistas) estão tendo que enfrentar problemas e perspectivas muito diferentes. Excluindo de partida as divergências de alinhamento político, direi apenas que a maior parte deles continua relativamente frágil. Na Europa, alguns estão assimilando o modelo social-capitalista da Europa ocidental, mesmo que tenham um lucro médio per capita consideravelmente inferior. Na União Europeia, também é provável prever o aparecimento de uma dupla economia. A Rússia, recuperada em certa medida da catástrofe dos anos 90, está quase reduzida a um país exportador, poderoso mas vulnerável, de produtos primários e de energia e foi até agora incapaz de reconstruir uma base econômica mais bem balanceada.
As reações contra os excessos da era neoliberal levaram a um retorno, parcial, a formas de capitalismo estatal acompanhadas por uma espécie de regressão a alguns aspectos da herança soviética. Claramente, a simples "imitação do Ocidente" deixou de ser uma opção possível. Esse fenômeno ainda é mais evidente na China, que desenvolveu com considerável sucesso um capitalismo pós-comunista próprio, a tal ponto que, no futuro, pode também ocorrer que os historiadores possam ver nesse país o verdadeiro salvador da economia capitalista mundial na crise na qual nos encontramos atualmente. Em síntese, não é mais possível acreditar em uma única forma global de capitalismo ou de pós-capitalismo.
Em todo caso, delinear a economia do amanhã é talvez a parte menos relevante das nossas preocupações futuras. A diferença crucial entre os sistemas econômicos não reside na sua estrutura, mas sim na suas prioridades sociais e morais, e estas deveriam portanto ser o argumento principal do nosso debate. Permitam-me, por isso, a esse ilustrar dois de seus aspectos de fundamental importância a esse propósito.
O primeiro é que o fim do Comunismo comportou o desaparecimento repentino de valores, hábitos e práticas sociais que haviam marcado a vida de gerações inteiras, não apenas as dos regimes comunistas em estrito senso, mas também as do passado pré-comunista que, sob esses regimes, haviam em boa parte se protegido. Devemos reconhecer quanto foram profundos e graves o choque e a desgraça em termos humanos que foram verificados em consequência desse brusco e inesperado terremoto social. Inevitavelmente, serão necessárias diversas décadas antes de que as sociedades pós-comunistas encontrem uma estabilidade no seu "modus vivendi" na nova era, e algumas consequências dessa desagregação social, da corrupção e da criminalidade institucionalizadas poderiam exigir ainda muito mais tempo para serem combatidas.
O segundo aspecto é que tanto a política ocidental do neoliberalismo, quanto as políticas pós-comunistas que ela inspirou subordinaram propositalmente o bem-estar e a justiça social à tirania do PIB, o Produto Interno Bruto: o maior crescimento econômico possível, deliberadamente inigualitário. Assim fazendo, eles minaram – e nos ex-países comunistas até destruíram – os sistemas da assistência social, do bem-estar, dos valores e das finalidades dos serviços públicos. Tudo isso não constitui uma premissa da qual partir, seja para o "capitalismo europeu de rosto humano" das décadas pós-1945, seja para satisfatórios sistemas mistos pós-comunistas.
O objetivo de uma economia não é o ganho, mas sim o bem-estar de toda a população. O crescimento econômico não é um fim, mas um meio para dar vida a sociedades boas, humanas e justas. Não importa como chamamos os regimes que buscam essa finalidade. Importa unicamente como e com quais prioridades saberemos combinar as potencialidades do setor público e do setor privado nas nossas economias mistas. Essa é a prioridade política mais importante do século XXI.
*historiador inglês e membro da Academia Britânica de Ciências Eric J. Hobsbawm apresentou no primeiro dia do World Political Forum, em Bosco Marengo (Alexandria). Do Fórum deste ano, sobre o tema "O Leste: qual futuro depois do comunismo?", participam, dentre outros, Mikhail Gorbachev e Yuri Afanasiev.
FolhaSP - 20 / 06 /2004
A ruptura do padrão dólar fixo, a derrota do Vietnã e as crises do petróleo, balançaram os pilares do poder americano. A maioria dos analistas continuou a proclamar a derrota definitiva da hegemonia americana, mesmo depois de 1985 quando a crise já tinha sido superada e os EUA avançavam na direção de um poder global.
A política externa dos EUA, depois da movida diplomática de Nixon (Kissinger) em relação à China, tinha deixado de se concentrar nos conflitos Leste-Oeste, congelados pela distensão da guerra fria e deslocado seu foco para o Oriente Médio. Tratava-se de resolver em simultâneo a geopolítica da área e a geoeconomia do petróleo ambas em grande período de turbulência. O condomínio americano-saudita-iraniano reafirmado pelo acordo de Teerã de 1971 durou pouco, graças à instabilidade do Sistema Monetário Internacional e aos conflitos crescentes nos países árabes que se agravaram com a derrubada do Xá do Irã.
A instabilidade do dólar só foi contornada depois da “diplomacia do dólar forte” do governo Reagan (Volker) seguida pelos acordos Plaza-Louvre de 1985 em que os americanos apoiados pelos europeus impingiram uma valorização considerável ao Yen. Este tornou-se a “moeda de ajuste” às flutuações do “dólar flexível”, dadas as enormes reservas japonesas em dólar. No mercado de petróleo o ajuste foi passado em última instância para a Arábia Saudita – o país com as maiores reservas petrolíferas do mundo – encarregado de expandir ou contrair a produção de acordo com a expansão da demanda e as flutuações de preços.
Assim nos dois “mercados flexíveis”, o dólar e o petróleo, os EUA deixaram de arcar internamente com o ônus da desregulação que caracterizou o período da transição 1973/85 e passaram a uma economia de comando na qual a política norte-americana faz unilateralmente as intervenções preventivas ou corretivas, segundo a conjuntura. Sem regras gerais auto-aplicáveis e sem consideração pelas regras dos organismos internacionais que eles mesmos ajudaram a criar, o intervencionismo preventivo norte-americano expandiu como nunca o seu poder global.
Do ponto de vista militar, a estratégia da intervenção preventiva prosperou. No caso do Oriente Médio, os EUA não esperaram para substituir a velha gerdarmerie colonial como ocorreu no caso do Vietnã. Intervieram em todos os conflitos, fizeram tratados unilaterais com o Egito e com Israel, apoiaram primeiro o Xá do Irã e, quando este foi derrubado pela “revolução xiita” em 1979, armaram o Iraque na longa guerra que se seguiu, apoiando Sadam Hussein que viriam a derrubar duas décadas depois. A Arábia Saudita manteve-se até hoje como o único aliado fiel dos EUA, depois das mudanças sucessivas de alianças e dos conflitos nos demais países árabes.
A velha Inglaterra - que conseguira depois da guerra de 1914 garantir a sua política de protetorados e de árbitro dos conflitos do Oriente Médio - foi empurrada para fora do comando pela superpotência americana e retirou-se “voluntariamente” por ter achado petróleo mais barato no Mar do Norte. Suas pretensões “arbitrais” na área estavam definitivamente minadas desde a crise do Canal de Suez e requeriam a passagem do bastão para os EUA. Só voltou como personagem auxiliar na segunda guerra do Iraque no começo deste século.
Dentro da mesma lógica, apesar da implosão da URSS, as antigas bases, instaladas após a 2ª guerra mundial mantêm-se dentro da União Européia e expandiram-se para o leste europeu. As bases mais recentes estão localizadas em países possuidores de petróleo ou nas atuais fronteiras russas e chinesas da Ásia Menor (ver Chalmers Johnson, 2004).
A gestão interna do intervencionismo preventivo se tornou mais complexa com a reafirmação da hegemonia norte-americana. Evidentemente as divergências de política econômica entre a Secretaria do Tesouro e o FED são facilmente contornáveis quando se tem à disposição uma política fiscal e monetária elásticas, e nenhum dos seus dirigentes pensa em contrariar os interesses dos grandes bancos americanos e da “comunidade financeira internacional”, já consolidados em Walll Street depois de 1985. O mesmo não se pode dizer do petróleo e das armas. Afinal o Texas não coordena adequadamente o mercado mundial de petróleo, e muito menos as políticas setoriais e globais do complexo militar americano.
O fato de que as bases militares no exterior respondem, em suas tarefas múltiplas, a comandos das forças armadas e da espionagem norte-americanas, não unificados internamente, perturba e distorce muitas vezes as informações disponíveis no Pentágono e no resto dos órgãos de segurança. Isso agrava as disputas entre a Secretaria de Defesa e o Departamento de Estado que vêm se acentuando desde o governo Reagan. Não existe na verdade um comando unificado da Segurança Nacional norte-americana (como se viu no desastre de 11 de setembro), talvez porque a “doutrina de segurança” e as agências de inteligência se espalharam a todos os escalões do governo desde que o poder nacional se confundiu com o poder global.
O cruzamento dos grandes interesses corporativos e militares que atravessam a geografia mundial, em particular a do petróleo, tornam os “dissensos de Washington” sobre decisões da política externa norte-americana, um verdadeiro quebra cabeças. O aumento desmedido do poder global dos EUA nas últimas décadas é incompatível com a noção de Ordem Internacional, por sua inerente instabilidade estrutural. A dinâmica da “globalização financeira” comandada pelo dólar não admite um padrão estável, nem coincide espacialmente com a expansão do poder militar. Esta é movida por outra lógica que não aceita qualquer movimento de “equilíbrio” ou coordenação dos demais poderes nacionais.